O Governo-Movimento

O Governo-Movimento

REDAÇÃO

12 de junho de 2020 | 13h18

Cláudio Gonçalves Couto, Cientista Político, professor adjunto da FGV EAESP, pesquisador do CEPESP e do CNPq, Coordenador do Mestrado Profissional em Gestão e Políticas Públicas (MPGPP).

 

A cada nova declaração ultrajante ou simplesmente absurda do presidente Jair Bolsonaro, há quem a interprete como uma nova cortina de fumaça, visando camuflar as reais maldades que o governo perpetra noutras frentes. Segundo tal raciocínio, as polêmicas desgastantes promovidas nas lives de quinta-feira, no cercadinho do Palácio da Alvorada, ou em qualquer outro contexto menos rotineiro, teriam como condão distrair o público de coisas “realmente importantes” – como, por exemplo, a reforma previdenciária, ou os acordos com o Centrão.

Segundo essa narrativa, o último episódio a merecer uma cortina de fumaça teria sido a nomeação do genro de Silvio Santos, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN) para o recriado Ministério das Comunicações, selando um acordo com o PSD de Gilberto Kassab (partido do Centrão) e, ao mesmo tempo, pavimentando um melhor relacionamento do governo com os setores de mídia – seja a chapa-branca, como do sogro, seja de um modo geral. Afinal, além da credencial de parente de Sílvio Santos (como o próprio Bolsonaro reconheceu no cercadinho do Alvorada), a família paterna do deputado é proprietária de estações de rádio no Agreste.

A cortina de fumaça da vez seria a iniciativa presidencial de insuflar bolsonaristas a dar um jeito de invadir hospitais públicos e de campanha para fiscalizá-los, filmando leitos vazios e encaminhando a ele as denúncias. Imagine-se os prejuízos humanos e materiais que tais ações podem causar em lugares onde há doentes graves, equipamentos caros indispensáveis e profissionais de saúde estafados.

A advogada Gabriela Prioli, por exemplo, postou no Twitter a seguinte mensagem: “Eu sei que o presidente quer que a gente comente mais uma atrocidade que ele disse numa live, mas o que eu vou ressaltar é a recriação do Ministério das Comunicações com a indicação de um deputado do PSD que é genro do dono de uma emissora de televisão que apoia o governo.”

O que ela sugere é que a nova atrocidade presidencial seria, portanto, mais uma ação diversionista, embora o necessário nessas horas seja tratar do que realmente importa e não cair na arapuca presidencial. Será mesmo?

A teoria da cortina de fumaça é apontada por muita gente inteligente, como Prioli, desde o início do governo. Contudo, não me parece convincente. Primeiro, porque proclamar absurdos sempre foi o modus operandi bolsonaresco, desde que o capitão defenestrado do Exército entrou na política profissional, primeiro se elegendo vereador e, depois, deputado federal por sete mandatos.

Durante todo esse período, não havia o que encobrir com cortinas de fumaça, já que a atuação de Jair Bolsonaro era puramente parlamentar. E, como parlamentar, Bolsonaro parlava profusamente, proferindo seguidas declarações ultrajantes e antidemocráticas, no máximo que fosse possível. Portanto, desde o começo de sua existência, o ultraje é o que o bolsonarismo entregou a seu público.

Foi assim, repetindo publicamente os ultrajes, dizendo desabridamente o que ninguém tem coragem de dizer – de tão abjeto – que se construiu o “mito”. Para a súcia que lhe admira ou mesmo venera, sedenta por um discurso ultrajante, isso é um maná. Em tempos nos quais o politicamente incorreto virou moda, extremismo ganhou espaço e a boçalidade foi glamorizada, figuras como Bolsonaro, Chávez, Duterte e Trump crescem, pois aparecem como autênticos, sem filtro – ainda que sejam também, em certa medida, personagens farsescos e, portanto, fabricações.

O ponto central é o seguinte: mobilizar incessantemente a turba é a finalidade principal desse governo-movimento. As políticas públicas, como tais, importam pouco.

Autodestrutivo como governo, funciona como movimento. Como políticas públicas efetivas importam menos, ter um bufão despreparado como Abraham Weintraub na Educação é perfeito. Sua incompetência é irrelevante num governo-movimento como esse, pois ele cumpre a tarefa que lhe cabe: guerrear contra inimigos reais e imaginários. Como o próprio ministro da Educação reconheceu, na malfadada reunião filmada de 22 de abril, ele é um militante bolsonarista. Ora, militantes não precisam se importar em entregar resultados de governo; eles precisam é se bater por suas convicções, manter acesa a chama de sua paixão e batalhar por seu movimento – com ou sem causa claramente definida.

