O que têm em comum as mulheres, os povos indígenas e as minorias discriminadas

O que têm em comum as mulheres, os povos indígenas e as minorias discriminadas

REDAÇÃO

29 de abril de 2021 | 15h29

Samia Saad Gallotti Bonavides. Procuradora de Justiça do Ministério Público do Paraná, Professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná, Co-coordenadora do MP Mulheres – Movimento Nacional de Mulheres do Ministério Público.

Concordando com Paulo Freire, para que mudanças se concretizem muitas vezes é preciso tomar distância “com consequências epistemológicas” (FREIRE, 2014), até porque a distância promove a desestabilização do estratificado e das ideias pré-concebidas. Portanto, para mudar, se distancie no tempo ou no  espaço (ou simplesmente descubra os segredos). Isso serve para quase todos os raciocínios a depender do contexto, porque se percebe uma certa desorientação que pode vir a ser um estímulo político para a desconstrução de algumas epistemologias  que operam a partir do conhecimento hegemônico.

Nesse sentido, para formar um contexto de análise é preciso não esquecer que as estruturas sociais são sustentadas pelo exercício do poder (exercido muitas vezes de forma subliminar e por meio de um sistema político muito coeso e cônscio do seu papel), e que a base teórica que exerceu influência forte e decisiva na modernidade é ocidental, eurocêntrica, bem como masculina e patriarcal, predominando fortemente no mundo e, inclusive, em nossa própria tradição, fincada no padrão de desenvolvimento a partir dos países europeus e americanos do norte. Importante lembrar também neste esforço rememorativo que os colonizadores brancos e europeus sempre estiveram predispostos a moldar as pessoas conforme sua própria imagem, a partir da cultura branca e do estilo de vida europeu, para, assim, eliminarem as experiências culturais anteriores e muito significativas, que para os que perdiam tudo, via de regra, poderia ao menos representar um alento e uma esperança.

Esse processo continua na sociedade atual, talvez de forma um pouco diferente, mas tendo o mesmo sentido e os mesmos objetivos, na medida em que, de forma dominante, a sociedade mundial tomou o padrão eurocêntrico como sendo correto, perfeito, irrefutável e natural (porque foi naturalizado). E estas ideias se refletem na mídia, que tem um papel importante em termos de identidade e representatividade, mas que, entretanto, ajuda a reforçar estereótipos negativos, provocando dilemas de identidade naqueles que não são brancos (COKER & PANDE, 2017), e também estimula a manutenção da estrutura patriarcal de poder, que subjuga a mulher a fazendo trabalhar mais, ganhar menos, sofrer: violências e ataques, dores físicas e psicológicas, bem como agressões morais.

Há, então, necessidade de se tomar muita distância, inclusive epistemológica, para romper este modelo cruel de coexistir. Isso pode significar algumas mudanças de comportamento, a partir do olhar para o passado buscando compreender o presente. Focar-se no presente para ampliá-lo muito, no intuito de decifrá-lo, contraindo o futuro o quanto possível para que entendamos a importância do que se vive, enquanto se vive, ou seja, não a importância de um futuro projetado e almejado, mas um presente realizado e mais inclusivo.

Para Kinhide Mushakoji, professor da Universidade de Tóquio, são três as comunidades epistêmicas “que têm em comum uma certa abertura que as capacita a pensar de forma universalista enquanto mantêm sua posição epistêmica específica, e, por isso, possuem abertura para o diálogo interparadigmático, podendo ser um modelo capaz de romper as divisões epistêmicas: as feministas, os povos indígenas e as minorias discriminadas” (MUSHAKOJI, 1999). Ele considera uma “bênção para a coligação anti-hegemônica que a insistência das feministas de compartilhar experiências particulares de algumas mulheres que sofreram violência de gênero seja mais apropriada para criar vínculos entre os povos explorados e/ou excluídos pela coligação hegemônica global, cujos valores universais são frequentemente usados para legitimar intervenções hegemônicas de um modo meramente formal, destituído de qualquer sensibilidade humana” (MUSHAKOJI, 1999).

