O homem que negava a realidade

O homem que negava a realidade

REDAÇÃO

16 de abril de 2020 | 19h30

José Antonio Gomes de Pinho, professor Titular Aposentado Escola de Administração UFBA e Pesquisador FGV-EAESP.

Os líderes mundiais, independentes de seus partidos políticos, ao falarem do grande mal apresentam uma expressão grave e séria. Mas tem um, exceção mundial, que continua rindo, rindo, como se estivesse, não em uma operação de enfrentamento desse mal, mas em um programa humorístico, sem graça, porém. Ao se comportar dessa maneira tem atraído críticas tanto internas como no plano internacional, tornando-se objeto, inclusive, de chacota. Ao ignorar o mal que se coloca avassaladoramente troça com este, minimizando sua importância aos risos, o que causa perplexidade interna e externamente.

Apesar de ser “líder”de uma grande Nação, e ter esse comportamento destoante, felizmente tem uma equipe competente com um líder igualmente em condições de enfrentar o grande mal, dar diretrizes sóbrias e com fundamentação científica. Porém, no seu sentimento de andar na contramão do mundo e do conhecimento acumulado por séculos e séculos, acabou colocando pedras no caminho dessa equipe e líder.

Quando o grande mal se manifestou, esse homem logo tratou de minimizar sua importância tachando-o de “pequeno mal”. Mais ainda, que bastava ter um perfil de atleta, o que supunha ter, e que esse pequeno mal seria facilmente derrubado. Para ele, a realidade que se mostrava cristalina para quase todos, para ele era outra bem diferente.

Assim, quem e quais instituições poderiam resistir ao homem que queria enganar a realidade? Acreditava em si e que teria Deus ao seu lado. Este portfólio todo levava-o a se achar um predestinado, com uma teleologia messiânica para salvar o País, aí, sim, no seu entender, de um outro grande mal que visualizava desde a juventude, um vírus ideológico, ainda que com o sacrifício de valores e ideais democráticos.

Alguém poderia perguntar-se: mas quando este homem começou a dar todos esses sinais? Até onde se sabe, já foi na idade adulta. Com registros mais sólidos e publicamente conhecidos, identificam-se nos dois ofícios anteriores ao presente, onde já mostrava sua natureza explosiva, agressiva, e até paranóica. E, pelo que se observa, isso veio em um crescendo. No primeiro, seus superiores encontraram um jeito de afastá-lo, ainda que em idade precoce. No segundo, ficou nas sombras, defendendo causas e interesses de seu segmento de apoio, distante de se engajar em causas mais abrangentes de interesse da sociedade. Quando atraía os holofotes, era por conta de alguma declaração ou postura sensacionalista, o que acabou o credenciando a um voo mais alto, à presidência. Para isso, adotou uma retórica supostamente mais sofisticada, dizendo-se ser o candidato antissistema, parecendo não perceber que condenar um sistema implicaria em colocar outro no lugar. Mas, nem para o bem ou para o mal, não definia exatamente o que seria esse porvir, deixando margens elásticas de ambiguidade.

Já investido no cargo mais alto da Nação, prenhe de elevadas responsabilidades, esses traços de personalidade, dos quais é portador, são absolutamente indesejáveis. E, assim, além das vozes destoantes desde o início disso tudo, foram se levantando outras vozes alertando que o “líder” estava nu, negando a realidade evidente de enfrentamento do grande mal. Gritavam contra ele, muitos homens e mulheres de jaleco, gente de gravata, gente de diploma e sem diploma, velhos e jovens, todos os sexos, gente de oratória, representantes do povo.

É de se notar que antigos aliados do homem que negava a realidade acordaram para os fatos, que se impunham a quem tivesse os olhos abertos. Romperam com ele, não convergindo mais com seus ideais e métodos. A esses, respondia com ataques, desprezo, ironia, tachando a todos de traidores. Em nenhum momento parou para refletir se os que o deixaram não teriam razão, mantendo-se fiel à sua própria realidade, alimentada por um círculo restrito de familiares e “gurus”.

Contra todas as evidências, mostra-se destemperado e ameaçador, e mesmo assim, mantém ao seu lado um rebanho de devotos. Ainda que o grande mal não tenha se mostrado em sua plenitude, esse homem se mantém desafiando as mais óbvias manifestações da realidade, afirmando, sem qualquer base científica, que o perigo maior já passou, propondo a desativação do sistema de enfrentamento da doença, constituindo-se em um perigo à saúde pública. Talvez mais que isso, à inteligência.

O seu entorno ainda se mantém fiel, quer seja por aderência ao pensamento do chefe, quer por oportunismo ou mediocridade. Refletindo sobre este quadro, cabe perguntar que “stakeholders” de peso ainda o sustentarão e por quanto tempo.

(A continuar).

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