Os desafios do Brasil na era Trump

Os desafios do Brasil na era Trump

REDAÇÃO

06 Março 2017 | 16h11

Rafael R. Ioris é professor de História e Política Latino-americana na Universidade de Denver (EUA), mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), e doutor em História Latino-Americana pela Universidade Emory (EUA).

 

O senador Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB paulista, será o novo Ministro das Relações Exteriores, substituindo o breve mandato do também senador José Serra. Muito se esperava desse último, dado sua longa trajetória e peso político, mas apesar de uma suposta tentada guinada política na Casa de Rio Branco, sua gestão foi mais marcada pela própria natureza de um mandato interino (para muitos, mesmo de legitimidade questionável), que pouco deixa como legado, agora assumido por seu colega de partido. Dentro desse cenário, e prolongado a tradição de chanceleres políticos, que muitas vezes, especialmente em períodos de transição, assumem a liderança da diplomacia nacional, o que esperar do novo diplomata-mor, especialmente na atual conjuntura turbulenta marcada pela chamada era Trump?

Sabemos que Trump representa o nacionalismo norte-americano extremado, sempre presente mas especialmente crescente no últimos anos no partido Republicano desde o movimento chamado de Tea Party, que, de matriz conservadora e xenofóbica, se organizou para rebater as políticas progressistas do governo Obama a partir de 2009. Mas embora muitos esperassem que Trump e seu partido não conseguissem co-existir no poder, o que tem se visto desde a vitória de novembro passado, é uma aproximação interesseira entre as partes. Tanto Mitch McConnell quanto Paul Ryan, respectivamente presidentes do Senado e Câmara Federal norte-americanos, tem se mostrado como importantes defensores do controverso presidente, de modo especial o primeiro, cuja esposa é membra do novo gabinete ministerial de Trump. De todo modo, ainda não é de todo claro que rumos o governo terá, especialmente agora que figuras muito próximas ao presidente, como atual Ministro da Justiça, que está enfrentando sérias denúncias de perjúrio durante sua sabatina no Senado.

Se por um lado, o assessor para toda obra presidência, o ultra-nacionalista Steve Bannon, tem se consolidado como uma das maiores influências na Casa Branca; outras posições chave, entre as quais a dos Secretários de Estado e de Defesa, assim como o novo Assessor de Segurança Nacional, são vistos como de viés menos ideológico – algo que, dentro da visão apocalíptica de choque de civilizações ancorada por Bannon, pelo menos tende a evitar intervencionismos aventureiros, tais como da era Bush.

No que que se refere `a América Latina, tudo indica que apesar da relevância do tema da imigração pela fronteira sul, e dos latinos indocumentados em especial, ter sido essencial na alavancagem da campanha de Trump, especialmente durante as primárias republicana, para além da questão do prometido muro, não está claro ainda como será o relacionamento da nova gestão para com a região. Temos indicações de que Pena Nieto, o combalido atual presidente mexicano, esteja tentando mobilizar a questão do suposto pagamento do muro fronteiriço, assim como das agressões aos latinos/mexicanos em geral, como forma de melhorar sua popularidade interna. Da mesma forma, as desencontradas tentativas de diálogo bilateral, seja por Trump, seja por seu chanceler, não tem sido, como era de se esperar, muito satisfatória.

Independente de que se consiga ou não fazer com que o México pague pelo tal muro, o fato é que, não de todo surpreendentemente, o mais provável é que o governo Trump não tenha a America Latina, e muito menos o Brasil, como um de seus focos principais. Que espaço então terá nosso novo chanceler para atuar dentro desse contexto crescentemente nacionalista, não só no hemisfério mas também na Europa?

Ao que tudo indica, ainda que o governo interino pareça interessado em avançar uma agenda comercial mais ambiciosa, os atuais ventos regionais e mundias não parecem se mostrar como os mais propícios para tal projeto. De fato, a menos que setores empresariais chave se mobilizem fortemente para reverter o discurso protecionista do presidente, a visão livre-mercadista em voga crescente na região terá pouca chance de sucesso, a menos que se trate de um projeto com foco mais regional de que até então planejado. Um movimento nesse sentido parece inclusive estar se formando por partes de líderes de várias orientações ideológicas na região. Ex-candidatos presidenciais de viés mais conservador, assim ex-presidentes de esquerda do Chile, Peru e México tem defendido que a era Tump sirva como inspiração para um novo foco latino-americano para as diplomacias regionais.

Será que nosso novo chanceler verá da mesma forma o atual momento? A se considerar o foco menos latino-americanista da política externa de Serra e do atual mandatário presidencial, a participação necessária do Brasil em um projeto dessa natureza não parece provável. Mas quem sabe se o novo ministro consiga entender os novos ventos soprando na região para recalibrar as posições da diplomacia, cuja tradição pragmática é de longa data e poderia perfeitamente ser retomada.