Os evangélicos são todos iguais?

Os evangélicos são todos iguais?

REDAÇÃO

04 de agosto de 2021 | 17h14

Deivison Henrique de Freitas Santos, Cientista Social e Mestrando em Ciência Política (UFPR). Pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (PONTE/UFPR) e ao Grupo de Pesquisa Comunicação, Discurso e Democracia (DISCORD/UTFPR). Bolsista Capes

Andressa Butture Kniess, Cientista social e Mestre em Ciência Política (UFPR). Doutoranda em Ciência Política pela mesma instituição. Integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (PONTE/UFPR) e do Grupo de Pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública (CPOP/UFPR). Bolsista Capes

Nos últimos anos, o papel dos evangélicos na política brasileira tem se tornado um dos pontos centrais para se compreender processos relacionados ao comportamento político e eleitoral de parte da sociedade e a atuação de atores políticos conectados a grupos religiosos. Entretanto, recorrentemente os fiéis que professam a fé evangélica são tratados como se fossem um bloco homogêneo de indivíduos.

Não é incomum ouvir falar que “os evangélicos” representam uma parte crucial do eleitorado a ser conquistada por lideranças políticas interessadas em cargos eletivos. Ou que “os evangélicos” apoiam ou rechaçam determinadas figuras públicas. Afirmações como essas fazem os fiéis parecerem mais uma entidade a ser levada em consideração em determinados momentos do que um grupo bastante heterogêneo de pessoas com diferentes concepções de mundo, práticas e crenças.

Diante disso, a intenção deste artigo é investigar em que medida, no que se refere a questões relacionadas à política e à democracia, os evangélicos brasileiros são semelhantes entre si. Neste momento, vale uma ida ao passado para entender de onde vieram esses religiosos que tanto vêm chamando a atenção no debate público recente.

Uma breve história dos evangélicos no Brasil

Estudiosos como Irineu Rabuske et. al. (2012) apontam que o protestantismo histórico chegou ao Brasil durante o século XIX através de ondas migratórias e de movimentos missionários, especialmente após o governo republicado ter reconhecido a separação entre Igreja e Estado. Nesse cenário, as igrejas luterana, anglicana e presbiteriana tiveram papel de destaque que perdurou até meados do século XX.

A partir de 1910, as correntes do evangelismo pentecostal chegaram ao Brasil – evento que ficou conhecido como “a primeira onda do pentecostalismo”, para utilizar uma nomenclatura comum aos trabalhos de pesquisadores da religião como Paul Freston (1995) e Ricardo Mariano (2014). Foi nesse período que igrejas hoje bastante conhecidas, como a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil, iniciaram seus trabalhos em solo nacional.

Entre 1950 e 1960, cresceu no país a chamada “Cruzada Nacional da Evangelização”, doutrina focada na cura divina e caracterizada pela pregação itinerante em tendas de lona. Nesse momento, começou a chamada “segunda onda do pentecostalismo”. Exemplos de denominações que surgiram nesse cenário são a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Deus é Amor e a Brasil para Cristo.

Finalmente, o neopentecostalismo (ou pentecostalismo de terceira onda) teve início na década de 1970, dando origem, por exemplo, à Universal do Reino de Deus, à Internacional da Graça de Deus, à Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra e à Renascer em Cristo.

Ao contrário dos tradicionais protestantes, os pentecostais são caracterizados por uma maior ênfase no sobrenatural, por meio da crença na ação do Espírito Santo. Desde a sua origem, o pentecostalismo adere a rituais que sugerem a cura de enfermos e a expulsão de demônios. Contudo, mesmo que as igrejas das três ondas possuam semelhanças – Ari Pedro Oro (2003) destaca que há um “efeito mimético” no relacionamento entre algumas instituições –, elas também divergem acerca de aspectos doutrinários e no papel da religião na política e na vida dos fiéis. Pois bem, mas como essas diferenças – e semelhanças – são representadas no mundo político?

