O longo delírio regional*

O longo delírio regional*

REDAÇÃO

26 de fevereiro de 2021 | 15h39

Cristovão Henrique, Doutor em Geografia Econômica (UFGD), Pós-Doutor em Geoeconomia (UFG) e Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC).

 Após um ano de pandemia de COVID-19 no Brasil, uma crise sanitária sem precedentes na história recente do país, continuamos na contagem de mais de duas centenas de milhares de mortes evitáveis sob a batuta do escárnio protagonizado pelo Presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido). A cruzada negacionista que o Brasil se enveredou, capitaneado pelo Governo Federal, ignorou todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos virologistas, epidemiologistas que deram, no início da pandemia, as coordenadas de como conter o contágio no novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Ao longo desses doze meses, vimos os países tentando se organizar em torno de estratégias que deveriam implementar para atingir o achatamento da curva epidemiológica, no sentido de reduzir o estresse do sistema de saúde e funerário. Dessa forma, os gestores públicos ao redor do mundo conseguiriam alcançar o mínimo de convívio social com os protocolos de biossegurança, até que desenvolvêssemos as vacinas, e, graças a ciência e avanços biotecnológicos dos últimos anos, as temos. Em contrapartida, mesmo com os números altíssimos de casos e óbitos causados pela COVID-19, o Brasil insistiu e insiste nos passos de uma dança equivocada no escuro, entre a habilidade de conviver com o vírus e a falta de coesão das políticas públicas nos âmbitos federal, estadual e municipal.

Com as eleições municipais pelo país afora, que foram prorrogadas para novembro de 2020 em virtude do contexto pandêmico, associadas as festas de fim de ano e as aglomerações clandestinas de carnaval, deixaram para fevereiro de 2021, um custo terrível para as regiões mais desiguais do país: a segunda onda de contágio. Em paralelo a isso, na escala nacional, foi deflagrada a guerra da vacina, com o discurso, até então, anti-vacina de Jair Bolsonaro, para fazer oposição ao seu rival político, o Governador do Estado de São Paulo João Doria (PSDB), que mira as eleições presidenciais de 2022. De todo modo, no final da guerra, após a aprovação de uso emergencial do imunizante pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, Doria colheu um saldo político positivo resultante dos embates com o Governo Federal.

Em meio a tudo isso, são 10,3 milhões de infectados e ¼ de milhão de vidas perdidas para a pandemia (Mapa 1), que no Norte do país, deixou um rastro epidemiológico com uma mutação do novo coronavírus, agora mais transmissível, colocando a comunidade internacional em alerta. A Espanha, Portugal, Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos restringiram voos originários do Brasil, e, portanto, a mutação do vírus no Amazonas, colocou fim ao delírio regional de que o pior da pandemia já tinha passado. O sistema de saúde em Manaus entrou em colapso, em seguida o sistema funerário, o Pará, decretou lockdown regional na porção Oeste do Estado desacelerar o contágio que já tinha saído das fronteiras administrativas amazonenses.

Mapa 1: Pandemia de COVID-19 no Brasil situação 26/02/2021

Já debatemos o fator regional da pandemia e, insistimos nesse ponto, já que é no eixo hidroviário fluvial que as pessoas se deslocam para as metrópoles amazônicas em busca do atendimento já que no interior não há unidades de terapia intensiva (UTI). É nesse deslocamento geográfico, que se arrasta durante dias e dias em embarcações clandestinas abarrotadas de pessoas, sintomáticas e assintomáticas, que os índices de contágio são elevados potencialmente na maior floresta equatorial do mundo.

Com o fim da guerra da vacina e dos lugares, como intitulamos a corrida frenética dos governadores em busca das vacinas, os Estados tentam editar medidas de contenção dos casos ascendentes de COVID-19, enquanto no conjunto, o país voltou ao platô único no mundo e trágico de mil mortes/dia, sem auxílio emergencial e com letalidade do vírus em 2,4%.

O Plano Nacional de Imunização (PNI) em meio as trapalhadas do Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, começou a imunização em 22 de janeiro e, até 26 de fevereiro, imunizou 6,3 milhões, 3% do total da população brasileira, com direito a confusão na entrega das doses nos Estados do Amapá e Amazonas em razão da troca dos nomes dos Estados na planilha do Ministério. Isso, para o país que tem maior capacidade de vacinação no planeta, mas atualmente, enfrenta desinformação, incompetência logística e dificuldade de acesso a insumos básicos para produção de vacinas, em decorrência das bizarrices diplomáticas protagonizadas por Jair Bolsonaro e seu Chanceler Ernesto Araújo.

Enquanto isso, nas bandas do extremo Oeste da Amazônia, a pandemia segue padrão natural do contágio, e no Estado do Acre, são 139.248 casos notificados, com 88.542 (63,6%) casos descartados e outros 56.257 (35,9%) confirmados (6%) do total da região norte e outros 762 (0,5%) seguem aguardando resultado de exame laboratorial (Mapa 2) e (Gráfico 1).

