O vírus e as bolhas no barranco do ressentimento

O vírus e as bolhas no barranco do ressentimento

REDAÇÃO

28 de março de 2020 | 15h22

Vitor Orquiza de Carvalho, é professor de psicologia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP) e Doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP).

Desde 2013, a cada semestre o brasileiro se deparou com um novo registro social excessivo: manifestações, Lava Jato, reeleição conturbada, desastre de Mariana, crise hídrica, Zika, Golpe/Impeachment, desemprego, reforma trabalhista, prisão de Lula, eleição perturbadora, reforma da previdência, soltura de Lula… Mesmo que muito pudesse ser acrescentado – como a tragédia de Brumadinho e o assassinato de Marielle, por exemplo –, a lista revela bem a imagem de um deslize em barranco.

Para alguns, isso tudo foi vivido em queda livre, sem tempo de elaboração. Para outros, como um desmoronar supostamente sob controle, ainda que em parte ilusório. Já para aqueles que sequer perceberam que estávamos descendo, o sentimento vertiginoso chegou agora, depois do tombo, com o assombro do vírus. Há também os que recusaram a própria existência do barranco, mas esses se revelaram tão inatingíveis que não seria possível inferir corretamente o que se passou em suas cabeças enquanto escorregavam.

Fato é que o brasileiro mudou de maneira radical nesta interminável década, marcada pela imagem de sucessão de eventos excessivos. Ao cair, viu trocas de liderança, todas sem sentimento amplo de justiça e identificação, e quebra de vínculos horizontais, que esvaziaram referências comunitárias sólidas. Em resposta, a consolidação de “bolhas” nas redes sociais foi um ato de sobrevivência, oferecendo a falsa sensação de flutuar no barranco, como também uma boa introdução para o exercício de distanciamento social.

Sem ser uma novidade do momento de contaminação, o distanciamento foi introduzido primeiro virtualmente, por meio de um tipo de afeto muito eficiente para isolamento social e conhecido pelos filósofos, psicólogos e psicanalistas: o ressentimento.

Grosso modo, este é o afeto que aparece quando temos algo retirado de nós e não podemos expressar apropriadamente aquela raiva que acompanha a consequente sensação de injustiça. Ele se revela como uma agressividade sem resposta – sem lugar ou pessoa para alocação –, e o problema é que esse sentimento de injustiça pode não ser claro até mesmo para quem está sentindo. Uma pergunta pode então circular sem que a pessoa se dê conta: “Por que estou com raiva e quem tirou o que é meu por justiça?”. Havendo ou não esta pergunta, há a falta de resposta, que convoca muito sofrimento, levando o ressentido para criar rapidamente uma solução: “Ah! Aquilo que é meu está nas mãos da família de fulano!”, ou “Ah! Aquilo que é meu foi dado para um grupo de ciclanos!”. A seguir, uma longa história pode ser fantasiosamente construída para explicar por que fulano e ciclanos são os donos do que seria legitimamente daquela pessoa.

É verdade que ressentimento pode ser pensado a partir de várias outras formas, mas esta básica já permite começar a investigar o seu papel para ajustar as “bolhas” de maneira confortável, não permitindo que houvesse um grande movimento de rua unificado e não permitindo perceber os perigos da manifestação política praticada tão-somente nas redes sociais (como nos grupos de WhatsApp durante as eleições). Além disso, por se tratar de um sentimento sem resposta clara, permite entender também porque o ressentimento brasileiro se revelou sem limites morais, contagiando-se por ódio, agressividade e por um tipo de soberba narcísica que fez emergir o ingrediente mais fundamental de separação: a impossibilidade de negociar com a realidade.

É aí que o ressentimento poderia oferecer uma boa explicação para o surgimento de Bolsonaro, que, no fundo, só conseguiu “liderar” os inatingíveis, aqueles que não quiseram reconhecer a realidade do barranco. Bolsonaro se tornou o representante de uma história fantasiosa para dar conta de um sentimento de injustiça compartilhado. O negacionismo do presidente – como visto em sua descrença na ciência – colou e escorregou com o daqueles que imploravam por uma negação, que hoje gira em torno de 29% dos eleitores (inatingíveis). É como se eles batalhassem com suas vidas para concordar com uma história que pode atenuar o ressentimento compartilhado.