Alguns apontamentos metodológicos

Para averiguar as diferenças e as semelhanças políticas entre os evangélicos brasileiros, utilizou-se os dados contidos no Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) de 2018[1]. O ESEB é um survey pós-eleitoral realizado em todo o Brasil e organizado pelo Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2018, a pesquisa entrevistou uma amostra de 2506 indivíduos.

O questionário do ESEB possui uma questão dedicada a saber a religião dos entrevistados. No caso dos evangélicos, a pesquisa também indaga os respondentes acerca de quais igrejas eles frequentam, se é que frequentam alguma.

Para responder as perguntas levantadas, foram selecionados todos aqueles que disseram professar a fé evangélica e que frequentavam alguma igreja (um total de 753 respondentes). Os fiéis foram classificados em cinco grupos, de acordo com as igrejas que alegaram acompanhar e tendo como base para a classificação os trabalhos de Paul Freston (1995) Ricardo Mariano (2014) e Leonildo Campos (2011). Os grupos se dividem entre:

  • Protestantes históricos, com um total de 153 fiéis das igrejas Batista, Luterana, Metodista, Presbiteriana, Protestante, Evangélica Confissão Luterana do Brasil e Episcopal Anglicana;
  • Pentecostais de 1° onda, com um total de 292 respondentes das igrejas Assembleia de Deus e Congregação Cristã no Brasil;
  • Pentecostais de 2° onda, com um total de 121 entrevistados das igrejas Brasil Para Cristo, Deus é Amor, Quadrangular, Pentecostal, Nova Vida, Avivamento Bíblico, Maranata e Igreja de Cristo;
  • Pentecostais de 3° onda, com um total de 76 fiéis das igrejas Internacional da Graça de Deus, Mundial do Poder de Deus, Sara Nossa Terra, Universal do Reino de Deus, Cristo Vive e Renascer em Cristo;
  • Outros Fiéis Evangélicos, categoria criada para alocar fiéis de igrejas pouco conhecidas ou de difícil classificação, como “Igreja Mais de Deus” e “Igreja Tempo de Colheita”; a categoria tem 111 indivíduos.

Para analisar as possíveis diferenças entre os fiéis no que se refere à política e à democracia, foram selecionadas três questões tendo em vista a conjuntura política de 2018 e que, até certa medida, mantem-se atuais diante do cenário recente do país. A primeira se trata do voto para presidente no segundo turno do pleito de 2018; a segunda diz respeito à afinidade dos entrevistados em relação ao PT (medida em uma escala de 10 pontos, que foi recategorizada como “Não Gosta”, “Indiferente” e “Gosta Muito); e a última questão dedicada a saber a concordância dos respondentes com a seguinte frase: O Brasil precisa de um líder que resolva a crise e os problemas do país, não importa se ele precisar desrespeitar as leis e as instituições. Agora, vamos aos resultados!

Política e democracia na opinião do povo de Deus

Na esteira do que já foi amplamente discutido por diversas análises sobre as eleições de 2018, nota-se um extenso apoio dos evangélicos em geral à candidatura Bolsonaro (Gráfico 1). Esse suporte, segundo os dados do ESEB, supera o valor de 70% entre os fiéis ligados ao protestantismo histórico e ao pentecostalismo de primeira e segunda onda. O apoio também foi expressivo entre os indivíduos alocados na categoria “Outros Fiéis Evangélicos”, com mais de 60% alegando ter votado em Bolsonaro no último pleito geral. Contudo, há uma ligeira inflexão entre os pentecostais de terceira onda, que, embora em sua maioria também tenham votado em Bolsonaro, demonstraram maior apoio à chapa petista se comparados com os demais religiosos. É interessante pontuar que uma das maiores igrejas vinculadas a esse grupo é a Igreja Universal do Reino de Deus, denominação que já ofertou significativo suporte a candidaturas petistas em eleições passadas.

