O freio de arrumação no processo eleitoral

O freio de arrumação no processo eleitoral

REDAÇÃO

04 de maio de 2022 | 12h28

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA, Pesquisador FGV – EAESP

É conhecida a figura popular do “freio de arrumação” em um ônibus urbano. Ao parar em um ponto, o veículo, já cheio, parece não poder receber mais nenhum passageiro. Mesmo assim, sobem mais alguns. Entrando em movimento, o motorista, após alguns metros percorridos, pisa subitamente no freio. O ato brusco faz com que alguns passageiros sejam deslocados e que espaços ainda vagos sejam ocupados. Ou seja, onde parecia não haver mais espaço vazio, agora passa a acomodar alguns passageiros e, assim, a viagem segue com todos aparentemente melhor acomodados.

Aplicar essa situação às eleições presidenciais carece de algumas adaptações. Cerca de um ano atrás, para não recuar muito mais no tempo, os passageiros-candidatos, ou melhor, pretendentes, eram muitos.  Após alguns freios de arrumação o resultado não foi uma melhor acomodação dos passageiros, mas, sim o desembarque de alguns.  Caso do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que parecia ser ungido dentro do campo conservador para ser o anti Bolsonaro. Mais recentemente, tivemos o caso do também ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, com os mesmos supostos predicados para desempenhar este papel. Como Mandetta, Moro também foi desembarcado, embora acene com a possibilidade de estar em algum ponto mais adiante.

Agora, a cinco meses do pleito, o ônibus ainda leva vários candidatos, alguns deles não aspiram ao pódio, apenas chegar ao final da viagem, o 1° turno. Viajam apenas para se tornarem conhecidos e aparecerem em uma próxima eleição com maior cacife. Atualmente, além dos dois mais bem posicionados nas pesquisas, Lula e Bolsonaro, segue um pelotão de passageiros-candidatos que podem ser ejetados após novo freio de arrumação. Ainda se tem a categoria de candidatos que se apresentam como tal, tendo, porém, como objetivo real ser chamado para vice em uma composição com um candidato melhor colocado.

Poucas semanas atrás o ônibus estava bem mais cheio ou, pelo menos, havia candidatos nos pontos tentando tomar o veículo. Com Eduardo Leite se acertando com João Dória e este admitindo até ser candidato à Vice, o ambiente se desanuviou.  Por outro lado, Simone Tebet deixou claro que quer a cabeça de chave, que não aceita o lugar de Vice.  Mas seu partido, ou parte dele, acaba de considerar a possibilidade de apoiar Bolsonaro já no 1° turno. O União Brasil lançou Luciano Bivar como candidato, o que durou pouco, pois já recuaram para apoiar Bolsonaro, ao que tudo indica, nada é muito definitivo.

Cabe ainda deixar claro que parte das forças da chamada “Terceira Via” sempre deixou Ciro Gomes de fora das várias tratativas, pelo menos as formais.  Estão certos, pois Ciro não abrirá mão de sua candidatura, afinal é candidato desde o fim de 2018. Na verdade, candidato desde 1998. As eleições então se configuram como uma competição entre Lula, Bolsonaro, Ciro e um possível, mas não certo nome da 3ª via, além de um grupo de figurantes.

A análise agora deve se voltar para os partidos. Se no campo governista, as coisas parecem já definidas e arranjadas, com o Centrão bem posicionado e governando, ainda existe um grupo de partidos que vamos chamar de “Meião”, formado por PSD, União Brasil, PSDB e MDB. A tendência do PSD, partido do Kassab para avivar a memória, deve apoiar Lula e o PT, mas acaba de fazer um aceno para Ciro Gomes.  Na verdade, o desejo de Kassab seria ser o vice de Lula, mas o lugar já está ocupado pelo neossocialista Geraldo Alckmin.

