Ódio e Devastação na Política

Ódio e Devastação na Política

REDAÇÃO

10 Abril 2015 | 12h14

Marco Antonio Carvalho Teixeira

Renato Sérgio de Lima

 

O ódio na política não é algo novo no Brasil. Ele tem se manifestado, sobretudo, durante processos eleitorais extremamente polarizados tanto por questões de natureza ideológica, como no embate Lula versus Collor, em 1989, quanto pelo recurso de se forjar um conflito de classes, tal qual vem ocorrendo de maneira mais acentuada desde a eleição de Dilma Rousseff.

 

Porém, o que se percebe nesse momento de crise de representação política e de enfraquecimento do Executivo Federal é que essa forma nociva de embate vem deixando o período eleitoral e invadindo de maneira perigosa o cotidiano da política, colocando em risco suas funções democráticas e civilizatórias: processar divergências, construir acordos, promover a convivência harmoniosa das diferenças e garantir que a diversidade, étnica e de opções, sejam respeitadas.

 

Vários fatores contribuem para a propagação do ódio, dentre eles destacamos dois mais presentes no cotidiano: o recurso à criação de conflitos na dimensão das classes sociais e o ataque aos direitos sociais e das minorias.

 

O primeiro tem a ver com a desqualificação da escolha eleitoral do outro. Algo que vem ocorrendo quando grupos minoritários se digladiam nos dois polos políticos que disputam o poder atualmente no Brasil, se enfrentando, sobretudo, nas redes sociais. Numa situação como essa, deixam entender que perder parece não fazer parte da competição ou, então, que as escolhas dos outros não são racionais. Ora, da mesma forma que empresários, assim como qualquer grupo social organizado, votam segundo os seus interesses, por que os mais pobres não fariam? Quando parte dos mais pobres resolvem protestar contra o governo, como agora parece ocorrer, por ver suas condições socioeconômicas se deteriorarem, os que antes os desqualificavam passam a afirmar que apenas agora eles ganharam consciência. Já os que condenam o fato de estes terem mudado de lado, agora os chamam de traidores. Isso nada mais é do que racionalidade, é defesa de interesses, algo normal e desejado para a consolidação de qualquer democracia. Num processo democrático rever posições é coerente com o debate público, caso contrário qual seria o sentido do embate de ideias? O que justificaria um processo eleitoral rotineiro para a substituição ou continuidade de governantes e políticos de maneira geral?

 

Também se verifica uma ação política de grupos igualmente minoritários movidos pelo ódio contra a chamada classe média. Termos como elite branca, vão para Miami, coxinhas e tantos outros, são utilizados como manifestação de repúdio a posturas políticas que não agradam a este grupo, como se fazer uma opção política oposta não refletisse uma escolha democrática. Essa polarização é autoritária e coloca em risco a liberdade, no sentido mais amplo da palavra, ao usar a desqualificação como estratégia de censura e de propagação de preconceito.

 

O segundo fator, e igualmente importante, tem a ver com o crescimento de manifestações de fundamentalismo religioso na sociedade e, inclusive, dentro do próprio Legislativo. Recentes embates no Congresso acabaram prestando um desserviço à causa das minorias e dos direitos sociais. Existe o risco, em alguns casos, de se confundir opção religiosa com o ofício da atividade parlamentar. Como se a primeira pudesse se impor como regra geral numa sociedade em que tanto a diversidade religiosa como as escolhas pessoais são cada vez mais heterogêneas. Basta ver as atrocidades do Estado Islâmico para se ter uma ideia de como religião e política podem ser perversamente associadas.

 

Não por acaso, em muitos cartazes das manifestações do dia 15/03, havia palavras de ordem contra minorias e mesmo contra liberdades de escolhas no campo da sexualidade. Verifica-se, em situações dessa natureza, mesmo que dispersas, tentativas de criminalizar a diferença. Por exemplo, a proposta de um parlamentar do PSOL de alterar o texto da Constituição Federal de “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus” é uma das provas da incapacidade de alguns políticos em separar suas opções religiosas de sua atividade pública. Registre-se que o referido partido já repudiou publicamente tal iniciativa e suspendeu o parlamentar das atividades partidárias.

 

Decisões legislativas afetam a vida de todos e não devem ser tomadas em nome de um dogma. A fala enfática do atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de que o debate sobre o aborto só teria andamento se passassem sobre o seu cadáver também revela a existência de uma grande confusão entre dogma religioso e questões de interesse público por parte de uma das principais autoridades públicas do país.

 

De um extremo ao outro do espectro político, existe uma forte tendência de reforçar posicionamentos que legitimam uma estética da violência e da discriminação. Nela, o outro precisa ser neutralizado, desmoralizado. E, como resultado, os impulsos de modernização democrática da sociedade brasileira parecem, por vezes, não impedir o retrocesso a práticas do passado autoritário, clientelista e patrimonialista do país. Em meio a esse movimento, cresce um discurso niilista de terra devastada, pelo qual só vale a posição de convertidos à sua verdade. É este o Brasil que queremos?

 

Marco Antonio Carvalho Teixeira é Professor e Pesquisador da EAESP/FGV

Renato Sérgio de Lima é Professor da EAESP/FGV e Pesquisador da FGV Direito SP