O futuro do trabalho, pandemia e novas formas de organização social

O futuro do trabalho, pandemia e novas formas de organização social

REDAÇÃO

21 de agosto de 2021 | 19h04

Maria José Tonelli, Professora titular no Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos na FGV – EAESP

O conceito de trabalho é diferente do conceito de emprego, mas durante a segunda metade do século XX foram praticamente sinônimos e se firmaram como o modelo predominante de organização do trabalho e da organização social. Este modelo, pelo menos no imaginário coletivo, tinha por características: recursos financeiros estáveis, organização do tempo de trabalho e do lazer, organização do espaço público e do espaço privado e até mesmo das relações homem-mulher, com o homem provedor e a mulher dona de casa.

Mas o século XXI trouxe vários desafios: escassez de recursos, tecnologia de informação, inteligência artificial, automação, migrações, guerras localizadas, questões demográficas como o envelhecimento da força de trabalho, crise climática e a demanda por profissionais cada vez mais qualificados. Nesse contexto, aparecem várias demandas contraditórias: redução do número de postos de trabalho, dificuldades de se preencher postos de trabalho qualificados versus o desemprego de boa parte da população que não consegue alcançar a sofisticação dessas novas exigências e, no caso do Brasil, a convivência com um histórico de trabalho informal há décadas.

O futuro do trabalho está, paradoxalmente, ligado ao passado do trabalho e ao modelo de contrato do final do século XIX. Trabalhar é, cada vez mais, uma empreitada individual, não há mais vínculos estáveis com a organização e isso traz, pelo menos, duas consequências.

Do ponto de vista das características do trabalho, os contratos flexíveis, vínculos flexíveis, estímulo ao empreendedorismo e plataformas de contrato também para trabalhadores do conhecimento. Esses novos modelos incluem horários flexíveis, locais flexíveis, equipes virtuais, profissionais espalhados pelo mundo e a automação não só do trabalho físico, mas também do trabalho cognitivo. A computação está presente em praticamente todas as ocupações humanas.

Do ponto de vista social, os mecanismos de proteção social que estavam ligados ao emprego formal deixam de existir e os trabalhadores ficam mais expostos aos riscos do mercado e falta de proteção social. Além disso, vê-se o surgimento de várias ocupações e o desaparecimento de outras. Os novos modelos de trabalho atendem aos requisitos de flexibilidade e agilidade necessários para as empresas, mas também colocam em questão a organização social confortável à qual nos acostumamos (para aqueles que se beneficiaram dos vínculos estáveis) nesses últimos 70 anos.

A pandemia só acelerou uma transformação que já estava em curso, com mudanças no tempo do trabalho e não-trabalho, espaço da casa e o espaço do escritório, intensificou o uso das tecnologias, a necessidade de profissionais tecnologicamente ultra qualificados e aumentou ainda mais o desemprego.  Nesse cenário, a Google, por exemplo, já pretende diminuir a remuneração dos funcionários que realizarem o trabalho em casa. E o Facebook acaba de lançar um novo modelo de espaços virtuais de trabalho – Virtual Horizon Workrooms –  que transforma completamente os sentidos dos espaços tradicionais, com avatares e realidade virtual. Na pandemia, passamos a conviver com uma imobilidade geográfica versus uma mobilidade digital.

As implicações sociais dessa transformação indicam que mesmo os trabalhadores qualificados estarão cada vez mais trabalhando na gig economy, com acentuação de desigualdade e salários estáveis que garantiram, por exemplo, a indústria do lazer. O Brasil, por suas questões educacionais deficitárias há décadas, onde as camadas médias foram historicamente formadas apenas por funcionários públicos, sofre ainda mais com essas mudanças que não favorecem a necessidade de inclusão dos grupos minorizados e frustram as expectativas dos jovens e dos mais velhos.

O enxugamento das camadas médias da população e o crescimento da desigualdade social é debatido hoje até pelas empresas, que precisam de consumidores no mercado. O debate sobre ambiente, governança e sociedade (ESG) e capitalismo consciente é mais do que nunca uma pauta necessária para a própria sustentação do modelo vigente até o momento. Os líderes das empresas precisam estar cada vez mais conscientes de seu papel como cidadãos. Estamos diante de uma reorganização completa do nosso modo de viver.

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