O mesmo ocorre noutras áreas. Na Saúde, o pragmatismo de Luiz Henrique Mandetta não servia, pois não produzia narrativa útil ao Bolsonarismo. A efetividade da política pública não importava. E nem se trata de considerar Mandetta um bom ministro da saúde – que ele nunca foi –, mas reconhecer que fazia o básico dentro do que se pode esperar de um gestor público normal, ainda que medíocre. O ex-ministro não foi para a guerra ideológica, não defendeu a narrativa presidencial, nem ao próprio presidente – o que seria o mais importante, como Bolsonaro explicitou aos palavrões naquela mesma reunião de abril.

Já o proselitismo da cloroquina, a despeito do que demonstrem os estudos científicos, propicia uma narrativa política eficaz, pouco importando sua ineficácia clínica que, aliás, vira trunfo. E por que vira?

Como é racionalmente absurdo um governo prescrever cloroquina (ou qualquer medicamento) sem evidências de que não apenas faça bem, mas que não faça mal, os médicos, a comunidade científica e a imprensa – corretamente – criticam o presidente. Assim, o governo ganha o que procura: inimigos contra os quais se bater, o que lhe dá uma narrativa. Pouco importa a implausibilidade dessa narrativa, pois ela convence quem não busca argumentos plausíveis, mas bandeiras que mobilizem.

Ou seja, não se trata de razão, mas de fé e paixão. Trata-se, portanto, de irrazão. O irrazoável, o irracional é o que mobiliza a turba. Podem ser só 20% dos brasileiros ou ainda menos (o Datafolha estima em 12%) os que seguem firmes no transe. Contudo, quanto mais alucinado o transe, melhor, pois o movimento ganha força quanto mais irracional for.

Assim, não há o que esconder com cortina de fumaça. A irrazoabilidade, sendo eficaz para mobilizar, é a parte principal da ação do governo-movimento. O acordo com o Centrão é um mero instrumento para resguardar esse governo do controle congressual – quiçá, de um impeachment. Sendo a construção de uma base no legislativo algo secundário, ela pôde, por isso mesmo, esperar um ano e meio de mandato presidencial para se gestar. O próprio caos político provocado pelas turras com o Congresso favoreceu a narrativa irrazoável do governo-movimento contra o establishment, contra tudo e contra todos.

No processo mais recente, em meio ao caos da sabotagem governamental ao combate à pandemia, muito contribuiu o subserviente e cordato general Eduardo Pazuello, tornado ministro da Saúde interino por prazo indeterminado. Contra as evidências científicas, topou sacramentar o protocolo da cloroquina. Assim, atendeu mais às necessidades do governo-movimento do que qualquer ministro normal faria. Deu roupagem militar à irracionalidade olavista que já prosperava na Educação, nas Relações Exteriores e na Cultura. Deu a um medicamento o tratamento místico que também lhe conferira a ministra Damares Alves, mulher de fé, segundo quem a cloroquina operou milagres no Piauí.

Nesse contexto, Ricardo Salles, o devastador ministro do Meio-Ambiente, cumpre uma dupla função. Isso porque sua atuação contra o “climatismo” e o “globalismo” ambientalistas se presta tanto à narrativa irracional que mobiliza a turba, como ao ganho econômico imediato de uma base interessada na desregulamentação geral, na falta de fiscalização, no desmate desenfreado. Salles une o útil e o agradável no mesmo processo – daí ser outro ministro forte.

Assim, também é útil a destruição do que levou décadas para ser construído na Educação, na Cultura, nas Relações Exteriores, no Meio-Ambiente, na Ciência e noutras áreas. Útil porque serve de combustível para essa guerra simbólica e prática, contra os que produzem ideias e valores dissonantes, ou que revelam dados incômodos. Esse é o real objetivo, não a cortina de fumaça.

Nesse sentido, real cortina de fumaça são as políticas efetivas agradáveis a setores poderosos simpáticos ao bolsonarismo; não só o meio ambiente, agradando a garimpeiros ilegais, a grileiros e ao agronegócio predatório, mas também na área econômica, apetecendo aos setores de mercado (em especial financeiro) que acreditam que todo o resto não importa, desde que o governo seja – única e exclusivamente – economicamente liberal. A cortina de fumaça são estas políticas de agrado, não o contrário.

O mesmo vale no combate à corrupção, que apaixona tantos que, ainda hoje, defendem sua escolha eleitoral alegando que do outro lado estava a opção pela roubalheira. Nova cortina de fumaça, como os menos teimosos ou ingênuos já puderam perceber ao observar um presidente que favorece sua família, interfere nos órgãos de controle, quer manipular a polícia, abusa do cartão corporativo, desperdiça em propaganda, financia sites de fake news e, last but not least (suprema ironia), negocia cargos com o Centrão.

A questão é que, como já foi apontado, um governo-movimento como esse é autodestrutivo. E o é porque produz um grande desastre que é, em parte, seu objetivo, em parte, a consequência de sua estratégia. Os que acreditaram na cortina de fumaça real das políticas “conservadoras”, “pró-desenvolvimento” e “republicanas” terão pouco a ganhar num cenário de terra arrasada. Não haverá república, nem desenvolvimento, nem nada a conservar.

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