O que vem por ai

O que vem por ai

REDAÇÃO

30 de setembro de 2020 | 16h12

Ruben Cesar Keinert, Professor Titular aposentado da FGV/EAESP

 

Não há exatamente sincronia entre discursos e ações internacionais e as práticas internas do governo Bolsonaro. Mas como as falas internas quase que se resumem a respostas incidentais a leigos ou repórteres ou a algum protocolar discurso de ocasião a respeito de fato mais ou menos relevante ou data reverenciada, recomenda-se prestar atenção nos pronunciamentos em foros externos.

Observem-se as duas fases em que pode ser dividido o mandato até aqui. A primeira foi a da confiança na ressonância internacional das posições da política exterior de Bolsonaro e do avanço firme para tomar a iniciativa na política interna. Começou com as mudanças na estrutura ministerial, nomeações de ministros – salvo Paulo Guedes e Sergio Moro – vindos dos meandros da equipe de campanha, militares, evangélicos e do seu partido (ainda estava no PSL). Os filhos circulavam com desenvoltura pelos palácios, ministérios e até pela embaixada em Washington e opinavam com autoridade sobre tudo e todos. Mesmo a canhestra participação em Davos, 2019 e a cirurgia a que o presidente se submeteu abalaram a convicção com que o grupo ia tomando as rédeas da administração. Atribulações de percurso, como tropeços na relação com a Câmara e com o Senado, embaraços com a imprensa, descoberta de que o Judiciário também é um poder e até mesmo algumas desfeitas do presidente Trump também não afetaram a determinação do presidente brasileiro em tomar os espaços que se abriam à sua frente. A recandidatura foi acionada. Recuos táticos aconteceram, Bolsonaro não foi a Davos 2020, depois da reforma da Previdência as demais passaram para sucessivas semanas-que-vem, houve coisas assim. Mas a intrepidez foi subindo o tom, com as ofensas a jornalistas, apoio ostensivo a movimentos antidemocráticos dos seus seguidores mais exaltados e desprezo pelas primeiras manifestações da pandemia no Brasil e pelos cuidados que cientistas e o grupo do Ministério da Saúde passaram a recomendar, sobretudo a proposta do distanciamento social e paralisação parcial de atividades econômicas.

As certezas que embasavam esta fase começaram a ser erodidas por um conjunto de fatos que foram acumulando-se a partir dos primeiros meses de 2020. O processo contra as rachadinhas no gabinete do filho Flávio, as ligações expostas com Fabrício Queiroz e desse modo com o submundo do crime no Rio de Janeiro, os insistentes pedidos de impeachment nas mãos do presidente da Câmara Rodrigo Maia, os inquéritos iniciados pelo STF contra as fake news e contra atos antidemocráticos, o pedido de demissão de Sergio Moro e suas circunstâncias, as saídas de dois ministros da Saúde em meio ao disparo dos números de infectados e mortos pela covid-19 e as enérgicas respostas do ministro decano do STF às dúbias declarações dos ministros militares palacianos ameaçando intervenções (e que incluíram a divulgação da fatídica reunião de cúpula do dia 22 de abril) colocaram o governo em situação quase terminal. A aproximação com o grupo de parlamentares conhecido como o mais notório praticante do “toma lá, dá cá” na Câmara e a mudança de comportamentos e pronunciamentos públicos indicaram iniciativas defensivas claras.

No plano internacional as coisas não andaram bem, igualmente. As alegadas relações especiais e amistosas da família presidencial brasileira com a família presidencial norte-americana esfarelaram-se com a imposição de tarifas duras sobre nossos produtos de exportação, Trump deu inequívocas demonstrações de desprezo pelo seu êmulo dos Trópicos, Bolsonaro e família tiveram de ouvir corretivos do embaixador chinês por causa de comentários desairosos feitos por seu inacreditável ministro da Educação que foram secundados por um de seus filhos.

O ostensivo apoio ao candidato Macri não deu certo na eleição argentina, o chileno Piñera tratou de repudiar as simpatias de Bolsonaro pelo ditador Pinochet, mesma coisa com o presidente paraguaio sobre a admiração de Bolsonaro por Stroessner e o relativamente conservador presidente eleito do Uruguai afastou-se polidamente. Se aqui nas Américas e com a China as relações não andaram bem, muito pior foi com a Europa: o acordo União Europeia-Mercosul voltou a marcar passo, Noruega e Alemanha declinaram de sua participação no Fundo Amazônia e o presidente brasileiro virou personagem de chacota entre os demais governantes europeus. O estouro da boiada e das labaredas na Amazônia e no Pantanal e a explosão da pandemia foram os mais recentes pontos de isolamento do Brasil da comunidade internacional.

