O homem que não dispensa adjetivos

REDAÇÃO

29 de janeiro de 2021 | 10h54

José Antonio Gomes de Pinho – Professor Titular Aposentado- Escola de Administração UFBA e pesquisador da FGV-EAESP.

 

Carlos Galhardo, um dos grandes cantores da música brasileira nos anos 1940/50 era conhecido como “o cantor que dispensa adjetivos”. Tal era sua qualidade e o reconhecimento de suas virtudes pelo público, que não havia mais como atribuir adjetivos ao artista. Saltando para um outro extremo podemos dizer que o mesmo não se aplica ao presidente Jair Bolsonaro. Não é que se esgotaram os adjetivos para qualificar seus méritos, mas, exatamente o contrário, porque não são adjetivos engrandecedores que podem ser destinados ao ocupante da Presidência, restando ainda adjetivos negativos para caracterizá-lo.

Os primeiros adjetivos públicos atribuídos a Jair Bolsonaro são aqueles que constam do Inquérito que levou a sua saída do Exército em 1988, onde foi caracterizado no julgamento pela corte militar como extremamente ambicioso e desejoso de ganhar dinheiro. Não que isso desqualifique qualquer pessoa, mas se torna necessário ver de que forma este objetivo é alcançado. Pouco tempo depois, em 1993, já deputado federal, o General Geisel impingiu-lhe o rótulo de ser “um mau militar” e que ele não seria um caso normal. Convém notar que o General Geisel não se refere a ele por conta de sua atividade como deputado, já que era o início de seu primeiro mandato, mas como militar.

A partir de 2010 ficou mais conhecido do público por sua participação em programas de auditório de cunho popularesco, pois como membro do legislativo tinha desempenho medíocre, obscuro. No episódio da votação do impeachment da Presidente Dilma, agosto de 2016, ganhou notoriedade ao exaltar um torturador dos anos de chumbo, revelando ser este o seu herói. Apesar disto, ou por causa disso, se elegeu presidente em novembro de 2018.

Evidentemente no cargo de Presidente a exposição seria muito maior e o mandatário não se escusou de aparecer onde podia aparecer.  Seu estilo rocambolesco e seus constantes embates e suas ações no sentido de desqualificar oponentes ou simples interlocutores lhe renderam alguns epítetos tais como: misógino, autoritário, preconceituoso, agressivo, intolerante, violento, entre outros. No exercício da presidência logo se notou o seu despreparo para o cargo, sua incompetência e inapetência pela gestão, fugindo das responsabilidades como se não tivesse nada a ver com isso, o que lhe granjeou outro conjunto de qualificativos negativos. Em vez de exercer o mandato colocou-se absurdamente em campanha ainda no primeiro ano deste, para uma eleição distante, o que parece ser o que gosta de fazer.

No plano político e ético ao praticar ataques contra as instituições da democracia revelou-se um cultor de regimes de exceção, ataques estes que não prosperaram por conta da reação e resistência destas instituições e da opinião pública. Mesmo assim conseguiu lograr êxito em ações que visam preservar a si próprio e sua prole, mexendo seletivamente em instituições de controle. Paralelo a isso, cerca-se de uma vasta entourage, principalmente de militares da reserva, que, aparentemente lhe dão sustentação. Os comportamentos nesses ataques lhe renderam outros adjetivos de desqualificação, tais como, delirante, paranoico, golpista, autoritário, neofascista.

Na verdade, ninguém pode argumentar que não se sabia como ele era. Um candidato que na campanha eleitoral pega uma criança no colo e rindo, como sempre, faz o sinal de arma e tiro com as mãozinhas desta dá para imaginar que tipo de ser humano seja. Mas foi ao longo de 2020 e do presente ano, no turbilhão da pandemia do Covid 19 que o presidente pode exibir suas credenciais na plenitude, fazendo declarações que mostram insensibilidade total com a morte, fazendo até escárnio desta, e fugindo as responsabilidades que se exige do mandatário mor da Nação. Tripudiou com o vírus, atacou países, atacou governadores, especialmente o de São Paulo, pelo protagonismo que este assumiu e, nessas últimas semanas vendo que a vacina era irreversível, ainda mais depois do parecer da ANVISA e da condenação de tratamentos precoces, mudou o discurso dizendo que a vacina é do Brasil. Essa estratégia lhe é peculiar, negar o que foi dito e praticado anteriormente, uma desfaçatez (outro adjetivo) sem tamanho.

Não querendo alongar a lista dos adjetivos negativos, o que tomaria muito espaço, e tentando olhar à frente, duas posições se colocam no cenário político. Pelo lado do Presidente e das forças que o apoiam, a aposta está focada na eleição do presidente da Câmara, tendo escolhido um candidato raiz do Centrão, cabendo lembrar que a fidelidade desse agrupamento é puramente pragmática e pecuniária. Quando percebem que o investimento feito não está dando retorno ou não na expectativa inicial, abandonam o aliado. A outra posição reside no campo legal, institucional com o governo procurando arrombar a porta da casa da democracia, implantando um Estado de Defesa, já sinalizado, aliás. A crise social e econômica já presente, deve se agravar no contexto do recrudescimento da pandemia, resultado da omissão e inércia proposital do próprio Presidente e das forças que o circundam. A aposta governista parece se situar em uma crise gigantesca, com raiz agora na postergação da vacinação, havendo, assim, a apelação para o Estado de Defesa.

Pelo lado do que se chamaria Oposição, que não se resume a partidos políticos, mas incluindo parte da opinião pública, parte da mídia e organizações da sociedade civil, a aposta tem sido direcionada para o impeachment do Presidente. Ainda que as condições humanitárias estejam mais do que presentes, quase 220 mil mortes, e com tendência de elevação, as condições políticas ainda não estão consolidadas. O processo ainda está em marcha, e só terá condições efetivas de acontecer quando o Centrão se retirar, constatada a inviabilidade política e econômica das forças governistas. Se o Congresso é um ator estratégico, outro ator é a instituição FFAA. Como se posicionarão frente a um governo mergulhado nessas condições? Seremos uma república das vacinas (Butantan, Fiocruz, Universidades públicas e privadas de qualidade, centros de pesquisa) ou uma república de bananas?

No perfil do governo Bolsonaro ainda cabe outra característica. Como já tirou os Ministros Mandetta e Moro, agora centra fogo, no Governador Dória porque objetiva retirar do seu caminho qualquer um que represente ameaça ao seu projeto de reeleição. Parece que seu lema de governo merece um acréscimo: “a reeleição acima de tudo”. E voltando aos pareceres militares exarados muito mais dessa triste proeminência do Presidente, constatava-se uma ambição desenfreada, a busca de uma situação financeira confortável, o que agora obtém confirmação. Mas o veredicto mais contundente foi dado, como dito, pelo General Geisel, afirmando que Jair Bolsonaro não era um caso normal. Um senhor portador de todos esses atributos está sentado na cadeira da Presidência tomando decisões para esta Nação atordoada. Sua ambição e realização de seus projetos não têm limites.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.