O impacto das eleições nas polícias brasileiras

O impacto das eleições nas polícias brasileiras

REDAÇÃO

08 Outubro 2018 | 10h02

Rafael Alcadipani, Professor Adjunto da EAESP-FGV, External Fellow no Cardiff Crime & Security Research Institute – Cardiff University e associado pleno ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ph.D pela Manchester Business School.

 

As eleições do primeiro turno trouxeram uma expressiva renovação da política brasileira. Figuras tradicionalíssimas dos partidos foram trocadas por muitas caras novas. O eleitor mandou um claro recado nas urnas: ele está farto com a forma de se fazer política no Brasil e quer mudanças.  Houve um número expressivo de policiais e/ou militares participando destas eleições tanto para cargos proporcionais quanto para cargos majoritários. Boa parte dos policiais eleitos defendem de forma clara ou subliminar a ideia de que “bandido bom é bandido morto”.

A presença de tantos membros das forças de segurança em uma eleição conseguindo ser eleitos é evento raro nas democracias do mundo. Isso denota um grande desejo dos eleitores para que nossos gravíssimos problemas de segurança pública sejam resolvidos. De fato, já passou da hora. Nossos números a respeito da criminalidade são completa e totalmente inaceitáveis. A força do crime organizado, as altas taxas de violência contra a mulher, a prevalência de crimes contra o patrimônio são graves problemas do país. Temos, ainda, outros graves problemas na área: nossos policiais possuem condições de trabalho que deixam muito a desejar e parte expressiva deles estão vivendo em situação de vulnerabilidade e vitimização. Policiais precisam realizar bicos para sobreviver, são vítimas de criminosos fora e dentro de serviço e também há um elevadíssimo índice de suicídio dentro das forças policiais. Trabalham sob constante pressão e recebem salários baixos diante de suas obrigações.

Por outro lado, nossas polícias são bastante letais para padrões internacionais e precisam melhorar o seu atendimento à população para que consigam uma maior confiança – elemento central para que crimes sejam esclarecidos e evitados. Há ainda em alguns setores sérios problemas de corrupção que precisam ser encarados de frente. As “bandas podres” são uma realidade em algumas instituições policiais.

Se por um lado a eleição de tantos policiais sinaliza para a possibilidade de que as pautas de melhoria das condições de trabalho destes profissionais sejam levadas a diante e haja uma melhoria real em suas precárias condições de trabalho – algo que é urgente e muito bem vindo. Por outro lado há riscos que não podem ser menosprezados. Polícias são organizações complexas que possuem vários tipos de pensamento. No caso das PMs, em especial, há subculturas que valorizam o confronto e a caçada de criminosos, além de menosprezarem o público LGBT. Foi exatamente esta subcultura que recebeu mais votos. O poder de tantos parlamentares pode levar a que seja reforçado em nossas forças policiais o seu lado mais truculento e violento – que muitas vezes é controlado por comandantes e chefes de polícia. A vitória de tantos policiais “linha dura” passa para a sociedade a imagem de que nossas polícias serão mais truculentas e letais. Este lado não apenas afeta a sociedade que passa a lidar com uma polícia mais distante, que gera medo e que ela nota que não pode confiar, mas também as policiais internamente que podem ter um acirramento maior de sua disciplina e do fechamento para formas diferentes de pensar a sua gestão. Se isso acontecer, haverá um retrocesso expressivo em inúmeras organizações policiais que podem nos colocar no passado da colaboração destas instituições com o arbítrio do Estado militar. As pessoas desejam a truculência policial desde que ela não atinja as pessoas que são dela próximas. Outro problema correlato é que a presença de policias políticos faz com que as instituições policiais estejam próximas a política partidária e em um momento de acirramento ideológico as forças de segurança sejam vistas como braços de uma ideologia política específica. Além disso, policiais políticos tendem a querer interferir na gestão das polícias tentando benesses para seus apadrinhados e afiliados dentro da instituição e também defendem pautas corporativistas que podem ser ruins para a sociedade e evitar um enfrentamento de problemas internos das forças policiais.

A evolução de nossas polícias passa pela melhoria das condições de remuneração e de trabalho dos policiais e também por uma blindagem contra a política partidária. Chefes de polícia precisam ter mandatos fixos, com metas claras de atuação e a ocupação dos cargos de chefia dentro das polícias precisa obedecer a critérios fundamentalmente técnicos. A construção de polícias técnicas, profissionais, isentas de pressões político-partidárias e que preserva a vida é o único caminho para a melhoria da nossa caótica situação na segurança pública. O flerte com o retorno de uma polícia truculenta não irá resolver nenhum de nossos problemas. Se matar e bater resolvesse, o Brasil seria o país mais seguro do mundo. É fundamental que a sociedade de as mãos para os policiais que são técnicos, profissionais e que enxergam as polícias como atores sociais que protegem direitos de todos.