Ao final do primeiro trimestre de 2020 encerrou-se a primeira fase do governo e iniciou-se a segunda. Esta fase não tem as mesmas expectativas de ressonância internacional; ao contrário, volta-se para a consolidação interna de seu projeto nacional de retorno às antigas vantagens comparativas econômicas internacionais do País na exportação de commodities agrícolas, animais e minerais, e turismo. Tal projeto envolve a reeleição e, possivelmente, 20 anos no poder como meta.

 

Os dois discursos na ONU

Nesse sentido, os discursos na abertura das duas últimas Assembleias Gerais da Organização das Nações Unidas acomodam-se com propriedade. Em agosto de 2019, em plena primeira fase de governo, o presidente falou com a mesma altivez com que se movia internamente (deixando-se de lado a sua proverbial dificuldade de comunicação em situações formais). Em linhas resumidas, seu discurso enfatizou a volta à ideia de soberania tal como era entendida antes de 1919, assentada em interesses nacionais intransigentes e que foi substituída pelo princípio de Estados voltados para a paz e o bem-estar das várias nacionalidades. A segunda ênfase daquela fala foi para a combinação entre “defesa dos valores ocidentais e cristãos” e “combate aos sistemas ideológicos de pensamento”. E, sobretudo, para o entendimento de que valores ocidentais e cristãos seriam relativos à defesa dos costumes conservadores e da expansão das denominações evangélicas brasileiras em território africano. A terceira ênfase foi a defesa da “liberdade”. Aqui, também, surgia um entendimento próprio do altissonante conceito escolhido. Assim como os Estados devem ser livres de quaisquer amarras no plano internacional, seria preciso se defender dos sistemas ideológicos que pregam valores avessos à liberdade. Não se tratava das garantias consagradas pelo Liberalismo, mas da liberdade do mais forte, do mais arrojado, de quem detém poder, seja ele econômico, familiar ou político. Este seria o critério de aproximação que o Brasil buscaria: países com líderes personalistas, populistas e autoritários que compartilhassem a sua ojeriza a entraves globalistas de maior equidade social, proteção do trabalho, dos direitos humanos e da diversidade ambiental.

O recuo quanto a ambição de líder político e ideológico internacional aparece no segundo discurso, de 2020. As menções são restritas à defesa das ações e posições do governo brasileiro no que respeita à expansão da pandemia covid-19 e seus efeitos possíveis na economia, no que teria sido incompreendido no plano internacional. Em relação aos incêndios na Amazônia e no Pantanal, vê uma orquestração de entidades e governos internacionais interessados nas riquezas naturais dos dois biomas. O fogo seria provocado pela ação de caboclos e indígenas que desde séculos usam este artifício para limpar a terra para novas plantações. No final, de  modo surpreendente, afirmou apoio à ONU, ao acordo União Europeia-Mercosul, à OMC, a esforços para fazer parte da OCDE (tendo em vista o ciclo de reformas da Previdência, administrativa e tributária) e à Cooperação para a Defesa do Atlântico Sul. Mera retórica de finalização de discurso, nada disso tem consistência.

O segundo discurso veio em momento em que o presidente recuperou a iniciativa da política interna por obra e graça da concessão de um auxílio social de emergência, da aproximação com um grupo de deputados que lhe garante uma certa base para enfrentar uma votação de impeachment e em que garantiu influência nas ações do Ministério Público Federal, na Polícia Federal e está às vésperas de indicar novo membro do Superior Tribunal Federal, o que pode desempatar votações importantes a favor de suas posições e interesses. De quebra, recuperou índices de popularidade que estavam em baixa.

O que em princípio parece um recuo em ambições, é, de alguma forma, uma mudança de concentração de esforços para a reeleição em 2022 e para a consolidação de sua base de apoio econômico e político interno. O abandono das primeiras veleidades de liderança internacional em dobradinha com Trump, o ideólogo Bannon e a nova safra de líderes conservadores latino-americanos se soma ao desinteresse pelos foros multilaterais de decisão. O isolamento externo tem pouca ou nenhuma influência sobre o seu eleitorado. Pelo contrário, assim pode avançar na política ambiental de terra arrasada, de oposição aos caboclos e índios que estariam incendiando as florestas e de facilitar a ocupação de áreas para expansão da fronteira agrícola, da mineração e de pastagem. E insistir no armamento da população e no apoio aos grupos conhecidos como milícias. Além de investir em obras públicas para mostrar grandiosidade de propósitos.

Está sendo articulado o peronismo à moda de Brasília.

 

 

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