Gráfico 1 – Voto para presidente no segundo turno de 2018

Fonte: ESEB (2018)

Sobre a opinião dos evangélicos acerca do Partido dos Trabalhadores (PT), identifica-se que há um número significativo de fiéis que não gostam do partido. O Gráfico 2 mostra que, a depender da filiação denominacional do fiel, a desaprovação do PT varia entre 47% e 64% dos entrevistados.

Mas os dados também trazem outra informação relevante: ainda existe um expressivo grupo de evangélicos que se mostram indiferentes e até mesmo gostam do PT. Esse é o caso, por exemplo, daqueles indivíduos vinculados a igrejas da segunda e terceira onda, onde, em cada caso, cerca de 50% dos entrevistados alegam ser indiferentes ou afirmam gostar muito da referida agremiação.

Claro que essa realidade diz respeito à 2018, mas é possível supor, com base nas últimas pesquisas de intenção de voto, que essa parcela tenha se mantido. Tal detalhe é de suma importância dado que a disputa eleitoral de 2022 promete ser bastante acirrada. Isso também indica que a relação entre alguns segmentos do eleitorado evangélico e o PT pode não ser tão espinhosa quanto algumas análises fazem parecer.

Em um cenário com Lula a frente da chapa petista, os dados apresentam que existe um campo aberto a ser conquistado no eleitorado evangélico, mais exatamente entre aqueles pertencentes a denominações das duas ondas supracitadas, como as igrejas Quadrangular e, a mais conhecida entre as neopentecostais, a Universal do Reino de Deus.

De acordo com pesquisa realizada em junho de 2021 pelo Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (IPEC), ainda que a vantagem de Lula em relação à Bolsonaro seja menor entre os evangélicos, ela existe: enquanto 41% afirmam que votariam em Lula em 2022, 32% desses eleitores afirmam preferir Bolsonaro[2]. Com base nos dados apresentados, talvez seja uma boa ideia focar as estratégias eleitorais em denominações especificas ao invés de tentar angariar apoio dos evangélicos de forma mais genérica.

Gráfico 2 – O que pensa sobre o PT?

Fonte: ESEB (2018)

Em se tratando do suporte dos fiéis à necessidade de um líder que resolva a crise, mesmo que para isso seja preciso desrespeitar as leis e as instituições, percebe-se que existem maiores diferenças entre os religiosos. Enquanto os protestantes históricos ficam divididos entre aqueles que discordam da afirmação e aqueles que concordam com ela, a categoria “Outros Fiéis Evangélicos” demonstra que os indivíduos desse grupo tendem a discordar da frase (55% dizem discordar muito ou pouco).

Já entre os evangélicos de alguma das três ondas do pentecostalismo, nota-se que existe um aumento gradual, da primeira onda até a terceira, daqueles que concordam com a necessidade de um líder forte que resolva a crise. No primeiro caso, 54% afirmam concordar, mesmo que parcialmente; entre os indivíduos de denominações da segunda onda, 56% alegam concordar muito ou pouco; e, por fim, entre os fiéis da terceira onda, uma considerável quantidade de 76% dizem concordar muito ou pouco com a afirmação. A faixa cinza no meio de algumas barras representa os indiferentes. Já que eles foram quase inexpressivos (entre 0% e 3%), optou-se por não apresentar os valores no gráfico e, assim, melhorar sua visualização.

Gráfico 3 – Precisamos de um líder forte que resolva a crise

Fonte: ESEB (2018)

Em geral, os dados mostram uma vultuosa predisposição dos evangélicos pentecostais em apoiar a necessidade de se ter um líder forte no país que, se preciso, passe por cima das instituições. Esse suporte aumenta significativamente quando se considera as denominações neopentecostais. Além de serem, em sua maioria, igrejas centradas na figura de líderes religiosos, as denominações neopentecostais, em especial, são caracterizadas por uma forte centralização e uma organização interna bastante hierarquizada. Um exemplo nesse caso é, novamente, a Igreja Universal do Reino de Deus, que concentra boa parte de suas decisões no conselho de bispos da instituição e, sobretudo, na figura de Edir Macedo. Cenário semelhante pode ser encontrado na Internacional da Graça de Deus, com R. R. Soares, e na Mundial do Poder de Deus, com Valdemiro Santiago.

