Os comensais de Bolsonaro e Lira

Os comensais de Bolsonaro e Lira

REDAÇÃO

12 de novembro de 2021 | 16h20

José Antonio Gomes de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA. Pesquisador FGV- EAESP

A articulação entre o Centrão e Bolsonaro tem-se revelado mais espúria e promíscua do que as experiências em outros momentos pós 1985, na redemocratização. Nunca o presidencialismo de coalizão remexeu tanto o lixo da vida política. Se já merece o epíteto de presidencialismo de corrupção, este não é suficiente para descrever o fenômeno ora vivido.

A distribuição de emendas dentro dos parâmetros legais tem sido uma festa com o dinheiro público. Porém, as emendas de relator e um certo Orçamento Secreto desafiam a res publica de uma forma acintosa. Tem-se um orçamento público e, agora, um orçamento secreto (inacreditável) e uma horda de comensais para se servir em um banquete, o que pode soar como a institucionalização do Mensalão.

O Centrão, com Arthur Lira à frente como contratado, mostra um apetite voraz. Por outro lado, o presidente, como contratante, sabe que se a tarefa é dantesca, garantir a “governabilidade” e a sua “elegibilidade” em 22, tendo que pagar mais pelo apoio. Em um regime de mercado, a precificação segue a regra básica da oferta e da demanda. Os preços aumentam e o presidente oferece as burras da Nação para serem sangradas.

Os gastos com os comensais ainda aumentarão mais com sua provável filiação ao PL, já componente do Centrão, mas que merecerá certamente um tratamento diferenciado. Afinal de contas, não tem sido fácil para o presidente arranjar um partido onde possa se filiar sem causar tantos estragos. Com isto aumentam o número de bocas a serem alimentadas, bocas estas com apetites gigantescos.

Cria-se, assim, uma situação inusitada de haver um cardápio oficial, público, mas, no escurinho dos gabinetes tem um outro cardápio secreto para atender as papilas degustativas dos senhores /as legisladores/as. A távola para o banquete mais do que nunca tem que ser redonda (afinal de contas, alguma coisa tem que ser redonda), não para expressar um círculo isonômico e democrático, mas para acomodar os comensais, tantos que são.

Também, a situação exige uma toalha de largo diâmetro para esconder os que comem escondidos de baixo da mesa, já que não podem aparecer, pois o que comem é secreto, são gastos (aplicações, investimentos?) que não podem aparecer, vir à lume. Se estes são os privilegiados que comem em palácio, certamente em número reduzido, como ficam os milhões que não têm pão e nem brioches para comer?

Neste quesito, a princípio, não ficarão desamparados, pois a Rainha, digo o presidente, seus acólitos e comensais não os esqueceram. A implantação de um Auxílio datado, até que não mais precisem destes, resolverá o problema. Resolverá? A resposta demanda um certo grau de especulação, mas em bases sólidas.

Em primeiro lugar, a economia não se recupera, não tem posto de combustíveis que dê jeito, a fila dos desempregados só se reduz lentamente, dado difícil de colocar na coluna dos créditos em uma campanha eleitoral. Em segundo, a inflação crescente e persistente tende a comer parte do Auxílio Brasil (ou Auxílio Reeleição?). Esses dois fatores combinados ao que tudo indica não conseguirão evitar a fila em busca de ossos para colocar alguma proteína no prato de milhões de brasileiros e brasileiras.

Frente a este cenário, praticamente incontornável, como vai se apresentar o candidato Bolsonaro em outubro de 2022, com que plataformas para um futuro governo, dado que no atual só causou estragos? Quantos ainda acreditarão no “mito”? Os evangélicos continuarão fiéis, fortalecendo-o com orações? A pregação do risco do comunismo, argumento risível, continuará funcionando?

As defecções já visíveis em sua base comerão parcela dos votos amealhados em 2018. Certamente, o grupo “hard” formado por brucutus, fascistas e que tais, seguirão o líder. A fração de militares que empresta apoio à Bolsonaro, outro grupo de comensais, o faz, ao que parece, por puro oportunismo.  O seu vice, General Mourão, que tem adotado o “bate e afaga”, pode abandonar o “afaga”, como o fez recentemente, mostrando outro posicionamento moral, podendo se juntar a outros militares de muitas estrelas, afinal cansados dos desatinos, do histrionismo e das loucuras do ex-capitão.

O arranjo que mantém o governo Bolsonaro em pé, assentado em duas colunas, o Centrão e a PGR/Aras, pode sofrer rachaduras sérias sendo a aposta mais fácil o Centrão. Com seu faro apurado, sentirá se o candidato Bolsonaro será viável ou não (as pesquisas dirão). Caso negativo, o Centrão reposicionará suas fichas no tabuleiro político sem qualquer desconforto, embora até aqui Lira seja uma figura indissociável de Bolsonaro, mas é fundamentalmente um investidor político.

O cenário para as hostes bolsonaristas, no nosso entender, não se mostra nada alvissareiro, ao contrário. A conta de suas irresponsabilidades, incompetência e falta de sentido público começa a chegar, já vindo tardiamente. A CPI da COVID já desembrulhou parte do estrago feito no país, o STF tem resistido bravamente aos arroubos tentativos de ilegalidades, o que atesta como as instituições brasileiras, apesar de todos os ataques sofridos, tem dado as respostas necessárias para a defesa da democracia.  A mídia mostra como o governo está nu, e que espetáculo deprimente.

Esses comensais que há séculos sangram a Nação devem ser parados. A reserva de migalhas e agora a humilhante busca de ossos como fonte de alimentação para amplas camadas exploradas têm que ser revertidas. Os que perpetraram atos desse tipo e tantos outros em diversas áreas (Ambiente, Educação, Cultura, Economia, Ciência e Tecnologia, Saúde etc) têm que ser responsabilizados e punidos por tudo que foi feito. Outubro de 2022 será uma boa e imperdível oportunidade para nos livrarmos dessas forças obscurantistas e retrógradas.

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