O início da vacinação nos municípios brasileiros: entre simbolismos e escassez

O início da vacinação nos municípios brasileiros: entre simbolismos e escassez

REDAÇÃO

21 de janeiro de 2021 | 12h03

Michelle Fernandez (IPOL/UnB)

Gabriela Lotta (Fundação Getúlio Vargas)

Marcela Garcia Corrêa (Fundação Getúlio Vargas)

 

Após meses de muita espera, finalmente começamos a vacinação contra COVID-19 no Brasil. No domingo, muitos(as) de nós nos emocionamos com a aprovação, pelos diretores(as) e técnicos(as) da Anvisa, do uso e distribuição emergencial do primeiro lote de vacinas aqui produzidas. Na última terça-feira, 19 de janeiro, a grande maioria dos municípios brasileiros já havia recebido as doses designadas no repasse das pouco mais de 6 milhões de doses da CoronaVac, disponibilizadas pelo Instituto Butantan. A sensação de alívio, emoção e esperança por imaginarmos um possível “início do fim” desta pandemia que ceifou milhares de vidas, rapidamente deu lugar à apreensão. Com as doses disponibilizadas, apenas uma pequena parcela do grupo prioritário será vacinada e, em função disso, gera-se um ambiente temerário que vislumbra uma possível interrupção da vacinação por falta de vacinas.

Não obstante, nos últimos dias os jornais têm realizado coberturas intensas sobre as problemáticas de logística, distribuição, insumos e o que parece mais uma série de embates políticos. A nível das relações federativas, chamam atenção as trocas de faíscas entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, o atual ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o governador de São Paulo, João Dória. No âmbito das relações internacionais, cruciais neste momento de definição global sobre quem comprará os insumos das vacinas e em quais quantidades, o Brasil colhe as sementes de relações diplomáticas tensionadas, principalmente com o governo chinês e com o indiano. A “corrida pela vacina” escancara, mais uma vez, as desigualdades entre países do Norte e do Sul Global e, atualmente, ocupamos um lugar não só de vulnerabilidade mas eminente perda. O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, inclusive declarou que estamos presenciando uma “falha moral catastrófica” na distribuição dos imunizantes.

Essas forças políticas configuram parte do complexo quadro do atual momento de enfrentamento à pandemia, e que já dava as caras no segundo semestre de 2020. Com mais de 5 mil municípios e 200 milhões de habitantes, o Brasil enfrenta ainda o desafio de equidade no fornecimento das poucas doses disponíveis. Embora não exista um levantamento consolidado e atualizado do total de pessoas no grupo prioritário, estima-se que as vacinas atendem cerca de 35% dos  profissionais de saúde no país. Com relação a indígenas e quilombolas, estima-se que esses grupos também não poderão ser imunizados na sua totalidade no atual momento. A marginalidade das ações de vacinação, no entanto, não retiram a simbologia deste ato e a tentativa de proteger aqueles(as) mais vulneráveis ao vírus.

O retrato que vimos em São Paulo, com a primeira aplicação da vacina no país realizada em Mônica Calazans, enfermeira, mulher negra, com comorbidades, morada da Zona Leste da cidade e trabalhadora do Hospital das Clínicas, se repetiu nas outras capitais brasileiras ao longo dos últimos dias. Esta estratégia simbólica lança luz sobre um longo debate do ano de 2020: a necessidade de valorização e proteção dos(as) profissionais de saúde da linha de frente do Sistema Único de Saúde, maioria mulheres e negras. Inclusive,

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à recursos na linha de frente são exacerbadas por marcadores sociais da diferença como raça, gênero, escolaridade e ocupação profissional dentro da área da saúde. No total, das 27 capitais, apenas Palmas, Cuiabá e Boa Vista ainda não realizaram o ato da primeira vacinação. Nas demais 24 cidades, observamos que as profissionais de saúde mulheres foram as protagonistas (somando 17, isto é 70%), em especial as enfermeiras e técnicas de enfermagem. Ainda, as mulheres não-brancas, isto é, negras e indígenas, representam dez das primeiras vacinadas. A escolha por tais personas é uma vitória a ser comemorada em termos de representatividade destas trabalhadoras do SUS e também da população brasileira. Para nós cidadãos e cidadãs, a mensagem e a memória que ficam é de que estamos buscando proteger essas profissionais. Como Mônica pontuou no último domingo em seu discurso, “eu sou uma brasileira comum, mulher, negra, da ZL (…) mas estou fazendo parte da História dessa vez”. Este ato simbólico é também uma ação pela memória, para driblarmos os apagamentos e esquecimentos, e lembrarmos, hoje e amanhã, dessas agentes históricas, sujeitos ativos do nosso tempo presente.

Em Manaus, por exemplo, onde os equipamentos de saúde têm enfrentado uma crítica escassez de oxigênio nos últimos dias, a primeira vacinada foi Wanda Ortega, de 33 anos, enfermeira indígena da etnia Witoto. Já em Macapá, no dia 19 de janeiro, a protagonista foi a enfermeira Kátia Regina Marinho, de 55 anos, seguida do indígena Demétrio Amisio de 36 anos, também enfermeiro. Ainda no Norte do país, em Belém assistimos à vacinação da enfermeira Shirley Cuimar Cruz  enquanto em Porto Velho foi a vez de Fátima Leitão de Souza, de 54 anos, mulher negra e auxiliar de enfermagem. No Nordeste, Maceió experienciou um momento de muita emoção com a chegada do carregamento das doses de vacina, e a posição de destaque foi ocupada pela assistente social Marta Antonia de Lima, mulher negra, assistente social e trabalhadora do Hospital da Mulher. Em Salvador, uma enfermeira negra, Maria Angélica de Carvalho Sobrinho, também foi a primeira a ser vacinada na cidade.

O ato simbólico da primeira vacinação não deixa de ser combustível para nossas esperanças e também retrato de uma vitória científica, na figura daquelas que estiveram continuamente expostas, muitas vezes em condições precárias e inseguras, no combate à pandemia. No entanto, as arquiteturas da simbologia podem servir de escape para problemáticas de dimensões materiais e, portanto, desviar nosso olhar do iceberg encoberto pelo mar: as doses das vacinas não só são insuficientes para o grupo prioritário, como também foram desigualmente distribuídas no território nacional. Em redes sociais e grupos entre profissionais de saúde da linha de frente, principalmente de municípios pequenos, já existem narrativas de carregamentos ínfimos, que não dão conta sequer de vacinar uma equipe de Saúde da Família, por exemplo. Como sabemos pela história, em contextos de escassez de recursos, os mais vulneráveis acabam sempre perdendo e o ciclo vicioso das desigualdades apenas se amplia.

Nesse momento, que a sociedade terá que enfrentar o problema de escassez das vacinas e de seus insumos, é importante que tenhamos presente a necessidade de proteger os mais vulneráveis. Na disputa entre desiguais, há um grande risco de rapidamente cair no esquecimento os perfis prioritários para o recebimento da vacina em momentos de escassa oferta. Relatos dos últimos dias já apontam que membros das elites locais têm “furado a fila” para receber a vacina antes da hora. É importante ter em mente que, embora o simbolismo das primeiras vacinadas seja forte e essencial, ele não neutraliza as desigualdades e relações de poder que permeiam a sociedade permanentemente. Que consigamos, portanto, garantir que mais Monicas, Wandas, Katias e Shirleys, sejam as primeiras da fila!

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