O que aqui se cria? (Anti)petismo e bolsonarismo nas eleições em Sergipe

O que aqui se cria? (Anti)petismo e bolsonarismo nas eleições em Sergipe

REDAÇÃO

20 de julho de 2022 | 14h13

Mariana Meneses, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), especializando-se em Comportamento Político, Opinião Pública e Psicologia Política. E-mail: mariana.menesess@ufpe.br | Twitter: @marianamenesss

Ian Rebouças Batista, Doutorando em Ciência Política (UFPE), com período sanduíche na Universidade de Notre Dame. Assistente de pesquisa no Carter Center. E-mail: reboucas.ian@gmail.com | Twitter: @reboucasbatista

Neste texto, avaliamos a corrida ao governo do Estado de Sergipe em 2022 investigando como os movimentos mais importantes da política nacional dos últimos tempos – petismo, antipetismo e bolsonarismo – se apresentam no Estado.

A disputa para governo estadual em Sergipe ainda nem começou oficialmente, mas já acumula revezes em candidaturas que, em diferentes momentos, demonstraram-se promissoras. Em março, Edvaldo Nogueira (PDT), atual prefeito da capital Aracaju, figurava com ampla margem de vitória nas intenções de voto no Estado. A não consolidação da sua candidatura deixou muitos eleitores indecisos, colocando esse grupo em primeiro lugar na maior parte das pesquisas divulgadas na mídia desde então. Em maio, a candidatura de Valmir de Francisquinho (PL) chega a superar o patamar antes apenas batido por Edvaldo, mas novamente outro revés: Valmir é tornado inelegível. Desde então, a disputa parece se desenrolar ao redor de três candidatos: Fábio Mitidieri (PSD), candidato da situação, e os senadores Rogério Carvalho (PT) e Alessandro Vieira (PSDB). Se essa configuração se mantiver, pode ser que o candidato da situação tenha motivos para ficar otimista.

Evolução das pesquisas de intenção de voto ao governo de SE agregadas por mês

Fonte: Elaboração dos autores

Enquanto nacionalmente candidatos da chamada terceira via encontram grande dificuldade para crescer entre o eleitorado, em Sergipe se desenrola uma dinâmica um pouco diferente. Nem o candidato petista – e atualmente senador – Rogério Carvalho, e nem o candidato anti-petista (e ex-bolsonarista) Alessandro Vieira (eleito senador em 2018 pela Rede, mas atualmente no PSDB) gozam dos benefícios de ser o candidato da situação – uma posição geralmente associada a vantagens financeiras, estratégicas, e informacionais, com potencial de influenciar positivamente na reeleição de um partido (ou grupo político) no poder (De Magalhães, 2015).

A política nacional nos últimos anos tem sido marcada pelo embate entre o petismo e o antipetismo, contido, porém não restrito, ao bolsonarismo. De fato, estudos mostram que o comportamento dos eleitores no Brasil, e a relativa coerência partidária entre o eleitorado, parecem refletir as atitudes de eleitores em relação ao PT, sejam elas positivas ou negativas – isso porque o PT é reconhecidamente o único partido bem-sucedido em conquistar uma identificação forte e abrangente entre o eleitorado brasileiro (Samuels e Zucco, 2018).

A onda conservadora, que, no Brasil, levou à eleição de Jair Bolsonaro, encontrou território fértil no antipetismo – que foi crescendo sobretudo com a desilusão de petistas com a má gestão da economia e o aparente abandono dos princípios que os levaram à posição de principal partido entre a opinião pública no país (Samuels e Zucco, 2018). Contudo, apesar de no auge do antipetismo termos visto também o auge do bolsonarismo entre os brasileiros, este é um movimento com características únicas, que vão da defesa de um conservadorismo social a práticas e discursos que contestam os pilares institucionais democráticos.

Mas Sergipe parece estar longe de ser um dos principais terrenos do bolsonarismo no país. As intenções de voto para presidente este ano no Estado revelam que o ex-presidente Lula lidera com folga, apontando para uma preferência do eleitorado sergipano mais à esquerda.

