O Escândalo da Fifa, os megaeventos e as prioridades governamentais: haverá manifestações nas Olimpíadas?

O Escândalo da Fifa, os megaeventos e as prioridades governamentais: haverá manifestações nas Olimpíadas?

REDAÇÃO

02 de junho de 2015 | 17h39

 

Ana Cristina Braga Martes, professora adjunta de Sociologia da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV / EAESP)

A detenção de José Maria Marin nos Estados Unidos fez com que os brasileiros recordassem as críticas dirigidas à COPA da FIFA Brasil em 2014: corrupção, superfaturamento dos estádios e demais itens de infraestrutura, assim como o dinheiro que o Brasil deixou de arrecadar, por isenção de impostos concedidos inclusive à FIFA. Na mesma semana em que ocorre a prisão do presidente da CBF, a Suécia anuncia sua decisão de não se candidatar à disputa para sediar os jogos Olímpicos em 2022. Justificativas: o enorme custo do evento e a priorização de gastos públicos na área social. A decisão foi tomada pelos partidos e anunciada pelo Primeiro Ministro, depois de um debate aberto entre governantes, partidos e sociedade civil. Dentre as prioridades, destacam-se moradia e previdência social. Lembramos que em novembro de 2013, a Alemanha já havia tomado a mesma decisão alegando motivos semelhantes.

A Suécia  ocupa o 4o. lugar do ranking internacional do índice de democracia e o Brasil ocupa o 45o. lugar. O Brasil ocupa a 79a. posição no IDH, enquanto a Suécia detém a 12a. colocação neste índice. Os déficits em políticas sociais são incomparavelmente mais elevados no Brasil do que na Suécia. Contudo, foi lá que os partidos políticos optaram por priorizar as politicas sociais. O Brasil, orientado por uma outra lógica política, decidiu arcar com os custos das Olimpíadas.

Comparações como estas ajudam a explicar um sentimento crescente entre os brasileiros, de que as coisas estão fora do lugar. Em situações assim, como diz o sociólogo Manuel Castells, um forte sentimento de indignação predispõe as pessoas ao protesto. Não se trata de um fenômeno exclusivo do Brasil. As revoltas atuais eclodem nas cidades globais, desencadeadas por emoções derivadas de algum evento politicamente significativo (no nosso caso, os megaeventos esportivos). Emoções de indignação e injustiça, quando socialmente conectadas, reduzem os custos das ações coletivas e atenuam o medo de desafiar governantes, levando às ruas pessoas que até então não protestavam publicamente.

De modo complementar, eventos globais, antes monopólio da grande mídia, agora são veiculados pelas redes de comunicação em tempo real que expõem, de modo inédito, as mazelas governamentais e os interesses privados por trás dos eventos. Assim, o sentimento de indignação se espalha mais veloz e facilmente nas redes (facebook, whatsup etc.). A Copa FIFA 2014 foi alvo de protestos não apenas em 12 estados brasileiros, mas também na Argentina, Colômbia, Chile, Espanha, Inglaterra, França, Alemanha e África do Sul.

Antes mesmo da Copa, em 2013, o Brasil viveu uma onda de protestos contra a ausência de critérios republicanos para o estabelecimento de prioridades nos gastos governamentais. Os protestos revelaram uma insatisfação crescente com a qualidade dos serviços e das politicas publicas: “queremos saúde e educação padrão FIFA”. Tais manifestações têm sido marcadas pela espontaneidade e pela horizontalidade, sendo que as lideranças, quando aparecem, não se colocam como representantes fixos nem porta-vozes únicos e afirmam valores de autonomia, quanto aos políticos, partidos, governos e sindicatos. Estas características dificultam tentativas de conter ou manipular os protestos tanto nas ruas quanto nas redes sociais.

Não se sabe o que acontecerá no Brasil durante as Olimpíadas. Mas não é difícil imaginar uma nova eclosão de protestos. Para isso contribuem o agravamento da crise econômica e a persistente queda da popularidade da presidente, inclusive no Rio de Janeiro, cidade sede das Olimpíadas, que na semana passada ficou abaixo dos 10% de aprovação.

O país vive uma espécie de esquizofrenia quanto às decisões governamentais e os rumos propostos para a economia brasileira: de um lado, o ajuste fiscal e, de outro, o dispêndio de R$ 36,7 bilhões com as Olimpíadas, sendo que a Copa custou R$ 27 bilhões (apenas 18% ficou com o setor privado).

O custo previsto para a realização das Olimpíadas no Brasil foi estimado em R$ 28 bilhões em 2013. As previsões para este evento tendem a representar, em média, 1/3 abaixo do valor final. É um padrão que vem se repetindo, tanto nas Olimpíadas, como nas Copas recentes. Entre 2014 e 2015, as estimativas de custos dos Jogos Olímpicos do Brasil obtiveram um acréscimo de quase R$10 bilhões. Ainda falta um ano para a ocorrência do evento e não se sabe qual será o custo final. Apenas como referência, a última Olimpíada sediada em Londres custou US$ 15 bilhões.

Caso venha a ocorrer uma nova onda de protestos no Brasil contra os gastos públicos com as Olimpíadas, não teremos sido nós, brasileiros, os primeiros. A Grécia, em meio a uma enorme crise econômica, sediou os jogos em 2004 sob protestos populares. Importante lembrar que os gastos com o evento têm sido apontados como uma das causas da atual falência da economia grega. De acordo com os dados governamentais, a Olimpíada de Atenas custou 13,5 bilhões de euros. Especialistas contestam, alegando a ocorrência de gastos adicionais (transporte e segurança) que, se contabilizados, somariam 30 bilhões de euros.

Até o momento, o gasto com as Olimpíadas no Brasil, superou  o da Copa. Retomando a discussão sobre prioridades e politicas públicas, lembramos que no ano passado foram gastos R$ 27 bilhões com o Bolsa Família. Se projetarmos o custo da Copa e o dos Jogos Olímpicos, juntos atingiriam aproximadamente R$ 90 bilhões. Este valor pode ser usado para pagar o equivalente a três anos do Programa Bolsa Família, ou para elevar o valor do benefício ou, ainda, aumentar o número de beneficiários. Outras relações e projeções sobre gastos e políticas públicas podem ser feitas para perguntar quais têm sido, de fato, as nossas prioridades. Mas uma coisa é certa: quando o sistema político institucional não consegue estabelecê-las de modo claro e satisfatório, os movimentos de contestação tendem a ocupar as ruas.

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