É cruel o desprezo cultural, mas não são as mulheres, em regra, que usam a crueldade como método. Elas não incitam a violência e a agressividade como “armas” políticas (AHMED, 2004). Enquanto o mundo branco, masculino, heterossexual se centra em torno de algo pretensamente ordenado, preciso e legitimado, mas baseado na sociologia das ausências (SANTOS, 2005), outras formas de subjetivação, como as feministas, buscam compreender relações do poder e do saber num mergulho mais profundo nas estruturas, obrigando a reposicionamentos para desnaturalizar a vida cotidiana.

Sim, o feminismo é um convite animado para alternativas à visão engessada de mundo, mantida numa mesma e inflexível formatação sobre questões relevantes que representam nossa vida social eurocêntricamente formatada e fundada no que pensa, na forma como age e reage o homem branco, europeu e heterossexual.

Quanto aos povos indígenas, depois de tantos anos, no Brasil, a voz de Ailton Krenak é ainda um sinal que “retumba na floresta”, e que se mostra urgente. Ele escreveu “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019), e nas suas 88 páginas a proposta é de uma forma diferente de consumo e existência, guiada por uma visão cósmica do mundo, que significa uma vida mais próxima da natureza, menos sedenta por dinheiro, poder e domínio. Para Krenak, o presente é ancestral e a preocupação com a profunda desconexão do ser humano com a Terra, e tais ideias também se conjugam num outro livro mais recente: “A vida não é útil” (2020). Neste livro estão reunidas suas entrevistas e lives do período da pandemia, inclusive. Ele provoca então, com sua filosofia e sabedoria, reflexões necessárias e urgentes sobre a centralidade da espécie humana e a forma como estamos nos relacionando com o planeta. Nascido na região do Vale do Rio Doce, onde fica localizada a Terra Indígena Krenak, é originário do local em que se rompeu uma barragem de rejeitos de mineração (“Fundão”), controlada pela Samarco Mineração, há cerca de pouco mais de cinco anos.

Sobre as minorias, o que há para dizer nesse espaço que é, ironicamente do ponto de vista quantitativo, são mesmo a maioria da população, mas, sem dúvida, representam uma minoria em termos de aquisição de direitos. Ou seja, integram os grupos sociais historicamente excluídos do processo de garantia dos direitos básicos por questões étnicas, de origem, econômicas e também de gênero e sexualidade, além de poderem ser incluídos idosos e pessoas com deficiência. São grupos que estão em situação de vulnerabilização social, estando muito atingidos na pandemia da Covid-19, porque quando há menos acesso a direitos, normalmente há maior exposição às condições mais precárias de subsistência, o que significa menor proteção inclusive sanitária.

Se há tantas formas de pensar, de sentir e de agir, por que eliminamos vozes e sentimentos que representam percepções diferentes do mundo? Por que nossa ilusão racionalista crê irracionalmente numa capacidade de raciocínio e de compreensão do mundo de maneira infalível e confiável, a partir de visões unilaterais e que não respeitam a pluralidade e a diversidade? É mais do que hora de pensar e agir de forma universalista, propondo o diálogo, sobretudo em busca de mudanças que não devem estar limitadas por questões ontológicas e epistemológicas que decorrem de diferentes paradigmas, em especial o hegemônico.

AHMED, Sara (2004). Cultural politics of emotion. Routledge

COKER, C., PANDE, R. (2017), Not so star-spangled: examining race, privileg, and problems in MCU’s Captain America Fandom. In: Ashton Spacey (ed.), The Darker Side of Slash Fan Fiction, Jefferson, NC: McFarland, pp. 97-115

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2014

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

____________. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019,

MUSHAKOJI, Kinhide, Em busca de uma nova aliança anti-hegemônica. Trad. de Dalva Bonet,  In HELLER, Agnes et al A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o século XXI, Rio de Janeiro: Contraponto, p. 193-217, 1999.

SANTOS, Boaventura de Sousa (2005), A crítica da razão indolente contra o desperdício da experiência, 5ª ed. São Paulo: Editora Cortez.

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