Alguns outros, que sempre rejeitaram o rótulo de “bolsonaristas”, toparam negar a realidade juntamente com esses inatingíveis, mas apenas parcialmente, tolerando a ocupação do cargo executivo federal também sob o aval do ressentimento. O que queriam, no entanto, não é uma negação total da realidade, mas um escoamento de mágoa e a continuidade do sonho de preservação de privilégios históricos de classes média e alta brasileiras, algo cada mais vez mais insustentável. Como o projeto não deu certo, esses acabaram contribuindo para a transmissão do vírus do Ipiranga – como já nomeava a banda punk Detrito Federal na década de 1980.

Já os demais, que nunca se convenceram de que a palavra presidente caberia a Bolsonaro, negaram a sua liderança, mas aceitaram e pagaram o preço doloroso da realidade de seu governo – com a moeda da saúde física e mental.

Acontece que a realidade agora se revela de maneira intrusiva e incontornável pelo novo vírus e este deixou claro rapidamente que não suporta a prática do ressentimento, principalmente no seu modus operandi de culpabilização de outrem pela adversidade própria (culpar o fulano e os ciclanos, por exemplo). A adversidade agora não se ajusta dentro de uma só “bolha”, é de todos – por mais que saibamos quem de fato vai pagar o preço, com a vida e com o trabalho.

Uma aposta possível é que toda a experiência de quarentena possa promover uma quebra na série de semestres excessivos no Brasil porque impõe um grau de incerteza incomparável, sem espaço para aquilo que o ressentimento mais precisa para a sua transmissão: uma fantasia subjacente. Seja aquela que diz que um tipo de política econômica neoliberal sem freios conseguiria acertar todas as irregularidades e desigualdades sociais, ou seja aquela que diz que a expressão subjetiva vai retornar a contornos rígidos em termos sexuais e identificatórios, o universo intensamente fantasioso talvez possa agora se enfraquecer porque a sua sobrevivência só se garante por meio de inimigos imaginários. Por não ser assim, por ser um problema real, o vírus rejeita o aconchego do ressentimento e mostra que, para combatê-lo, é preciso um tipo de afeto que suporta um grau imenso de incerteza.

Até agora, parece que o universo político que rejeita negações (pelo menos as mais óbvias) encontrou em seu horizonte apenas duas saídas nesse sentido: a ciência, é claro, e a defesa da solidariedade.

De fato, a ciência não é um afeto, não pode negar a realidade e deve aceitar o falibilismo. Ela deve admitir de antemão que pode estar errada e deve se comprometer com sua melhor ferramenta, um tipo de método historicamente desenhado para resolver problemas, como o do vírus. Por isso ela não deveria fazer promessas e não pode garantir soluções mágicas apenas porque queremos muito uma resposta imediata. Ela sequer pode ser pensada como uma entidade neutra e unificada, ou mesmo como uma heroína salvadora. Por sua vez, um papel para a política é garantir que o pânico não chegue à ciência e que ela não queime etapas em busca de uma conclusão. Sim, apostar na melhor hipótese, como a do achatamento da curva, mas sem sucumbir à pressão de investidores e de vários ressentidos que vão perder um caminhão de dinheiro nesta etapa da descida.

Se a ciência precisa de tempo e paz para trabalhar, a promoção da solidariedade convoca a todos para olhar o outro além das bolhas e do tombo do barranco. Já podemos observar a abertura de canais de comunicação que estavam interditados. Isso não é fácil e exige ressignificar o árduo som de panelas batendo, por exemplo. Mas permite também comunicações prazerosas, como a do humor e das diversas formas de cuidado. Até esta semana, o humor tem sido um grande aliado, mas sabemos que ele não sobreviveu na semana pós cantorias em sacadas italianas. O cuidado não deve ter prazo de validade: é o remédio que aparece no perdão de problemas secundários, na escuta de colegas e familiares mais angustiados ou mesmo no comando de que pessoas fiquem em casa quando não estão conseguindo suportar as restrições do lar.

O apelo mais imediato para uma política que não nega a ciência deve ser justamente combater o ressentimento por meio do cuidado das pessoas que vão pagar um preço muito maior pelo inimigo real que é o vírus e as suas incertezas – pessoas essas que vão sustentar as quarentenas caseiras ao mesmo tempo em que escutam os berreiros dos inatingíveis. O afeto defendido aí é muito mais adequado para lidar com incertezas reais e se aproxima do campo da solidariedade, afastando o ressentimento.

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