A eleição de Bolsonaro, que contou com apoio de lideranças de diferentes correntes das igrejas pentecostais, já indicava a presença entre alguns segmentos do eleitorado evangélico de certa simpatia com figuras que se colocam como a solução para as “mazelas” do Estado e da elite política corrupta (leia-se: lideranças com traços populistas). Chama atenção, também, que os neopentecostais – grupo que apresentou votação mais equilibrada no segundo turno de 2018 – são mais adeptos a valores autoritários. Esse resultado indica que a insatisfação com a democracia não está, necessariamente, atrelada ao voto em Bolsonaro.

Apontamentos finais

A despeito das semelhanças encontradas sobre a escolha eleitoral no segundo turno de 2018 e da aversão aos petistas, os dados apresentam diferenças no apoio oferecido pelos religiosos aqui em análise a afirmações que simulam a necessidade de lideranças autoritárias que desrespeitem as leis e as instituições – essas diferenças entre os fiéis, inclusive, são estatisticamente significativas (p=0,01).

Diante do cenário nacional recente, a disposição em apoiar lideranças com traços populistas pode representar uma forte ameaça para a democracia brasileira, já enfraquecida. É importante estar atento à forma pela qual membros de determinadas denominações religiosas atuam no campo político e refletir sobre medidas que venham a mitigar possíveis danos que o regime político possa sofrer, uma vez que parcelas importantes da sociedade se mostram dispostas a renunciar a alguns princípios que regem uma democracia. É válido realçar, também, que as religiões não são necessariamente estáticas. Transformações e mudanças de perspectivas são possíveis, e muitas vezes bem-vindas.

Esses resultados evidenciam que, apesar das semelhanças entre as congregações evangélicas, é necessário ter cuidado ao tratar esses fiéis brasileiros como um grupo homogêneo, principalmente no que se refere a questões políticas. Os evangélicos podem ser iguais em certos aspectos, mas não em todos.

É fato que o eleitorado evangélico vem ocupando um espaço cada vez mais central no cenário político do Brasil. Entender as distinções presentes na profusão de denominações religiosas que compõem esse agrupamento de fiéis pode ser um fator determinante para o planejamento de estratégias eleitorais e interpretações mais fidedignas sobre a conjuntura político-religiosa do país. O ano de 2022 bate à porta e, havendo eleições, muito provavelmente a religião será uma variável relevante para compreender o desfecho eleitoral.

Notas

[1] Ver: https://www.cesop.unicamp.br/por/eseb/ondas>.

[2] Ver: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lula-lidera-intencao-de-voto-entre-eleitores-evangelicos-diz-pesquisa-ipec,70003758468>.

Referências

Campos, L. S. (2011). Pentecostalismo e Protestantismo “Histórico” no Brasil: um século de conflitos, assimilação e mudanças. Horizonte, 9(22): 504-533.

Freston, P. (1995). Pentecostalism in Brazil: A Brief History. Religion, 25(2): 119-133.

Mariano, R. (2014). Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (5°ed.). São Paulo: Edições Loyola.

Oro, A. P. (2003). A política da Igreja Universal e seus reflexos nos campos religioso e político brasileiros. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 18(53): 53-69.

Rabuske, I. J., Santos, P. L., Gonçalves, H. A. & Traub, L. (2012) Evangélicos brasileiros: quem são, de onde vieram e no que acreditam? Revista Brasileira de História das Religiões, (12): 255-367.

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