Agregado de pesquisas de intenção de voto para presidente no Estado de SE – mês de junho

Fonte: Elaboração dos autores

Essa margem de preferência por Lula no Estado não chega a ser surpresa. Os gráficos abaixo apresentam a variação da margem de vitória dos candidatos petistas nos segundos turnos de eleições entre os municípios do Estado. Como é possível ver nesses mapas, entre 2002 e 2018, o PT foi ganhando cada vez mais força no Estado em eleições presidenciais.

Margem percentual de votos no PT (valores positivos/vermelhos) ou no desafiante (valores negativos/azul) em segundos turnos de eleições presidenciais

Fonte: Elaboração dos autores com dados do TSE

Uma interpretação possível do gráfico acima é a de que, no auge do bolsonarismo, no segundo turno de 2018, o PT nunca esteve tão forte em Sergipe. Com isso, cabe a pergunta: qual a força do bolsonarismo no Estado?

Podemos investigar a votação de Bolsonaro para entender melhor os alcances e limites de seu eleitorado sergipano. Naquele ano, o candidato petista, Fernando Haddad, saiu vitorioso em todos os municípios sergipanos. Na capital, Aracaju, a diferença foi de seis pontos percentuais, mas em algumas cidades a diferença chegou a mais de 70%, como nos municípios de Gararu (no Alto Sertão sergipano) e Santo Amaro das Brotas (na Grande Aracaju). Enquanto no norte do Estado e no sertão a margem foi maior pró-candidato do PT, as menores margens se concentraram no centro do Estado, do litoral ao agreste, com destaque para a região metropolitana. Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros e São Cristóvão figuram entre as cinco menores margens de vitória do PT no Estado.

Em 2018, o bolsonarismo sergipano, um movimento majoritariamente urbano em um Estado majoritariamente rural, parecia ter sido o único responsável por eleger um dos dois senadores eleitos naquele ano. O hoje candidato tucano ao governo do Estado, Alessandro Vieira, à época na Rede e atendendo pela alcunha de “Delegado”, foi eleito na esteira do antipetismo lava-jatista que se mesclou muito bem ao bolsonarismo naquela eleição. Ainda que a trajetória legislativa de Alessandro nesses últimos quatro anos o tenha afastado do bolsonarismo, candidaturas legislativas ligadas à segurança pública, de fora da política e com discurso anti-corrupção foram eleitas em consonância ao discurso do candidato Bolsonaro.

Mas, uma análise mais cautelosa revela que não foi somente o bolsonarismo que elegeu Alessandro. Correlacionando a porcentagem de votos no segundo turno em Bolsonaro e a porcentagem de votos em Alessandro, por município, o que se revela  é uma correlação somente moderada, de 0.55. Mais interessante ainda é notar que além de ter sido bem votado nos bolsões bolsonaristas do Estado (região metropolitana e agreste), Alessandro teve votos em locais onde Bolsonaro não foi bem, principalmente no médio sertão sergipano.

Correlação entre % de voto em Jair Bolsonaro e Alessandro Vieira em 2018 (r = 0.55)

Fonte: Elaboração dos autores com dados do TSE

Esses dados indicam que, para se tornar o senador mais votado em 2018 no Estado, Alessandro Vieira contou com votos de bolsonaristas, mas não apenas. Afinal de contas, ele foi o senador mais bem votado no Estado naquele ano, abrindo uma distância de aproximadamente 22,5% a mais de votos em relação a Rogério Carvalho – uma diferença de 174.202 votos, segundo dados do TSE. Rogério Carvalho, por sua vez, foi mal em grande parte da região metropolitana, mas performou melhor em diferentes pontos do interior, como no sul, alto sertão e baixo São Francisco, garantindo também sua eleição. Os mapas abaixo apresentam o percentual de votação dos dois candidatos eleitos para o senado por Sergipe em 2018.

