O que não fazer na pandemia: as lições do Brasil

O que não fazer na pandemia: as lições do Brasil

REDAÇÃO

14 de abril de 2020 | 12h51

Rafael Alcadipani, professor Titular da EAESP-FGV e associado pleno ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ph.D pela Manchester Business School.

 A pandemia de COVID-19 assola o mundo e os números de casos aumentam exponencialmente. Vários países estão enfrentando o problema, mas o Brasil está despontando como um exemplo mundial do que não deve ser feito. Em entrevista ao Roda Viva anos atrás, Ozires Silva relata em conversa com membros que fazem a gestão do Prêmio Nobel, que fora informado que toda vez em que aparecia a indicação de um brasileiro para o prêmio, invariavelmente, outros brasileiros faziam críticas ferozes para desqualificar a indicação. Não por acaso, para o Ozires isso ajuda a explicar o fato de que até hoje nenhum brasileiro ganhou o valoroso prêmio. Estamos diante do maior desafio de nossa geração, segundo inúmeros líderes mundiais, e como nosso país tem se comportado?

Em primeiro lugar, o Brasil não se atentou ao problema no início da pandemia. Quando casos já começavam a explodir na Europa, nós, literalmente, estávamos voltados ao carnaval. Recursos públicos e tempo dos governos estavam focados em organizar a festa que colocou milhões de pessoas nas ruas. O país que poderia estar já se preparando para a pandemia não tinha recursos básicos para enfrentar o terremoto que estava se avizinhando. A falta de planejamento está fazendo com que não tenhamos testes para sabermos a real situação da doença no Brasil e os profissionais de saúde e de segurança pública, que estão na linha de frente da pandemia, não possuíam e não possuem recursos elementares como máscaras e aventais para enfrentar a pandemia. Quando a pandemia começou a ganhar corpo no Brasil, começou-se a correria desenfreada para criar leitos hospitalares e conseguir insumos fundamentais para a pandemia. Já era tarde. A fábula da cigarra e da formiga para ser uma boa metáfora para explicar o que está se passando no Brasil hoje: estávamos cantando, como a cigarra, e não nos preparamos para o inverno. Países como a Alemanha e Canadá, que se organizaram para a pandemia, estão tendo menos problema do que os demais.

A liderança da gestão da pandemia é um receituário daquilo que não se deve fazer. O Presidente não se entende se quer com seu Ministro da Saúde. Vez ou outra, o Vice-Presidente faz falas em que critica o próprio Presidente. Presidente e Governadores batem boca em reuniões privadas e trocam farpas na imprensa. Vários políticos tentam ganhar poder com a situação. Uns, para derrubar o Ministro da Saúde, outros para desgastar governadores. Alguns deputados federais e estaduais alinhados com Bolsonaro como por exemplo da “bancada da bala” ajudam a organizar manifestações para o fim da quarentena. Ou seja, criou-se no Brasil a “bancada da morte”, afinal a totalidade de médicos que estudam a pandemia diz que a quarentena é a única solução. Criou-se uma falsa dicotomia entre preservar vidas e manter empregos. Incontáveis economistas já questionaram esta dicotomia e afirmam que o isolamento social que fará com que os reflexos da pandemia afetem menos a economia. Ou seja, a ideologia rasteira e a busca por protagonismo se mostram mais importantes do que a necessidade de guiar o país neste momento difícil. Até mesmo um banco foi criticado, por alguns, por fazer uma doação bilionária para combater a doença, o que mostra a completa falta de noção e da importância de ser solidário em um momento como este.

Dizia Tom Jobim que no Brasil sucesso é ofensa pessoal. A nossa atitude destrutiva faz o Brasil caminhar para se transformar em um grande necrotério. A falta de bom senso e inveja do outro irá, literalmente, nos matar.

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