O União, com seu exótico postulante, Luciano Bivar, parece já ter recuado dessa pretensão se inclinando para apoiar Bolsonaro, como dito acima. Vale lembrar que o União tem um caixa reforçado pelo Fundo Eleitoral tornando uma composição com o mais novo partido do cenário brasileiro demasiado atraente.  Dória, ao mencionar que pode ser vice, parece ter tomado consciência de que nada pode postular além disso, assim dizem as pesquisas. Deve ser seu último esforço para se tornar competitivo. Quanto ao MDB, Simone Tebet, que parece ser maior que seu partido, se mantém aferrada à candidatura ao posto máximo, mas poderá ser rifada por uma ala do partido simpática ao atual presidente.  A registrar que esses partidos são extremamente divididos e fragmentados com portfólios ideológicos bastante flexíveis. Como se não bastasse são dependentes das clivagens regionais, o que atinge a maioria dos partidos.

Parece fácil identificar a ocorrência de novos freios de arrumação, e eles virão. Seus impulsionares são o Calendário Eleitoral e as pesquisas de opinião pública. Estando consolidado o arranjo bolsonarista, essas forças aqui chamadas de Meião, podem se distribuir entre Lula, Bolsonaro e Ciro, caso este venha a decolar e se torne viável para disputar o 2° turno. Tudo bem indefinido, como se pode perceber.  O novo freio de arrumação deverá ejetar para fora do ônibus alguns passageiros-candidatos ou deslocá-los para as cadeiras de vice.

Até agora, falamos desses postulantes, sendo hora de falar de Bolsonaro. Antes uma palavra sobre Lula, é o primeiro a ter o seu vice definido, o que parece indicar que as forças que se aglutinaram em torno do ex-presidente estejam definidas. Qualquer adesão a mais seria lucro para sua campanha. Se todos estão envolvidos e com suas energias direcionadas ao pleito, Bolsonaro destoa sendo regido por outro calendário, o do golpe. Continua com sua postura costumeira, vira e mexe questiona as urnas eletrônicas e, nesses dias, atingiu o pico de seu “drive” golpista acenando com a possibilidade das eleições serem canceladas. Por que, por quem? Disse em sua habitual prédica digital que haveria uma contagem de votos por parte das Forças Armadas, coisa nunca vista antes. Continua instigando sua militância contra o STF, mais especificamente o Ministro Alexandre de Moraes.

Como fica fácil de atestar, Bolsonaro nem disfarça suas intenções antidemocráticas, nem apresenta provas para fundamentar seu objetivo, em si já condenável. Bolsonaro não vive e sobrevive no ambiente democrático, é um ser estranho nesse habitat.  Por certo, o calendário do golpe ainda não está definido, provavelmente exista um rascunho, dependendo de algumas variáveis. Ao não esconder mais suas intenções golpistas, o ex-capitão que deixou o Exército, vai usar e abusar de uma suposta falta de lisura nas eleições, animando suas bases para novas e maiores manifestações ruidosas com motos de muitas cilindradas e apoiadores com muitos músculos. Em nossa percepção, Bolsonaro sente o cheiro de uma derrota. Razões não faltam: a economia não se recupera, o número de desempregados é gigantesco, o custo de vida está desgovernado, o Auxílio Brasil não é a salvação da pátria, o preço da gasolina não tem presidente da Petrobrás que faça recuar, o gás de cozinha, tão vital, nunca esteve tão alto.

O que estaria ainda indefinido é a hora do golpe acontecer: antes do 1º  turno ou do 2º? Não aceitar os resultados seria apelar para o choro dos derrotados. Bolsonaro não vai querer correr riscos. Os generais em seu entorno serão suficientes para um ataque à democracia? Na nossa alegoria inicial, Bolsonaro gostaria de ser o motorista deste ônibus, e ao dar o freio de arrumação deixaria as portas do veículo abertas para expelir os candidatos e só restar ele. Os atos de 1º de Maio, com a presença pífia de participantes nos dois eventos dos principais candidatos nas pesquisas, indica que ainda existe pouca mobilização da sociedade para as eleições, ainda podendo ocorrer muita coisa. A viagem até 02 de outubro próximo, pelo menos, terá muitos freios de arrumação, solavancos. O que não pode acontecer é o ônibus da democracia sofrer atentados e não vai ser o Messias Bolsonaro que vai zelar por ela.

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