O gênio não voltará para a garrafa, ainda que seja demitido

O gênio não voltará para a garrafa, ainda que seja demitido

REDAÇÃO

07 de novembro de 2020 | 13h01

Amon Barros, é professor da universidade de Essex e professor licenciado da FGV EAESP. Desde o doutorado vem explorando a interseção entre história e administração e entre empresas, empresariado e política.

 

Hoje, 07/11, apesar do novo presidente dos Estados Unidos ainda não ter sido proclamado, parece que Donald Trump perderá as eleições, embora faltem contar alguns votos e haja risco de judicialização da disputa.  O resultado será importante, isso é inegável. Não dá para minimizar o impacto da perda do poder executivo sobre os movimentos populistas de extrema-direita, que governa em vários países. Esses governos, eminentemente personalistas e centralizadores, afirmam representar “o povo real”, mas tendem a fechar espaços de participação pública na organização do Estado. Fazem consultas de mão única, além de sentir humores na internet. Ainda que isso dê espaço a posições disseminadas na sociedade, não pode ser qualificado como participação popular. 

Mas, apesar da possível derrota, a forma de fazer política e de governar que Trump radicalizou, junto a outros – como Bolsonaro – não deixará de ser competitiva nas disputas eleitorais. Há diferenças entre o populismo enquanto estratégia política e como forma de governar. Enquanto estratégia, elemento de construção de discursos, o “populismo” aparece aqui e ali nas campanhas eleitorais. Especialmente, porque uma das características do discurso populista é a tentativa de representar um grupo social, delineado pela fala do político ou do movimento, em geral em contraposição a outras representações (especialmente as elites políticas ou econômicas). Isso é quase inerente a disputa para cargos administrativos. 

Por outro lado, o governo populista de extrema-direita parece ter algumas características específicas. Primeiro, a falta de cuidado com as políticas públicas e seus processos de formulação, implantação e avaliação. Há um descasamento entre políticas públicas e política deliberativa, e os rumos governamentais são definidos à revelia de dados e do conhecimento existente entre o corpo de servidores. As ações do governo são, muitas vezes, calcadas apenas na vontade do grupo no poder ou seu líder. 

Em segundo lugar, as batalhas culturais tomam centralidade na arena política, gerando um fermento permanente para teorias da conspiração, fortalecimento de bolhas sociais e o escalonamento do reacionarismo. Em terceiro lugar, o ambiente político se torna cada vez mais radicalizado. A reafirmação da filiação a grupos se tornar um elemento constitutivo das identidades e, assim inegociável. Isso torna a análise dos feitos do governo menos ligada a seus resultados e mais à sua ligação visceral aos grupos que ele se dispõe a representar ou contrapor. Desta forma, os governantes têm espaço para avançar agendas impopulares, ainda que traindo os grupos que diz representar e se associando a certa fração das elites. Muitas vezes, seus apoiadores negociam a aceitação dessas pautas partindo de sua filiação sentimental a quem governa.

Essa dinâmica essencialmente alheia aos governos que se queriam centristas ou tecnocráticos nos anos 1990 e 2000, não vai sumir. Por, pelo menos, dois motivos. Um, filiações grupais que eram dispersas ou focadas em comunidades menores já se organizaram em dimensões maiores. Com as redes sociais e os celulares, o custo de manter essas filiações ativas se reduz drasticamente. Além disso, há interesses materiais por trás da manutenção dessa forma de fazer política. A ideia de que a política é a arena dos costumes e não das disputas econômicas ou sobre a desigualdade atende a interesses. Há grupos que desejam que os agentes econômicos sejam os únicos a ditar as dinâmicas econômicas, mas também das políticas públicas (ou sua ausência). E outros, que acham que o governo é o espaço da luta moralista. 

Nesse sentido, a crescente ocupação de espaços por ultraliberais, conservadores e reacionários, mostra que um trabalho de base foi realizado. Pessoas foram convencidas dessas ideias. Mas, também visões que já existiam foram organizadas em um todo mais coerente. Um exemplo, é a ideia do ser humano egoísta e movido apenas por interesses econômicos e a busca por sucesso vista por muitos como parte da natureza humana. 

Contudo, a história e a diversidade dos povos mostram que se há algo natural ao humano é ter seu comportamento inserido na história e no espaço. A disputa pela definição de como as sociedades devem se organizar e lidar com desafios é um elemento da vida coletiva. Ainda que os populistas de extrema-direita percam uma batalha, a disputa não terá fim com um governo “racional”, “moderado” ou “centrista”. Há limites para a construção de consensos, que incluem a ruptura de pactos que pareciam estabelecidos. Essa dinâmica é agravada pelas múltiplas crises que se avizinham e os frutos amargos das crises econômicas passadas (e persistentes). Os grupos de direita radicalizados não vão desaparecer. As melhores formas de mantê-los em xeque é com a vigília permanente da saúde das instituições, a tentativa de desarmar parte das insatisfações – muitas vezes canalizadas por extremistas por meio da raiva e da intolerância – e a organização de grupos que valorizam a democracia, como ensinou Stacey Abrams nessas eleições.

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