O que aprendemos desde a última crise financeira?

O que aprendemos desde a última crise financeira?

REDAÇÃO

29 de junho de 2015 | 16h30

Lauro Gonzalez -Professor de finanças da EAESP-FGV e Doutor em Economia de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP.

Rafael Schiozer – Professor de finanças da EAESP-FGV onde obteve o seu Doutorado em Finanças.

 

Quase sete anos se passaram desde a quebra do banco Lehman Brothers, que marcou o auge da crise financeira, cujas consequências são sentidas até os dias atuais. A crise mudou ainda a visão sobre o funcionamento dos mercados financeiros. Dentre economistas, financistas, reguladores e atores de mercado era relativamente mais forte a ideia de eficiência, que na prática significava deixar o mercado operar de maneira “mais livre”, sendo essa a forma de produzir os melhores resultados para a sociedade. A mudança de visão mencionada decorre em parte do que aprendemos desde a crise.

Relembrando, a turbulência financeira teve origem nos EUA, em 2007, e se alastrou para a Europa e Ásia, chegando de fato aos mercados emergentes, incluindo o Brasil, logo após a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Com o propósito de reduzir o pânico naquele momento, mais de um trilhão de dólares foram injetados nos sistemas financeiros pelos governos dos países desenvolvidos, seja diretamente na capitalização de bancos fragilizados, seja em outros programas, como a compra de ativos de alto risco. Embora a ação tenha mitigado o pânico típico de crises financeiras, o crescimento econômico tardou a retornar. O governo brasileiro também reagiu ampliando seu escopo de atuação na economia para combater os efeitos da crise. Na fase mais aguda, procurou garantir a solvência e a liquidez do sistema bancário e ampliou o papel dos bancos governamentais no crédito.

Nestes sete anos, o debate na academia e no mercado se intensificou e algumas das causas e consequências de crises financeiras são mais bem compreendidas atualmente. Por exemplo, hoje se reconhece que o sistema de incentivos dos gestores com foco no curto prazo e a baixa capitalização dos bancos foram determinantes para a origem e velocidade de intensificação da crise. O novo arcabouço regulatório global (genericamente denominado Basileia III) trata desses problemas, exigindo mais capital dos bancos e desestimulando a remuneração de executivos financeiros com foco no curto prazo.

Talvez o maior avanço acadêmico na área tenha sido o entendimento sobre o papel da liquidez na eclosão de crises. Desenvolvimentos no campo das finanças comportamentais permitem que se compreenda melhor a relação entre o funcionamento dos mercados, as ações de política monetária e o risco de liquidez enfrentado pelos bancos. A regulação financeira pós-crise também contempla requerimentos de liquidez dos bancos, e os bancos centrais dispõem hoje de métricas mais precisas para avaliar o risco de liquidez, não só de bancos individuais, mas do sistema como um todo, que auxiliam a balizar suas ações no mercado monetário.

Por fim, os reguladores passaram a atacar um problema conhecido há muito tempo pelos economistas: a necessidade de salvamento de bancos sistemicamente importantes, comumente chamados de “grandes demais para falir”. A existência de instituições financeiras cuja falência provoca consequências negativas para a economia acaba fazendo com que os investidores e gestores desses bancos se comportem esperando um salvamento governamental. Desde há muito se conhece que esse fenômeno faz com que os bancos assumam riscos excessivos, mas hoje se compreende também que essa garantia implícita dada aos grandes bancos traz distorções competitivas que afetam negativamente a oferta de crédito na economia. Até 2007, esse problema era tratado apenas o âmbito da supervisão dos bancos centrais, o que se mostrou falho e insuficiente. Hoje, o foco da regulação está em diminuir as consequências negativas da falência de grandes instituições financeiras para a economia, de forma a evitar que os governos tenham que estender garantias a todos os seus passivos. Os Bancos Centrais do mundo todo passam a exigir dos grandes bancos planos de resolução de falência, o que permitiria uma liquidação rápida e ordenada de seus ativos.

Não há dúvida que ainda resta muito a aprender sobre como tentar prever, evitar e gerenciar crises. Eliminar a possibilidade de ocorrência de crises é um sonho distante e talvez inatingível, dada a natureza instável das economias de mercado. Estudo recente de economistas do FMI argumenta que uma excessiva financeirização pode produzir mais custos do que benefícios para sociedade, sendo justamente a maior exposição a crises um desses custos. Daí os benefícios de um ambiente de regulação e supervisão adequado.

Talvez gestores de mercado e reguladores estejam hoje mais preparados para detectar sinais de alerta e mais bem equipados para mitigar os efeitos de crise. Entre críticas de lado a lado, a regulação prudencial e as técnicas gerenciais avançam para sistemas financeiros mais estáveis. No entanto, a despeito do crescimento dos sistemas financeiros, cerca de 2,5 bilhões de pessoas, geralmente pobres, não acessam serviços financeiros. Detalhes fogem ao escopo deste texto, mas é patente o fato de que o mercado expandiu-se muito mais do que incluiu.

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