O lugar das mulheres nas organizações

O lugar das mulheres nas organizações

Maria José Tonelli

31 de julho de 2015 | 15h14

Maria Jose Tonelli, Professora titular no Departamento de Administração da FGV-EAESP. Coordenadora do NEOP – Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas.

Temos assistido um revival de grupos de mulheres, coletivos feministas e vários debates sobre a questão das mulheres em postos de gestão, em conselhos, etc. Melhor esclarecer de começo: na pobreza as mulheres sempre trabalharam, ontem, hoje e provavelmente para sempre. Na alta aristocracia, as mulheres tinham seu papel. Quando passamos a ter as camadas médias nas cidades, ou, os famosos habitantes do burgo, a burguesia, a questão ficou mais complexa.  De um lado, o ideal de uma mulher romântica, voltada ao cuidado dos filhos e da casa, supostamente rainhas no espaço privado, de outro, homens provedores, concentrados e reinando no espaço público, modelos de caráter e dinamismo empreendedor.

 

Ao longo do século XX, as habitantes dos burgos reivindicaram a possibilidade de estarem também presentes no espaço público. Mas parece que os homens não se interessaram tanto em participar ativamente do espaço privado. No Brasil então, onde estas questões de público e privado são especialmente complicadas, nem se fala… Mas não vamos entrar nessa trilha senão perdemos a questão de gênero.

 

A vida seguiu e, com muito esforço, as mulheres entraram para as organizações. O que mudou com a participação das mulheres no mundo corporativo? Nada. Como escrevemos num artigo publicado há quase três décadas (*), as mulheres nas organizações não dulcificaram o espaço de trabalho (a se supor que as mulheres sejam mais dóceis).  Infelizmente nada mudou. As organizações continuaram como espaços construídos a partir dos modelos masculinos e, a considerar as pesquisas recentes, os modelos burocráticos, com sua origem nos exércitos e na igreja continuam operando. Mesmo empresas inovadoras e ultrajovens não conseguiram eliminar o modelo clássico de comando e controle.  Nossos modelos de organizar são muito antigos (o que por si só não é desabonador), mas não necessariamente adequados às nossas novas necessidades.

 

Mas e as mulheres? A pesquisa de Ana Paula Vitelli Morgado (**), sobre executivas intermediárias mostrou que muitas mulheres não querem mais ascender na carreira. Quanto mais alto, mais caro o preço a pagar. Em posições intermediarias já se tem a garantia (ou a possibilidade) de ganho que contribui com a renda familiar. E essa posição parece suficiente e tudo parece resolvido nos arranjos domésticos. Entretanto,  decorrente dessa situação ocorre um outro fenômeno: o desaparecimento simbólico da mulher. Para trabalhar como executiva, ainda que intermediaria, ela precisa deixar o espaço doméstico. E ao ficar nos escalões intermediários elas também não dão as cartas nas empresas. A recente publicação do Valor, sobre os melhores “comandantes” das empresas, não traz uma única mulher na lista. Não se justifica com isso a lista citada, mas as mulheres não estão mesmo presentes nem em casa nem nas organizações. Há um efeito dominó na terceirização do cuidado com a casa que se desdobra por todas as camadas sociais e que permeia o papel de todas as  mulheres aqui no Brasil.

 

Entretanto, não são as mulheres as únicas a sofrerem com essa condição.  Todos sofrem. Homens, mulheres, crianças. Essa é uma entre as várias condições que afetam a noção de civilidade em nosso país: de modo geral as pessoas não têm hoje a condição de tempo para se dedicarem ao desenvolvimento das crianças. Estão presas e infelizes no trabalho. Como podem criar crianças felizes? A angústia inevitável de existir fica potencializada numa sociedade desorganizada. As crianças percebem esse mal-estar. Por que então as crianças quereriam ter esse modelo infeliz? E, não se trata de um jargão, elas são sim o futuro do país. Está feito o circulo vicioso.

 

Talvez o que esses grupos de mulheres estão a querer debater é esse funcionamento disfuncional de uma sociedade que paga o preço de não ter a produtividade dos países desenvolvidos, mas que também não permite o cuidado de si. Mais um dos paradoxos que marcam o nosso ineficiente  modo de viver.

 

As mulheres, executivas ou empreendedoras, vivem de modo mais agudo o conflito trabalho-família. Mas a questão das mulheres é apenas a ponta do iceberg de questões mais amplas que marcam o modo de vida nas grandes cidades como tempo/espaço, público/privado, reconhecimento e sobrevivência social. A insatisfação com a intensidade do trabalho é geral para todos.

 

(*) Mulheres executivas e suas relações de trabalho. Betiol, M.I.; Tonelli, M.J. Rev. adm. empres. vol.31 no.4 São Paulo Oct./Dec. 1991.

(**) A MULHER INVISÍVEL: Sentidos atribuídos à mulher e ao trabalho na gerência intermediária. MORGADO, A.P.D.V. FGV-EAESP, São Paulo, 2012 Tese de Doutorado.

 

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