O “pai autoritário” eleito em 2018

O “pai autoritário” eleito em 2018

REDAÇÃO

26 de abril de 2021 | 11h40

Ítalo Soares, Doutorando em Administração Pública e Governo pela FGV – EAESP. Twitter: @Italonsoares

O linguista George Lakoff, no conhecido livro Don’t Think of an Elephant, divide os estilos políticos em dois polos simples: o estilo do pai generoso e o do pai autoritário. Segundo Lakoff, são essas duas metáforas que orientam não só a linguagem e a estratégia da campanha eleitoral, mas também é o tom predominante no desenho das políticas públicas. Embora o evidente o cunho patriarcal destas metáforas, ainda sim são matrizes analíticas úteis para entender o fenômeno complexo de governar.

O modelo do pai generoso, explica Lakoff, é a do governo progressista, integrador, que respeita a decisão dos seus “filhos”, que não aplica normas estritas sobre as organizações familiares, que defende uma rede ampla de políticas de apoio para os momentos delicados da família. O pai generoso pode pecar pelo cuidado excessivo, é certo, o que equivale na linguagem da política ao descuidado com as contas públicas e o desenho displicente de programas sociais.

Por outro lado, o pai autoritário é o que preza sempre pela ordem no lar. Ordem esta que é precondição para o trabalho disciplinado, para a árdua luta pelos méritos do mercado. O pai autoritário sabe manter a hierarquia doméstica, e mantem com clareza o papel de cada um na lida cotidiana. O pai autoritário ensina aos seus filhos a violência incorrigível da vida pública. Na construção de sua visão de ordem, o pai autoritário prefere a homogeneidade, suspende a integração e a diferença, afinal, “quem sai aos seus não degenera”.

Na última eleição presidencial, os brasileiros fizeram uma aposta clara no pai autoritário. Depois de anos de instabilidade política, com crise econômica, impeachment, Lava Jato e etc., era o momento de alguém para colocar ordem na casa. Um líder político forte e independente, intocado pela corrupção, que domasse com pulso firme um sistema político se esfacelando. Uma figura napoleônica que definisse com clareza o papel do congresso e do STF, das universidades e da mídia, e claro, os papeis de gêneros da família brasileira. Em suma, alguém que de cima a baixo reorganizasse a sociedade brasileira como um todo. O desejo difuso por ordem é que colocou Jair Bolsonaro no governo. Para Bolsonaro e seu movimento, o pai generoso é um frouxo, um displicente, ou melhor, um marxista cultural que quer subverter a política e os costumes do cidadão de bem.

No entanto, o pai autoritário da vez não entregou a ordem esperada. Pelo contrário, o estilo de governo Bolsonaro preza sempre pela confusão. Desde o início do mandato vive em permanente conflito com outras instituições, ora o Congresso, o STF,  a mídia, as universidades, líderes internacionais, quando não até a esposa de Emanuel Macron é pauta para conflitos.

Na gestão da pandemia, o governo de Bolsonaro é um exemplo internacional de desordem. O governo federal sequer puxou uma coordenação entre estados e municípios. Pior, nos primeiros meses da pandemia sequer houve uma ação centralizada de comunicação pedagógica para informar sobre máscaras e procedimentos para conter as infecções da COVID-19.

Ainda assim, o desejo por ordem de grande parte da sociedade brasileira continua. Como defende o filósofo Peter Sloterdijk, a sociedade precisa construir mecanismos que desarmem as “caixas de ressonância de ódio e indignação”. O notável fracasso de Bolsonaro no esforço de organizar o sistema político não enfraquece um forte clamor popular por um novo registro de ordem e moral em todas as instituições sociais. Bolsonaro é apenas a ponta de lança de um movimento multifacetado e pulsante na sociedade brasileira.

A pergunta que fica é: temos líderes políticos com habilidade suficiente para desarmar essas fúrias desordenadas e reestabelecer um novo equilíbrio político? É o momento de nos voltar para as virtudes do pai generoso ou dobrar a aposta nas características do pai autoritário? São estas metáforas que certamente guiarão nosso confronto eleitoral em 2022.

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