O meu corpo é político? Divagações de uma geração neoliberal

O meu corpo é político? Divagações de uma geração neoliberal

REDAÇÃO

04 de maio de 2021 | 09h50

Julia Rezende, Mestranda em Administração de Empresas e Pesquisadora em Estudos Organizacionais pela FGV-EAESP

Recentemente, eu estava participando de um fórum de discussão sobre diversidade e inclusão em empresas quando um amigo querido, daqueles que entram em conversas para provocar e enriquecer o debate, trouxe o seguinte questionamento: “e o que a nossa posição política tem a ver com isso tudo?”. Segundos de silêncio se passaram até que me aventurei a puxar a fila das respostas e divagações com o que, até então, era uma opinião formada por intuição mais do que fatos. Então eu disse: “tudo é político. A minha voz é política, o meu corpo é político”.

Surpreendentemente (ou talvez não tanto), fui seguida por uma série de apoiadores que demonstraram suporte profundo à minha afirmação, gerando um ambiente de discussão um pouco mais polarizado e talvez até levemente desconfortável. Percebendo o acontecimento, pensei logo que o desconforto era necessário, afinal, a construção de ideias muitas vezes passa pela via do conflito, com nós mesmos e com os outros. Mas ao final, conversando com este mesmo amigo, reconsiderei uma outra perspectiva. Acontece que este amigo sentiu que foi alijado ao debate naquilo que ele tinha para acrescentar sobre diversidade e inclusão, e que no caso, inclusive, era relevante. Ele era um dos grandes apoiadores do tema na empresa em que trabalhava, e tinha tido experiência com ações afirmativas para contratação de um time com maior igualdade racial, bem como a gestão do mesmo. Mas, apesar disso, foi gradualmente se sentindo menos ouvido, na medida em que sua visão política liberal ia sendo revelada.

Depois disso, me senti na obrigação de aprofundar um pouco mais no assunto e entender de quais formas o debate político se relaciona com algumas de nossas visões sociais, especialmente no âmbito de políticas de inclusão e de busca por uma sociedade mais igualitária, que impactam e são impactadas por um cenário organizacional em que minorias marginalizadas possuem representatividade e inclusão.

Neste sentido, é válido explorarmos um campo rico de pesquisas que vem tentando encontrar fatores internos que possam estar correlacionados com comportamentos inerentemente discriminatórios e preconceituosos em relação a alguns grupos, entendendo o papel da visão política dentro disso. Alguns preditores muito robustos já foram encontrados, como a “orientação para dominação social” (SDO – na sigla em inglês), e a posição de “autoritarismo de direita” (RWA), conceitos que são inclusive, correlacionados e frequentemente encontrados concomitantemente. Segundo pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que começaram a trabalhar com o conceito de SDO no começo da década de 90, SDO pode ser entendido como um traço de personalidade que impacta posições políticas e sociais de um indivíduo, e é caracterizado pela preferência por uma relação hierárquica entre grupos, em que um grupo é necessariamente superior à outro. Um alto nível de SDO é associado ao apoio a ideologias que apoiam hierarquias entre grupos, como o racismo e a até mesmo a ideia de meritocracia, e negativamente correlacionado com características como altruísmo, empatia e tolerância.

Já o conceito de RWA está relacionado com o desejo por controle social e segurança, uma submissão natural a figuras de autoridade, e valores conservadores. Quando combinados, pessoas com altos níveis de SDO e RWA tendem a não apoiar programas de equidade, serem religiosamente etnocêntricas e dogmáticas, racistas e homofóbicas. Entender estes conceitos pode ser um bom caminho inicial para compreensão de como traços de personalidade influenciam ideologias, as quais, quando colocadas em prática, são manifestadas pelo voto político e impactam o cenário de diversidade e inclusão de organizações e sociedades.

Apesar de esclarecedores, estes conceitos representam e explicam apenas uma parcela do que seriam então, eleitores da política “de direita”, grupo que no começo deste texto teria sido implicitamente “acusado” como não aliado ao debate de diversidade e inclusão. Restariam, aqui, pessoas que se posicionam como de direita por uma visão econômica liberal, combinada com um posicionamento social progressista. Nestes casos, vamos recorrer a outro conjunto de pesquisas.

Teóricos que criticam a efetividade de mudança social a partir de uma visão (neo)liberal argumentam que a crença em um modelo econômico capitalista tal qual existe desde sua origem, acarreta uma omissão no que diz respeito à característica inerente ao capitalismo de geração de desigualdades e exploração. Neste sentido, mesmo pessoas liberais economicamente, poderiam estar, então, fazendo um desfavor para lutas sociais, a partir do momento em que apoiam determinados papéis de Estado e empresas na sociedade e economia, geradores de desigualdades. Importante ressaltar que esta hipótese de consequências a partir de um modo de governo não é unânime e não há preditores robustos de personalidade que possam ser relacionados à essa visão política, de forma que o posicionamento político se torna naturalmente menos atribuído a personalidade, e sim a um conjunto de crenças adotadas.

Aqui, trazer algumas ideias de Foucault enriquece o debate e dialoga batendo de frente com uma geração neoliberal. Este famoso filósofo francês possui um extenso trabalho sobre biopolítica, ou seja, sobre um conjunto de mecanismos que têm como intuito manter e ampliar uma relação de dominação da população, partindo de um objetivo muito comum ao da agenda liberal: alcançar o máximo de lucro com o mínimo de esforço, o máximo de governo com o mínimo de Estado. Nesta lógica, o poder está sempre presente nas relações, e a aparente ausência de uma concentração de poder (por exemplo, a ilusão de um livre mercado) seria apenas um deslocamento do poder que estaria então concentrado na manutenção de um espaço supostamente livre que é a economia liberal e a promoção da livre concorrência. Ou seja, para Foucault, a crença em uma economia liberal beira a ilusão – a ignorância de uma individualidade manipulada pelas relações ocultas de poder, e consequentemente, exploração.

Reconhecendo o debate de peso que nos traz grandes reflexões sobre formatos de governo, me resta apenas recomendar que leitores curiosos dediquem um tempo para ler Aristóteles, Adam Smith, Marx, Friedman, Foucault e tantos outros. Pois, para além de um posicionamento econômico, social, e essencialmente político, temos que entender a nossa visão de mundo – a nossa crença a respeito de como o conhecimento é criado e reproduzido, o papel das pessoas, e o que nos importa, aspectos inerentemente presentes em todas as teorias mencionadas acima, bem como outras relevantes nas áreas da Ciência Política, Sociologia e da Economia.

À guisa de uma conclusão, retomo o ponto de partida da minha divagação para uma breve explanação literal, entendendo que tudo é político, no sentido de que política é o mecanismo que temos de participar de uma sociedade, e a não participação é também uma posição. Mas, ainda assim, trazendo a leveza da crença de que nem todas as nossas posições políticas são explicadas pelo nosso caráter, e que, apesar de algumas implicações (e quem sabe contradições) práticas dos projetos políticos que escolhemos apoiar, podemos, e devemos, sempre, promover um espaço inclusivo de debate, em que visões de mundo diferentes conseguem achar seus pontos comum na construção de uma agenda de diversidade e inclusão que seja efetiva.

E por fim, na crença do dever da não omissão: os meus posicionamentos dentro de um debate que almeja a promoção de um ambiente organizacional mais diverso e inclusivo são políticos, tal qual o meu ser. Como diz Foucault, onde há poder, há também resistência. Ainda assim, espero que nestes debates tenhamos também diversidade de visões políticas e a capacidade de sempre manter uma escuta ativa e empática.

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