O xadrez político no Maranhão: lições aprendidas com o segundo turno em São Luís

O xadrez político no Maranhão: lições aprendidas com o segundo turno em São Luís

REDAÇÃO

01 de dezembro de 2020 | 18h24

Hesaú Rômulo, é cientista político e professor da Universidade Federal do Tocantins. Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília.

Ananda Marques, é cientista política com mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí.

 

No xadrez as peças brancas têm o primeiro movimento, o que permite ao jogador criar situações de jogo, ao mesmo tempo, permite ao enxadrista das peças pretas vislumbrar o que planeja o adversário. Na política, assim como no xadrez, mover-se primeiro pode ser uma vantagem, mas pode revelar aos opositores que plano se está tentando articular.  Flávio Dino (PCdoB) tinha as peças brancas, mas abriu mão disso na eleição municipal em São Luís.

Vindo de uma reeleição em primeiro turno, em 2018, em que derrotou a principal herdeira da família Sarney, Dino capitalizou apoios políticos importantes e, durante o momento crítico da primeira onda do coronavírus, chegou ao ápice da sua popularidade na capital. A estratégia de homogeneizar seu campo político em torno de uma candidatura única não seria estranho, visto que Eduardo Braide (PODE) liderava em todas as projeções possíveis.

Apesar de ter a prerrogativa do primeiro movimento, a opção feita pelo governador do PCdoB foi a de manter-se neutro no primeiro turno, acreditando que um candidato do seu grupo político certamente  iria ao segundo, fato que se confirmou. No entanto, o apoio de Dino e de grande parte do seu secretariado foram insuficientes para uma virada de Duarte Jr (Republicanos). Eduardo Braide venceu com 55,53% dos votos. A vitória de Braide e a derrota de Duarte têm sentidos mais amplos que somente o cargo de prefeito, tentaremos aqui analisar alguns dos significados possíveis.

Primeiro, a coalizão do governo estadual, que atingiu seu apogeu de coalescência no primeiro turno de 2018, está em declínio. O PCdoB, partido do governador, perdeu metade de suas prefeituras; enquanto o PDT, o PL e o Republicanos, os principais partidos da base e que abrigam articulações que visam a sucessão, ampliaram significativamente o número de prefeitos. As forças políticas no Maranhão estão em um claro processo de reordenamento, mas ainda está em aberto quem será o candidato governista em 2022, apesar do vice-governador Carlos Brandão (Republicanos) ter avançado algumas casas com a ida de Duarte Jr ao segundo turno.

Porém, este avanço do grupo capitaneado pelo Republicanos de Brandão e Duarte (com o apoio do PL de Josimar de Maranhãozinho) não necessariamente lhe garante a posição automática de sucessor. Além disso, o PDT assumiu o lugar de partido com o maior número de prefeituras, com maior capilaridade eleitoral no território. E é liderado pelo senador Weverton Rocha, cujo candidato no primeiro turno, Neto Evangelista (DEM), apoiou Braide no segundo. Portanto, uma eventual aliança entre o PDT (historicamente forte em São Luís) com o prefeito do maior colégio eleitoral do estado seria razoável para disputar a próxima eleição e principalmente, seria uma recusa à benção de Flávio Dino. Olhando de muito perto parece um cenário improvável, mas que não pode ser descartado de um todo.

Segundo, mesmo após a derrota acachapante em 2018, a família Sarney, que ainda tem extensões no legislativo, no judiciário e em diversas prefeituras, não está definitivamente enterrada na política maranhense. Roseana Sarney declarou apoio à Braide e diferente de 2016, quando se declarava “independente”, em 2020 o prefeito eleito aceitou de bom grado a aliança com partidos e setores tradicionais, inclusive figuras controversas como o senador Roberto Rocha (PSDB) e o deputado federal Edilázio Júnior (PSD). Fica a expectativa para que tipo de composição ele fará na gestão municipal e qual o grau de antagonismo terá, na prática, com o Palácio dos Leões.

Terceiro, o revés na capital não é o capítulo derradeiro na era Flávio Dino como grande articulador político. A vida real sempre se impõe quando falamos de disputa eleitoral e nem sempre os cálculos realizados pelos atores saem como o esperado. Ainda assim, nossa leitura é de que existe um espaço na esquerda nacional que tangencia o projeto de crescimento de Dino como uma liderança com fôlego. A viabilidade deste projeto, por óbvio, enseja diversos complicadores que mereceriam um texto à parte, mas o conteúdo principal está posto: a possibilidade de renovação dos quadros da esquerda caminha em paralelo com as aspirações do governador maranhense.

Há que se considerar ainda os sentidos que a vitória de Braide desperta no  bolsonarismo na ilha rebelde. O sucesso de Braide não é fruto de nenhum esforço organizado do bolsonarismo em São Luís, embora respingue sobre ele esta pecha, quando não nega que tem suas predileções. Braide inclusive não usa o nome de Jair Bolsonaro no seu vocabulário, refere-se apenas ao “Governo Federal” quando explica que buscará parcerias para a cidade. Durante a campanha conseguiu de maneira eficiente se desvencilhar deste rótulo, mas o cotidiano da gestão costuma falar mais alto em situações como estas.

Em último caso, o desenho final das eleições municipais mostrou para Flávio Dino do que sua coalizão é capaz, bem como qual a qualidade e fôlego que as alianças vigentes disporão em 2022. Fica a lição de que assim como não existe espaço vazio na política, há um limite para se retardar a tomada de decisão. Em um cenário de informação limitada, o difícil cálculo de decidir, quando não é feito, custa mais caro ainda. Um enxadrista que prefere jogar com as peças pretas se sente mais à vontade reagindo às situações provocadas por seus oponentes, isto porque entende que ler o movimento do adversário lhe permite pensar numa resposta à altura. O risco aqui é calculado à medida que existe espaço suficiente para administrar a pressão e efetuar uma reviravolta que transforme o tabuleiro em um terreno vantajoso. Qual a hora certa da virada? No Maranhão, não estamos tão longe assim de descobrir.

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