O que poderá surgir da aproximação da academia com a burocracia?

O que poderá surgir da aproximação da academia com a burocracia?

REDAÇÃO

22 de novembro de 2021 | 12h04

Marcus Vinicius de Azevedo Braga, Doutor em Políticas Públicas (PPED/IE/UFRJ), realiza estágio pós doutoral no IESC/UFRJ, autor do livro “Tudo sobre controle”, pela Editora Fórum

Daniel Matos Caldeira, Doutorando em Administração Pública na Universidade de Lisboa

Alketa Peci, Doutora e Mestre em Administração (FGV). É professora associada da EBAPE/FGV, Editora-chefe da Revista de Administração Pública, Pesquisadora do CNPq e Bolsista Cientista da Faperj

Os últimos vinte anos se caracterizaram por um maior acesso aos cursos de pós graduação no Brasil, sejam aqueles lato sensu, como as especializações; sejam aqueles de caráter stricto sensu, vinculados ao mundo acadêmico, retratados pelos cursos de mestrado e doutorado. Apenas na área de administração, o número de programas stricto sensu chegou a ultrapassar a marca de 200.

Ao mesmo tempo, os últimos anos coincidiram com uma profissionalização do serviço público, com uma quantidade considerável de concursos e a consolidação de carreiras estratégicas, acompanhado de uma valorização salarial que se refletiu na captação de uma burocracia mais profissionalizada e escolarizada, e naturalmente, com uma fração sequiosa de estudar ainda mais, como uma decorrência de históricos escolares de sucesso que se relacionam com a boa colocação nesses concorridos concursos.

A fusão desses fenômenos: a ampliação do acesso a cursos de pós graduação stricto sensu, com uma especialização do corpo funcional dos governos, somado ainda a políticas de incentivo remuneratório, resultou em um perceptível aumento de servidores públicos que se matriculam em cursos de mestrado e doutorado, e consequentemente, um incremento na produção acadêmica desses atores.

Alguns, é verdade, enfrentam as fileiras acadêmicas na busca de aumentos na sua remuneração pelo recebimento de parcelas de incentivo. Entretanto, nem todas as carreiras estratégicas compartilham esses mesmos mecanismos, de modo que existe também uma motivação intrínseca para a ampliação dos seus conhecimentos, para o aperfeiçoamento acadêmico, até mesmo para dar conta do desnível de capacidades e demandas em alguns setores da Administração pública.

Aí se chega a questão central desse singelo artigo: Quais as consequências desta aproximação do setor publico com a academia? Qual a importância e possíveis entraves oriundos desse acréscimo de servidores que buscam a academia para obter seu título de mestre e doutor, produzindo conhecimento pela pesquisa?

Como todo fenômeno, é possível se enumerar ganhos e algumas restrições derivadas, e para fins didáticos, serão listadas a seguir as questões subjacentes a essa “academização” de parcela do serviço público brasileiro:

A busca dos servidores por mestrado e doutorado aproxima o corpo funcional dos órgãos públicos da academia, e consequentemente, de iniciativas que envolvam pesquisa e inovação.

Esta aproximação pode romper insulamentos e contribuir com sinergias relevantes para a formulação e gestão das políticas públicas, e para a produção de conhecimento científico socialmente mais relevante. Em outras palavras, os dois campos ganham com a aproximação. Mas, para que estas oportunidades possam emergir, é necessário ir além da obtenção do diploma.

Adicionalmente, esse movimento pode gerar nas organizações públicas uma cultura científica, que tem o potencial de alimentar o pensar crítico e profundo sobre as grandes questões, trazendo caminhos para o enfrentamento de wicked problems à partir da solidez de evidências e fundamentos metodológicos. Robusteceria-se, assim, o debate no interior e ao redor das organizações públicas, com uma pauta de dados, métodos e teorias, que em muito pode contribuir para a qualidade do serviço público.

A interação desses servidores com a academia pode produzir uma massa crítica de pessoas com ethos investigativo, em uma posição única para aplicação do conhecimento na atuação do órgão, com possibilidades de difundir saber que se relaciona com as particularidades daquela política e que pode influenciar os stakeholders do órgão público, inclusive aqueles com poder fiscalizador e judicante. O servidor pesquisador de hoje forma consensos e doutrinas para o mundo de amanhã.

Por fim, essa cultura de valorização do saber profundo e sistemático pode resultar em uma burocracia mais profissionalizada, em órgãos mais técnicos e menos permissivos à lógicas não científicas, visões dogmáticas e ações cosméticas, condição para permitir avanços que, se bem concatenados, podem gerar transformações duradouras e comprometidas com a inovação e eficiência públicas.

Apesar desse enorme otimismo com essa aproximação estampado na primeira parte do artigo, essas sinergias dependem da visão dos órgãos na facilitação do acesso de servidores à academia, e a recepção desta em relação a esse grupo, e por fim, das iniciativas e prosseguimentos que esse servidor realizará após a sua defesa, que mais que um fim, é o início de uma vida acadêmica.

É importante observar que a administração pública tem que se preparar não só para absorver o crescimento da quantidade de servidores com formação em nível de excelência, como também para fomentar ações estruturadas de desenvolvimento em um projeto institucional estratégico sinergicamente integrado com a academia, derivado dessa aproximação, pois caso contrário, teremos uma baixa otimização desses recursos aplicados.

No século passado, visões limitadas do serviço público e de seu potencial caracterizavam-se por falas e cenários desestimuladores, no qual estudar mais era visto como fugir do trabalho, ou quiçá, um prêmio para descansar da labuta. O mundo mudou, os paradigmas da administração foram à reboque e a era do conhecimento suplanta o imediatismo de treinamentos rápidos e procedimentais, pois a demanda por atualização permanente dos agentes do Estado impõe estudos vinculados à pesquisa, à produção e à difusão do conhecimento.

Mas, essa ruptura não se dá só pelo acesso dos servidores a cursos de pós graduação, ostentando orgulhosamente os seus diplomas. Para que essa gestão do conhecimento se faça a contento, faz-se necessário construções conjuntas, por parte da academia, dos servidores e das organizações públicas. A elaboração de projetos e parcerias que revertam esses saberes derivados das pesquisas em um fator de força apropriado para a geração de inovação no setor público.

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