Obama e Lula: trajetórias e legados paralelos

Obama e Lula: trajetórias e legados paralelos

REDAÇÃO

06 Janeiro 2018 | 13h45

Rafael R. Ioris, Professor de História Latino-americana e Política Comparada na Universidade de Denver, autor de Qual Desenvolvimento? Os Debates, Sentidos e Lições da Era Desenvolvimentista. (Paco Editorial, 2017).

 

Em um encontro de líderes mundiais do G20, em 2009, Obama declarou que Lula era ‘o cara’, demonstrando assim seu apreço e simpatia pelo ex-líder sindical, cuja trajetória ímpar, no contexto latino-americano, tinha chegado ‘a presidência do seu país. Como Lula, Obama também tinha trilhado uma rota sem precedentes. Filho de um casamento inter-racial, algo banido em vários estados norte-americanos até meados dos anos 60, Obama, não sem forte oposição, viria a ser o primeiro presidente ‘não-branco’ da história dos EUA.

Para além de suas biografias únicas, alto grau de carisma, grande capacidade retórica e habilidade política, ambos líderes partilham de algo mais que é muito importante na explicação não só de suas conquistas, mas também, ironicamente, de seus legados, agora sendo rapidamente desfeitos. Em específico, se tratam de líderes cujas trajetórias políticas sempre foram marcadas por um alto grau de moderação, do ponto de vista ideológico, e cujas atividades foram definidas por uma lógica operacional altamente conciliadora.

Ainda que para críticos “a esquerda” do espectro ideológico de cada um deles, tais características seriam máculas, por vezes impossibilitadoras de uma necessária ação mais progressista, o que chama a atenção de modo mais contundente na análise da evolução recente do legado de ambos é como foram ambos, de maneira extremamente eficaz, pintados, por seus detratores “a direita”, como radicais, por vezes mesmo, como autocratas implementando uma suposta agenda revolucionária, inadmissível em suas respectivas sociedades.

Obama sem dúvida foi ainda mais conciliador do que Lula. Em seu governo, pouco foi feito no sentido de reavivar o espírito do New Deal dos Democratas históricos. De fato, para além da implementação de uma política de saúde pautada pela lógica de mercado, é difícil encontrar outras grandes mudanças ao longo de seus oito anos de mandato. Melhorias setoriais, por exemplo, na política ambiental, foram feitas por meio de uma lógica incrementalista e, em geral, via diretivas presidenciais, ao invés de grandes negociações legislativas.

É inegável que muito disso se deveu ao obstrucionismo do partido Republicano, cujas lideranças e boa parte do eleitorado nunca reconheceram a legitimidade do presidente. Ainda assim, Obama se recusou a buscar um necessário diálogo nacional (isso, sem falar em mudanças concretas) sobre grandes questões pendentes da sociedade norte-americana. Em especial ficaram pendentes os temas do reiterado racismo histórico e da crescente desigualdade que assolam o país.

Ao invés disso, com exceção de momentos eleitorais curtos, o presidente continuou a tentar se colocar acima das ideologias e temas não atendidos dentro do centrismo que define os partidos dos EUA. Não obstante esse recorrente busca pelo centro, Obama foi desde o início de seu governo pintado pela mídia conservadora como um radical sem juízo buscando destruir os valores e o próprio tecido social do país.

De modo similar, embora tenha certamente inovado mais em termos de políticas públicas, em especial para o contexto mais socialmente desigual e institucionalmente precário do seu país, Lula também foi um líder moderado e conciliador, que reiteradamente se orgulhava em dizer que os ricos nunca tinham ganhado tanto como durante seu governo. Da mesma forma, dentro do multipartidarismo excessivo definidor do sistema político brasileiro, Lula tentou, talvez mesmo em excesso, construir uma ampla base de apoio para políticas públicas, em geral, assistencialistas e não de viés mais transformador, como exemplo por meio da implementação de um sistema tributário menos regressivo.

Demonstrando o grau de polarização e conservadorismo de seus respectivos países, um já ao longo de seu governo e o segundo, em especial, após a conclusão de seu mandato, foram cada vez mais caracterizados por seus opositores como autoritários em busca da implantação de um ideário revolucionário. Ironia das ironias, apesar do teor moderado de suas políticas, assim como do reiterado discurso conciliador de ambos, essa crítica negativa e conservadora ajudou em enorme grau a reversão não somente do arranjo de forças em cada país, mas também da imagem do legado deixado por cada um dos presidentes.

Embora nos EUA essa mudança tenha se dado pela via eleitoral, enquanto no Brasil isso tenha ocorrido por meio de um impeachment montado em bases extremamente questionáveis, o fato é que a experiência de terem tido um presidente operário ou negro foi gradativamente vista como inaceitável por grupos sociais mais conservadores.

Embora ainda estejamos por demasiado próximos desses acontecimentos, considerando o caráter controverso dos atuais governos do Brasil e dos EUA, que aprofundam as contradições existentes em cada país, é necessário que entendamos melhor como o mito do radicalismo de Obama assim como Lula foi tão eficientemente construído, apesar da parca base de apoio empírico para tanto. Essa tarefa é essencial para que seja possível que cada nação de fato possa atender aos seus graves conflitos e divisões sociais pela via democrática, reduzindo a polarização atual e resgatando o papel do diálogo e respeito as evidências e lições históricas.