Mapa 2: Acre casos de COVID-19 – Taxa de Letalidade e casos confirmados 26/02/2021

Mapa 3: Óbitos diários e curva acumulada por COVID-19, conforme data da ocorrência 2020/2021.

No cenário de fusão de crises, como se já não bastasse a COVID-19 e o surto de dengue com 7.514 novos casos, aumento de 189% em relação ao mesmo período de 2020, o inverno amazônico, período de chuvas intensas na região Norte, causou enchentes graves na capital e no interior deixando cerca de 110 mil pessoas desabrigadas. Ao mesmo tempo, em Assis Brasil, na fronteira com o Peru, haitianos e africanos fazem o caminho imigratório inverso que fizeram há 11 anos atrás, entraram em confronto com os policiais peruanos que bloquearam o acesso ao país por causa da pandemia. O impasse persiste até hoje com os imigrantes, cerca de 300, acampados na ponte que liga os dois países, dando um o tom mais severo às crises regionais enfrentadas no Acre.

Ainda assim, seguindo as medidas de restrição, a gestão da capital acreana, comandada pelo prefeito recém eleito Tião Bocalom (PP), continuou alinhado as medidas tomadas pelo Governo Estadual em reduzir o número de infectados. O Governo do Acre instituiu implementou o Plano Estadual de Vacinação e administrou cerca de 17.933 doses (2% da população acreana), de acordo com o vacinômetro do Estado, com os imunizantes entregues em todos os municípios. Vale lembrar que o Estado atualiza os dados de doses administradas semanalmente, no cenário nacional, até o dia 26 de fevereiro, o Acre está na 24ª posição no ranking nacional de vacinação.

Ainda assim, assistindo o drama no Estado vizinho Amazonas, o Governador solicitou fechamento e/ou imposição de barreiras sanitárias das fronteiras com o Amazonas, e, pediu ao Itamaraty o fechamento das fronteiras internacionais com o Peru e Bolívia. Em últimas ações de contenção, executando as ações do “Pacto Acre Sem COVID”, instituído no Decreto nº 6.206, de junho de 2020, subiu o nível de risco de todas as regionais de saúde no nível de emergência (cor vermelha) e alterou o Decreto nº 5.496, de 20 de março de 2020. Fato que restringiu atividades em bares, restaurantes, academias e até as escolas municipais e estaduais que estavam ensaiando uma retomada de atividades presenciais.

Nesse ponto, sobre o “Pacto Acre sem COVID”, o que deve ser debatido é o seguinte: sem imunização em massa, campanha de informação e conscientização da população sobre os cuidados a serem tomados, a pandemia levará mais tempo para passar, com ou sem pacto em qualquer unidade federada, já que o patógeno não respeita as fronteiras administrativas, e assim, o país ficará nessa ciranda de cores nas regionais de saúde, mais parecida com um longo delírio regional, sem auxílio emergencial, taxa de desemprego em 14%, menor disposição da população para os lockdowns, economia extremamente fragilizada.

Enfim, embora sejam inúmeros os esforços coordenados entre as esferas municipais e estadual, implementando as políticas públicas setoriais para conter a contaminação e achatar a curva epidemiológica de COVID-19, elas colidem diretamente com a irresponsável condução das medidas, durante a pandemia, por parte do Poder Executivo Federal. De todo modo, o esforço deve ser concentrado na vacinação já em curso no país, vigilância epidemiológica e molecular para rastrear a variante mais transmissível do vírus. O obstáculo será compreender a regionalidade da COVID-19 no Brasil, ainda que a agenda do Governo Federal, esteja mais focada na aquisição de leite condensado e os Deputados do Centrão do que as doses de vacinas necessárias para imunizar os brasileiros.

Cristovão Henrique – Geógrafo e Internacionalista – Professor do Curso de Geografia do CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (UFAC). E administra o site geoeconomico.com.br

 

REFERÊNCIAS

Boletim Sesacre – 04/02/21 Boletim informativo diário situação epidemiológica da COVID-19 – https://bit.ly/3pM97VC

RIBEIRO SILVA, C.H.. A GUERRA DA VACINA E DOS LUGARES. O Estado de S. Paulo (Estadão), São Paulo, p. 1 – 1, 22 jan. 2021. – https://bit.ly/363U0PK

Data SUS – COVID-19 – Ministério da Saúde Insumos – https://covid.saude.gov.br/

IBGE – Cidades – Rio Branco – https://bit.ly/3caJcjA

Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) – https://covid19.healthdata.org/brazil/acre

Para conter avanço da Covid-19, Gladson Cameli solicita fechamento das fronteiras e divisas do Acre – https://bit.ly/3j8crIk

Mapa da vacinação contra Covid-19 no Brasil – https://bit.ly/39U96K2

*Este artigo faz parte de SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política: 08 a 12 de fevereiro de 2021.

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