O paradoxo de Bolsonaro

O paradoxo de Bolsonaro

REDAÇÃO

28 de março de 2022 | 13h10

Maria Abreu, Professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Disclaimer: esse texto não contém qualquer informação que não possa ser obtida de outro modo. Não se trata de produção, mas de reflexão. O que vai ser escrito aqui o mundo das redes de informação – e não de produção de ideologia – já conhece.

Baseada nos dados das várias pesquisas eleitorais, além de informações que circulam pelas redes sociais digitais, é razoável afirmar que boa parte dos brasileiros não somente desejam que Bolsonaro saia da presidência, como também seja responsabilizado pelas suas condutas como presidente da república. Motivações não faltam para que ele seja acusado de crime contra a humanidade. Menciono aqui apenas duas: sua conduta irresponsável durante a pandemia, que importou, inclusive, em uma inédita interpretação jurídica sobre o federalismo brasileiro, e sua atuação contra a população indígena.

O fato de ele ser passível de acusação de crime contra a humanidade remete ao contexto pós Segunda Guerra Mundial, em que o tipo penal do crime contra a humanidade foi construído, política e juridicamente, para abarcar o que havia acontecido em campos de concentração e responsabilizar adequadamente aqueles que empreenderam políticas e práticas totalitárias.

Muito se produziu a respeito do totalitarismo. A principal referência intelectual a esse respeito foi Hannah Arendt, criticada e idolatrada por muitos, alvo de embates meio extemporâneos nas redes sociais. Independentemente do que signifique totalitarismo, uma distinção que Arendt estabeleceu a partir do julgamento de Eichmann é, a meu ver, a mais importante no nosso momento presente: a distinção conceitual entre mal radical e banalidade do mal.

Mal radical seria, de maneira muito simplória e não atendendo ao rigor filosófico da reflexão dos autores envolvidos (Arendt e Kant), algo derivado da desorganização das atividades mentais humanas, em que, por uma falha dos dispositivos racionais, os seres humanos deixariam de seguir o imperativo categórico, segundo o qual cada um deve agir de forma que sua ação possa ser validada universalmente. Vejam que essa validação universal importa já em uma noção bastante popular hoje, que é a de empatia. O termo empatia ainda não estava no horizonte nem de Kant, nem de Arendt, porque estes não estavam preocupados com dimensões emocionais, nessa tipologia mental, no caso de Kant e política, no caso de Arendt.

O deslocamento do uso do conceito de mal radical para banalidade do mal é feito por Arendt a partir de uma análise do processo de julgamento de Adolf Eichmann. Nessa análise, ela aponta, de forma muito sofisticada e corajosa, que Eichmann não era o sujeito monstruoso que desejava matar. Era simplesmente um burocrata obediente das regras do aparato estatal totalitário alemão, sob o governo de Adolf Hitler. Eichmann não precisava ser enjaulado, como o foi, ele precisava ser constrangido a pensar. Faltava-lhe a capacidade de pensamento, de reflexão sobre as consequências do que faria. Há aqui, também uma falta de empatia, mas de outro tipo. Esta é derivada de uma crença dogmática nos estatutos jurídicos e burocráticos.

A figura de Hitler já foi alvo de críticas e análises de todo tipo. Referências quase sagradas da arte, da literatura, da filosofia e das redes sociais já refletiram, julgaram e condenaram, histórica e politicamente, sua figura.

Seria Bolsonaro Hitler? Acredito que não. E, aqui, não se trata de uma comparação, em que se coloca um como menos pior que outro. Mas de distinção. Do ponto de vista analítico, comparações são feitas para medir, distinções são feitas para compreender.

Uma das declarações recentes de Bolsonaro foi reconhecer que ele não era mesmo muito inteligente. Essa declaração produziu risos de todo tipo. E ela escancara o paradoxo que estamos enfrentando com o governo Bolsonaro.

Sua falta de preparo e pouca qualidade técnica de sua equipe são escandalosos. O desastre pandêmico não foi pior no Brasil porque contamos com burocratas comprometidos e capazes de não serem Eichmann.

Na verdade, penso que sua baixa capacidade de cognição é algo que não deveria ser criticado, mas comemorado. Fosse ele mais competente, poderíamos ter tido, no Brasil, um governo de fato totalitário. E com uma desumanidade talvez jamais vista. Esta não é uma especulação, é uma inferência baseada no testemunho das mais graves declarações de Bolsonaro. Felizmente, não tivemos a intensidade totalitária dessa monstruosidade que é Bolsonaro. A crítica mais contundente que deve ser feita a Bolsonaro e sua equipe é sua falta de empatia, de capacidade de enxergar o outro, de responsabilidade com o bem-estar de uma sociedade que os elegeu.

Por isso, acredito que, se queremos algo realmente emancipatório nascendo a partir do processo eleitoral que já está se iniciando, temos que deslocar nossos argumentos do campo da cognição para o campo da compreensão. De novo Arendt nos ajuda: a compreensão é resultado da capacidade de reflexão e um pensamento alargado que nos permite julgar adequadamente. Compreender não é perdoar, nem condescender, mas ser capaz de perceber e reconhecer o que está de fato acontecendo.

O sucesso eleitoral de Bolsonaro não veio de uma teoria normativa a respeito da humanidade que usa de métodos ilegítimos (incluindo, principalmente, difusão de informações falsas) para se validar, como era o caso de Hitler. Sua campanha mobilizou todos os dispositivos psicológicos e sociais que fizeram de seu governo uma engenhoca desarranjada e de grande escala, em que se combinam e são atraídos mau-caratismo, oportunismo e irresponsabilidade.

O paradoxo que isso causa é que a falta de preparo, a desinteligência assumida e os traumas e recalques evidentemente presentes em membros de sua equipe – que não são apenas burocratas obedientes como Eichmann -, em um eventual julgamento, podem tirar parcialmente a intenção dos atos. E isso, no âmbito criminal, pode amenizar condenações. No entanto, do ponto de vista da responsabilidade política, ela deveria agravar seus atos e omissões. Tenhamos a esperança de que Bolsonaro não somente saia da presidência, mas seja condenado por seus crimes. Por todas as ilegalidades que cometeu e, sobretudo, por sua desumanidade. E o julgamento mais importante é aquele que será feito politicamente, e este só pode ser feito com uma derrota acachapante e desmoralizante nas urnas.

P.S.: esse texto é mais marxista do que parece.

 

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