O governo que não precisa de oposição

O governo que não precisa de oposição

REDAÇÃO

24 de abril de 2020 | 16h56

Alketa Peci, é professora da FGV EBAPE.

Toda a pesquisa sobre a gestão da crise aponta para a importância de dois fatores chaves: a liderança unificada e a coordenação. Os dois meses e meios de gestão da pandemia no Brasil romperam com qualquer evidência cientifica consolidada e impuseram uma dinâmica própria, cujas consequências vão se prolongar além da pandemia.

Neste curto período de tempo, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu acabar com qualquer possibilidade de liderança na crise, recorrendo a uma estratégia inédita, talvez no mundo: agir como oposição do governo por ele mesmo liderado. No meio da pandemia, o presidente recorreu a uma retorica destoante da principal liderança do governo mobilizada no combate à pandemia: o Ministro de Saúde, Mandetta. Ignorando o trabalho do ministro que literalmente vestiu a camisa do SUS, compreendendo as vantagens do sistema coordenativo da saúde já existente, o demitiu, no auge da sua popularidade. Não satisfeito com a demissão do seu ministro e a sua substituição por quem lhe prometeu um discurso alinhado, radicalizou a prática negacionista da pandemia, participando de eventos e manifestações pouco republicanas. Num novo capítulo da telenovela que acompanhamos no meio da maior pandemia mundial, o Ministro da Justiça, Sergio Moro, um dos ministros com maior capital político dentro do governo, acaba de pedir demissão insinuando possíveis crimes de responsabilidade.

Nenhuma ação da oposição, por mais coordenada que fosse, teria gerado mais estragos na liderança da crise de que a ação do presidente. Todos os capítulos da telenovela se desenrolam no meio à defesa da cloroquina como remédio milagroso do Covid-19, do ataque das relações com a China, de atrasos na entrega dos recursos da Renda Básica Emergencial, e da defesa do fim de isolamento social, sem que nenhuma ação concreta de combate à pandemia ganhe musculatura.

A falta de liderança na gestão da crise, sistematicamente minada pelo próprio Presidente da República, anula a vantagem que o Brasil tinha na gestão da crise do Covid-19 comparativamente a países como os Estados Unidos. Seus arranjos coordenativos federativos, ao exemplo do Sistema Único de Saúde e seus subsistemas intergovernamentais, como os de vigilância sanitária serviram como escudo aos primeiros impactos da pandemia. O impacto da liderança nos sistemas de coordenação ainda precisa ser estimado, mas dados iniciais de pesquisa indicam que são profundos. Seus sintomas já se manifestam nos indicadores da judicialização federativa em curso, que já ganharam manchetes internacionais, mas também no amadorismo de qualquer instancia coordenativa da gestão da crise que busca se estabelecer no nível federal. Enquanto isto, a crise, que se sente com mais forca em nível local, cobra vidas. Ações locais tendem a se desarticular, e perdem a vantagem advinda da coordenação. A gestão da pandemia nos trópicos vai ainda nos ensinar muito sobre falhas de liderança e coordenação.

 

 

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