Os efeitos em cascata da COVID-19 nas cadeias produtivas

Os efeitos em cascata da COVID-19 nas cadeias produtivas

REDAÇÃO

14 de abril de 2020 | 12h01

Priscila Laczynski de Souza Miguel, mestra e doutora em Administração de Empresas pela FGV EAESP, onde coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain e é professora na EAESP/FGV no departamento de Gestão de Operações.

Cristiane Biazzin, mestra e doutora em Administração de Empresas pela FGV EAESP e pós-doutora em Engenharia da Produção pela UFSCAR. É professora da linha de Global Supply Chain Management na NKU – Northern Kentuckyu University.

 

Para lidar com a pandemia do corona-vírus e restringir o contágio entre a população, vários países e governantes adotaram medidas de restrição de circulação de pessoas e o distanciamento social. Estas decisões impactaram diferentes setores de formas distintas. Por exemplo, enquanto os setores de bem-estar e supermercadista têm sido demandados de forma crescente, o setor de lazer e hospitalidade tiveram suas operações suspensas ou canceladas.

Atualmente, o problema mais comum nas organizações não é a interrupção em si da demanda, mas a queda abrupta, substancial e incerta da demanda. A incerteza na demanda das empresas que estão diretamente ligadas ao consumidor final não fica restrita a elas, mas tem um efeito cascata em toda a cadeia de suprimentos, conhecido como efeito chicote. Com a redução na demanda dos clientes na ponta da cadeia, varejistas buscam reduzir e, até mesmo cancelar seus pedidos aos distribuidores e indústria. O resultado é um efeito dominó: ordens de compra são reduzidas e canceladas entre todos os elos da cadeia: fabricantes, fornecedores e, em última instância, produtores. Infelizmente, essa turbulência causa um nível mais alto de incerteza ao longo da cadeia. Os atores mais impactados serão os mais fracos e vulneráveis na cadeia, em geral, pequenas e médias empresas. Provavelmente, alguns deles serão forçados a parar suas operações e até mesmo fechar seus negócios.

No curto prazo, a cadeia de suprimentos não é impactada negativamente caso uma empresa não sobreviva, visto que há, normalmente, redundância de fornecedores e estoques de segurança nos diversos elos. No entanto, no longo prazo, quando o mercado se recuperar, com a quebra e “morte” de alguns fornecedores, as empresas podem enfrentar uma ruptura crítica, reforçando a expressão “a cadeia é mais forte como o elo mais fraco”.

Há algo que as empresas podem fazer agora para evitar esse processo? A resposta é sim. Existem algumas dicas críticas que as empresas podem captar sua atenção neste momento:

  1. Se você é comprador, procure identificar vulnerabilidades críticas – quem são os fornecedores que possuem um alto nível de dependência da sua empresa e precisam do seu suporte agora? O que pode ser feito para evitar a falência do fornecedor?
  2. Em sendo fornecedor, desenvolva um plano para atender os clientes a médio prazo – você precisa de uma política clara para priorizar os clientes em mãos quando a demanda começar a aumentar novamente. Quem são os clientes que você irá atender primeiro? E as condições de pagamento, alterações de contrato, etc.?
  3. Em ambos os casos, o importante é pensar no longo prazo. Relacionamentos entre empresas compradoras e seus fornecedores são recorrentes e dependem de uma relação de confiança entre as partes. Quando a parte mais forte exerce seu poder de barganha de forma discriminada, o elo mais frágil se ressente do oportunismo e buscará novas alternativas (isso vale tanto para o comprador como para o fornecedor). Com isso, as transações no longo prazo ficam sujeitas a disponibilidade de oferta e demanda sem fidelização do relacionamento.
  4. Procure estratégias para mitigar os riscos e os efeitos negativos da pandemia. Reavalie suas operações, seus recursos e suas competências e pense, de forma criativa, como aproveitar da melhor forma sua equipe durante a crise, considerando não só o curto prazo. Aproveite para repensar processos e atividades.
  5. Redundância – mesmo considerando que o surto de coronavírus é um fenômeno global, procurar fornecedores e clientes em potencial e desenvolver duas ou três alternativas pode ser uma boa jogada. Considere fornecedores e clientes locais e internacionais, avalie possível parceria com concorrentes, transferência de tecnologia, se necessário.
  6. Talentos – ouça as sugestões de seus funcionários, identifique seus talentos e busque formas de mantê-los na organizacão. Mesmo que isso impacte o caixa momentaneamente, o impacto será muito menor se houver a necessidade de identificar, desenvolver e treinar novos colaboradores no futuro.

Os resultados dessas ações não são de curto prazo, mas serão cruciais para a longevidade das empresas após a pandemia. É um momento único para repensar os negócios e a reconfiguração da cadeia de suprimentos. Além disso, é um momento marcante para avaliar quão justo será seu relacionamento com os participantes da cadeia de suprimentos no futuro. Aproveite para revisar suas atividades, pensar fora da caixa e descobrir novas soluções. Vivemos um momento sem precedentes, que exige ações não usuais para seguirmos em frente.

 

 

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