Percentual de votação para os senadores eleitos em 2018 por município

Fonte: Elaboração dos autores com dados do TSE

Ainda que tenha sido eleito senador com votação expressiva no interior e que este seja um Estado que tende a votar no PT em eleições nacionais, Rogério Carvalho é quem carrega maior rejeição do eleitorado entre todos os candidatos – o que parece indicar uma rejeição à sua figura para além do antipetismo. Dados de pesquisas divulgadas na mídia sergipana entre o início de maio e o fim de junho indicam que, enquanto a rejeição do petista pulou de 12,5% para 27,4% em menos de dois meses, a rejeição de Mitidieri se manteve praticamente constante, em aproximadamente 12%. Alessandro, por outro lado, viu crescer de 8,1% para 13,8% o percentual de eleitores que afirmaram não votar nele de jeito nenhum. Parece crescer também a rejeição de João Fontes (PTB), quem, com a saída de Valmir da disputa, pode vir a brigar pelos votos de sergipanos(as) mais bolsonaristas.

Evolução do percentual de rejeição aos candidatos ao governo estadual em 2022

Fonte: Elaboração dos autores

É importante destacar que, apesar de Sergipe ter um histórico majoritariamente petista em eleições presidenciais, esse padrão não se observa diretamente em eleições locais. No passado recente, o PT fez parte do grupo político no poder, sendo inclusive vice do atual governo do Estado (Eliane Aquino, PT, herdeira política de Marcelo Déda, é vice de Belivaldo Chagas, PSD). Contudo, na última eleição para a prefeitura da capital Aracaju, o PT lançou candidatura própria, rompendo com o grupo político da situação – escolha que fez o PT obter apenas 9,55% dos votos, enquanto Edvaldo Nogueira (PDT) ficou com 45% no primeiro turno e foi reeleito no segundo, com 57% dos votos válidos. Esses resultados indicam que, apesar de Sergipe ter um histórico de votação petista em pleitos presidenciais, não podemos subestimar a força do grupo político que hoje é situação.

Este é o grupo político por trás da candidatura de Fábio Mitidieri (PSD). O candidato, nesta eleição para governo em Sergipe, pode, além disso, ter outro benefício para além das vantagens próprias em ser o candidato da situação: apetecer ao eleitorado, majoritariamente mais à esquerda, sem tornar-se alvo direto do antipetismo, que se concentra em algumas das cidades mais populosas do Estado.

O crescimento em abril e maio de Valmir de Francisquinho (PL), ex-pré-candidato ao governo, pareceu momentaneamente indicar um crescimento do bolsonarismo no Estado. Mas a ausência de dados públicos detalhados de como se dava esse apoio não permite entender o quanto seu apoio se estendia para além de seu domicílio eleitoral, Itabaiana (Agreste central) – uma das regiões onde, já sabemos, o bolsonarismo é mais forte no Estado.

Ao tornar-se inelegível, Valmir parece ter deixado muitos eleitores bolsonaristas indecisos. Isso porque, com a cisão de Alessandro com Bolsonaro, bolsonaristas mais duros podem relutar em apoiá-lo. Ainda assim, ele parece ter conseguido parte desses votos – e é possível que consiga mais, se o antipetismo crescer suficientemente durante o período de campanha.

O cenário ainda está aberto, com indecisos em primeiro lugar. O contexto parece favorecer Mitidieri, com margem real pequena ainda, mas maior potencial de crescimento. Mas muita coisa ainda pode acontecer. Apoios públicos importantes como o de Edvaldo Nogueira (PDT) – aliado de Fábio Mitidieri (PSD) – e Valmir de Francisquinho (PL) podem vir a fazer a diferença na corrida pelo governo do Estado. Para Rogério Carvalho, seu potencial de crescimento parece depender de atrelar positivamente sua imagem à do ex-presidente Lula, que lidera as intenções de voto para presidente no Estado, e conquistar esses eleitores.

Nota: alguns dos gráficos apresentados neste texto figuram em análise realizada pelos autores sobre as pesquisas de intenção de voto ao governo do Estado de Sergipe que foram divulgadas na mídia. Esta análise pode ser acessada aqui.

Referências

DE MAGALHÃES, Leandro. Incumbency effects in a comparative perspective: Evidence from Brazilian mayoral elections. Political Analysis, v. 23, n. 1, p. 113-126, 2015.

SAMUELS, David; ZUCCO, Cesar. Partisans, anti-partisans, and voter behavior 1. In: Routledge handbook of Brazilian politics. Routledge, 2018. p. 269-290.

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