O preconceito de classe na ação da Polícia Militar

O preconceito de classe na ação da Polícia Militar

REDAÇÃO

24 Agosto 2017 | 12h04

Rafael Alcadipani, PhD em Management Sciences pela University of Manchester, é Professor Adjunto da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas. E-mail: rafael.alcadipani@fgv.br.

 

O Public Administration Review (PAR), um dos principais periódicos acadêmicos do mundo e que faz 70 anos neste ano, publicou um debate com diversos especialistas e também comandantes policiais a respeito da questão do preconceito na ação policial[1]. O ponto central era discutir a forma com que as polícias nos EUA e no mundo executam as suas atividades junto as populações mais vulneráveis e quais ações as forças policiais precisam tomar para protegerem as minorias que patrulham.

Tomar ações e atitudes para fazer com que as forças policiais não atuem de forma diferente contra os grupos sociais vulneráveis é uma das principais dores de cabeça dos chefes do polícia de países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Austrália e por ai a fora. Constantemente são feitas  ações em que se tentam aproximar jovens que pertencem as minorias e os policiais, com atividades em conjunto que procuram diminuir o grau de hostilidade entre eles.

Os estudos também são unânimes em demonstrar que crimes só são resolvidos quando informações partem da sociedade para a polícia. Quando há desconfiança da sociedade contra a polícia ocorre o contrário: as informações não chegam e os crimes não são resolvidos. É amplamente sabido, também, que os comandantes de polícia possuem grande influência na moldagem das culturas das organizações policiais e que sempre devem dizer contra o preconceito e combater as subculturas violentas existentes nas corporações policiais.

Em entrevista ao UOL, o atual comandante da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a ROTA, da PM paulista, argumentou que os policiais devem abordar de maneira diferente as pessoas que vivem no Jardins em comparação com as que vivem na periferia. Esta é uma fala muito comum dentro das subculturas policiais. Na prática, os policiais sabem que se eles tratarem uma pessoa rica no Brasil da mesma forma com que eles tratam uma pessoa pobre na periferia ele, o policial, terá problemas.

A elite no Brasil é muito conectada politicamente e busca sempre manter para si privilégios quase típicos de uma corte. Como já demonstrou os estudos da Profa Teresa Caldeira e muitos outros, as pessoas que vivem na periferia brasileira têm, na prática, bem menos direitos do que as pessoas ricas. A abordagem policial é um dos meios pelos quais tais diferenças se estabelecem. O problema da fala do comandante da ROTA é que ela reforça preconceitos e estereótipos. Um chefe de polícia, jamais, pode reforçar os valores da cultura informal das organizações policiais.

No Brasil, a taxa de confiança nas PMs é baixa. Elas são vistas pela população como forças policiais violentas e truculentas, especialmente nas áreas periféricas. Isso se dá pela existência de fortes subculturas na tropa que valorizam a violência policial. Ou seja, o discurso oficial para os policiais é de respeito aos direitos, mas na conversa informal se defende que os direitos não sejam respeitados, principalmente o dos pobres. É o “curriculum informal” que é diariamente ensinado por muitos comandantes aos seus comandados. Ao invés de reforçar, os comandantes precisam lutar contra este curriculum informal.

Isso é ainda mais importante porque parcelas da sociedade brasileira pedem sim que a polícia seja violenta, que ela torture e mate o criminoso comum. Se isso de fato funcionasse, o Brasil seria o país mais seguro do mundo. Esta é a mesma sociedade que se cala diante de políticos que recebem malas de dinheiro de propina em bairros nobres, propina esta que indiretamente afeta o trabalho de policiais que dão a vida para uma sociedade e um governo que se quer lhes dá a reposição da inflação para seus salários. O Rio de Janeiro é um caso clássico onde policiais  estão sendo mortos, parte pelas suas parcas condições de trabalho que não melhoram parcialmente devido aos milhões foram desviados pelos políticos locais.

A forma de tratar a “gente diferenciada” dos bairros nobres paulistanos é uma das maiores incoerências da política de segurança pública paulista que atua com todo o rigor e força nas periferias e com toda a educação e respeito nos Jardins, onde malas de dinheiro são entregues em restaurantes, onde moram muitos dos políticos e das autoridades que pouco ou quase nada fazem para melhorar a vida cotidiana dos policiais.

O preconceito social no Brasil é uma forma não apenas de penalizar os moradores das periferias, mas também uma maneira de manter os privilégios de um estamento social que ainda vive nos tempos da corte. Seremos um país diferente quando todos, de fato, forem iguais perante as leis.

[1] http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/puar.2017.77.issue-2/issuetoc