O governo Dilma, a carta de Temer e as incertezas políticas

O governo Dilma, a carta de Temer e as incertezas políticas

REDAÇÃO

08 de dezembro de 2015 | 10h53

Marco Antonio Carvalho Teixeira, é professor de Ciência Política no curso de Administração Pública da EAESP/FGV.

 

A carta de Michel Temer, além de relevar aquilo que já se sabia acerca de sua relação com o governo, explicita problemas da política brasileira que ajudam a entender parcialmente o imbróglio da crise atual. Para alguns, ela expressa publicamente a mágoa do vice-presidente com o tratamento que lhe foi dispensado ao longo de cinco anos, o que pode ser verificado no relato acerca da saída de aliados do governo sem que ele pudesse interferir, e em relação ao fato de afirmar ter sido importante apenas em momentos de crise e ignorado em decisões governamentais estratégicas. Para outros, é apenas uma forma de ele se colocar como alternativa viável num possível governo de transição pós-impeachment com o apoio da oposição e de setores empresariais.

Todavia, a silenciosa carta de Michel Temer também significa um ruidoso rompimento político sem a necessidade de entrevista coletiva e de claques, mas com uma enorme capacidade de instabilizar ainda mais o quadro político e cujo prejuízo maior pode recair sobre o próprio governo, que nesse momento é tido como o principal suspeito de ter vazado o conteúdo.

Entretanto, se o vazamento foi cometido por agentes do governo, esse será apenas mais um dos sucessivos erros cometidos pela articulação política da presidente da República que tem demonstrado inabilidade na construção e manutenção de acordos, o que tem tido efeitos perversos para a estabilidade política. Alguns exemplos são ilustrativos.

O primeiro ocorreu logo no início do mandato anterior da presidente e refere-se a um momento que ficou conhecido como “faxina da Dilma”. Em 2011, após um conjunto de escândalos de corrupção, a presidente demitiu ministros e servidores indicados por partidos aliados e ganhou rapidamente popularidade pública. Todavia, tais demissões foram feitas à revelia de negociações prévias com os partidos que a apoiava, o que logo teve efeito negativo sobre a aprovação de interesses do governo no Congresso. O próprio PT chegou a publicar um documento alertando para a “criminalização generalizada da base aliada”. Com a falta de apoio político, que sequer foi buscado no momento certo, Dilma abandonou a faxina e aos poucos foi recompondo sua base de apoio reintegrando partidos que tiveram membros envolvidos em escândalos. Se a presidente acertou na intenção de fazer uma limpeza no governo, ela errou ao não fazer articulação política prévia para sustentar suas decisões.

O segundo deu-se ao longo de sua campanha à reeleição. Antes das manifestações de junho de 2013 a expectativa era que Dilma fosse reconduzida ao cargo sem maiores riscos. A boa avaliação do governo, até então, fez com que seu núcleo de articulação política negligenciasse a relação com a base aliada, com o vice-presidente e, mesmo, com o próprio Lula, apesar de ele ter sido o grande responsável por sua eleição em 2010. O resultado imediato foi a erosão da base de apoio ao governo no PMDB com vários de seus quadros pedindo publicamente votos para o principal candidato da oposição. Não por acaso, a votação que oficializou o  apoio à reeleição de Dilma na convenção peemedebista não chegou a 60%, mesmo com Michel Temer sendo novamente indicado como o seu vice.

Com a rápida perda de popularidade, o que colocava a reeleição em risco, Lula e Temer foram chamados à campanha com a função de apagar incêndios e conter crescimento de eleitoral de Marina Silva e Aécio Neves. Episódios dessa natureza revelam o baixo estoque de confiança não apenas na relação de Dilma com Michel Temer, mas também com o próprio PT, assim como também ilustra que seus aliados aumentavam o grau de importância apenas em momentos de dificuldades do governo e de sua campanha.

O terceiro exemplo acabou contribuindo para a diminuição da base de apoio governamental no Congresso e revelou novamente a fragilidade da articulação política palaciana. Trata-se da disputa pela sucessão da presidência da Câmara dos Deputados. Com candidato próprio e apostando que derrotaria Eduardo Cunha, que apoiou Aécio Neves e já contava com apoio de partidos da base, a articulação governamental partiu para o enfrentamento de forma beligerante. Ao ser derrotado por Cunha, o governo acabou minando a possibilidade de manter ou de construir pontes que possibilitassem uma ação menos conflituosa na relação com o novo presidente da Câmara. Resultado: o PT ficou fora da Mesa Diretora e alijado de importantes espaços institucionais naquela Casa Legislativa. O isolamento político se acentuou ainda mais e as relações com Eduardo Cunha passaram a ser mediadas pela capacidade de chantagem – ou pressão – de ambos os lados.

A carta de Temer, que agora vem a público, apenas acentua uma série de erros na articulação política governamental que vem tendo contribuição decisiva para acentuar uma crise cujo desfecho pode ser o impeachment de Dilma com o apoio do vice-presidente e do principal partido aliado. O conteúdo dessa carta não apenas revela o nível em que a disputa política está sendo feita como também atesta as dificuldades de coordenação governamental. Se o governo precisa de parcela significativa do PMDB para conter o impeachment, a carta pode ter o efeito de gerar mais solidariedade a Michel Temer dentro do partido do que de atrair indecisos para Dilma Rousseff. Ou seja, o espírito de corpo partidário pode falar mais alto.

Por fim, Lula deve estar agora exaltando o fato de ter tido José de Alencar como vice em quem sempre demonstrou publicamente sua confiança. Alencar prestou solidariedade ao petista a ponto de no auge do da crise do mensalão, onde também se viveu clima favorável ao impeachment, não ter se esquivado em defender publicamente o governo do qual fazia parte, apesar de ser herdeiro natural do posto caso Lula viesse a ser afastado: uma diferença importante em relação ao comportamento de Temer. Todavia, é bom lembrar que Dilma não é Lula, assim como Temer não é Alencar, e que o PMDB sempre vai ser o PMDB: um partido que só entra num jogo para ganhar mesmo que aparentemente pareça ter sido derrotado. Talvez essa seja a maior certeza nesse momento: qualquer que seja o desfecho o PMDB sairá como vencedor. Ou porque continuará no governo Dilma preservando seu espaço ou então por herdar presidência tirando o protagonismo de uma oposição que aparentemente ainda parece atônita e, agora, fica a reboque dos projetos de Michel Temer e do PMDB.

O maior beneficiado com mais essa repentina crise promovida pela carta de Michel Temer, até o momento, deve ser Eduardo Cunha. Seu nome saiu do noticiário negativo desde que acolheu o pedido de impeachment. Como consequência, a votação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados da admissibilidade do processo que pode resultar no pedido de cassação do seu mandato, vem sendo adiada por manobras regimentais e, agora, certamente terá essa nova crise como uma importante aliada da sobrevivência do ainda presidente da Casa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.