O imbróglio político Gustavo Bebianno

O imbróglio político Gustavo Bebianno

Marco Antonio Carvalho Teixeira

16 de fevereiro de 2019 | 21h35

Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor do Departamento de Gestão Pública da FGVSP.

 

Ex-presidente nacional do PSL e um dos homens fortes da campanha de Jair Bolsonaro, Gustavo Bebianno tornou-se o epicentro de uma crise política no bolsonarismo após ter sido chamado publicamente de mentiroso por Carlos Bolsonaro pelo Twitter, ação que em seguida foi aprovada pelo pai-presidente quando este acabou compartilhando a postagem. Poderia ter sido demitido rapidamente, antes mesmo de Bolsonaro sair do hospital, mas acabou sendo mantido.

 

Com a definição da demissão adiada de um dia para o outro, criou-se uma aresta com militares, com o Congresso, e dividiu-se o próprio PSL – partido do presidente. Bolsonaro foi quem amplificou ainda mais a crise ao compartilhar a mensagem do filho e criar constrangimento no seu partido e na sua base de apoio. Se a ação tivesse ficado restrita a Carlos Bolsonaro, a repercussão teria sido menor.

 

Frente a isso, o que explicaria o fato de militares e o presidente da câmara dos deputados Rodrigo Maia defenderem publicamente a permanência de Bebianno no governo, mesmo estando ele envolvido em suspeitas de repasse irregular de recursos do Fundo Partidário? Talvez o fato de parcela do bolsonarismo temer que sua eventual saída aumentasse ainda mais o poder dos filhos de Bolsonaro sobre o governo, algo que tem causado um profundo mal-estar nos aliados. Pelo menos é isso que o xadrez político em torno desse imbróglio tem demonstrado.

 

Ao se procurar uma saída para a crise, percebeu-se a inexistência de uma boa opção. O governo perderia mantendo ou demitindo, o estrago estava feito e ele partiu das entranhas, do núcleo de poder familiar. Bebianno exercia cargo situado no gabinete da Presidência, da estrita confiança do Presidente e cuja função era liderar um conjunto de articulações que são estratégicas para a governabilidade. Como mantê-lo, se Bolsonaro demonstrou não confiar mais no ministro, e o próprio ministro já demonstrava não confiar mais no Presidente? Ao que parece, Bebianno terá sua demissão confirmada na segunda-feira (18/02). Se esse realmente for o caminho, a dúvida tem a ver com os vários recuos já feitos pelo governo, a família sairá fortalecida e a base de apoio ao governo pode ficar estilhaçada, o que pode, inclusive, contaminar o debate sobre a reforma da previdência.

Todavia, não havia outra decisão a ser tomada, a demissão era inevitável, o que se tentava era ganhar tempo para diminuir o potencial de dano. Se Bebianno aceitasse um novo cargo como prêmio de consolação, a imagem pública do governo sairia ainda mais arranhada. Uma outra pergunta certamente seguiria: se o presidente não confia mais nele por que lhe deu outro cargo?

Resta saber se daqui para frente Bolsonaro conseguirá controlar os filhos. Enquanto isso, o ministro do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio (PSL-MG), envolvido também envolvido em episódio semelhante ao de Bebianno, permanece no cargo sem causar o mesmo incômodo.

 

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