O drama do suicídio de policiais

REDAÇÃO

12 Setembro 2018 | 17h50

Rafael Alcadipani, professor Adjunto da FGV-EAESP, membro do Forúm Brasileiro de Segurança Pública e Visiting International Fellow no Crime & Security Research Institute – Cardiff University.

“Professor, eu sei o que é ter o cano frio de uma pistola apontada para o  meu queixo.”, foi o que me disse um policial paulista há algum tempo quando conversávamos a respeito de suicídio de policiais. “Conheço um colega que o filho abriu a geladeira e não tinha nada para comer. Ele ficou desesperado. E tinha uma pistola carregada do lado dele”. Este foi outro relato que ouvi de outro policial paulista a respeito do desespero de um colega que não conseguia sustentar a sua família devido ao seu baixo salário. As pessoas que vivem no meio de policiais sabem que o suicídio é um problema que aflige a classe em São Paulo e no Brasil.

Recentemente, a Ouvidoria de Polícia de São Paulo divulgou um relatório denominado “Pesquisa sobre o Uso da Força Letal por Policiais de São Paulo e Vitimização Policial em 2017”. O detalhado relatório realizado pelo Dr. Benedito Mariano trás a tona dados preocupantes a respeito do suicídio dos policiais paulistas. No ano de 2017, 16 Policiais Militares e 10 Policiais Civis cometeram suicídio. Considerando o efetivo das duas polícias, proporcionalmente mais policiais civis cometeram suicídio do que militares. Em serviço, segundo o relatório do Ouvidor, morreram 12 Policiais Militares e 4 Policiais Civis. Ou seja, morrem mais policiais em São Paulo por suicídio do que executando o seu perigoso trabalho.  Mundialmente, a taxa de suicídio de policiais é maior do que da população.

Cometer um suicídio é um ato de desespero de uma pessoa que perde o sentido na vida. Se por um lado existem questões pessoais para se realizar o ato, por outro o contexto social termina por incentivar quem já tem predisposição para ceifar a própria vida. A situação cotidiana dos policiais paulistas e brasileiros requer muita atenção. Primeiro, realizam um trabalho em que estão cotidianamente em contato com profundas dores e tristezas. Policiais lidam cotidianamente com aquilo que é exceção para a maioria das demais profissões. Homicídios, estupros, ações de pedofilia, brigas e tantas outras situações complexas fazem parte do cotidiano do trabalho destes profissionais.

Outro aspecto a se destacar é a grande quantidade de trabalho, com constante pressões das chefias para se reduzir indicadores criminais, e a necessidade de se realizar “bicos”. A remuneração dos policiais paulistas está longe de ser compatível com a realidade econômica do Estado de São Paulo, a situação fica ainda mais delicada na Capital e em grandes cidades como Campinas. Com isso, policiais utilizam a hora de folga para realizar outros trabalhos o que aumenta seu grau de stress. Ou seja, realizam um trabalho emocionalmente e muitas vezes fisicamente extenuante e não possuem tempo para se recuperar. É expressiva a quantidade de policiais que possuem dívidas como, por exemplo, um empréstimo consignado, o que aumenta a pressão no indivíduo.

É preciso, ainda, considerar que muitos policiais estão sob chefias que possuem pouco preparo durante a sua formação para serem líderes de verdade. Há, ainda, uma diferença entre aquilo que se ensina no banco das Academias de Polícia e aquilo que se ensina nas subculturas policiais onde o estilo de liderança autoritário e agressivo é valorizado, especialmente em algumas  áreas da PM.  Policiais ainda estão imersos em uma cultura masculina onde dor e sofrimento deve ser a todo custo escondido. Também é muitas vezes mal visto nas polícias procurar auxílio psicológico, visto por alguns como coisa de fracos ou de quem quer fugir do trabalho.

Por fim, policiais sentem que seu trabalho não é valorizado pela sociedade e é facilmente criticado pela mídia. No caso específico da Polícia Civil, onde os números de suicídios são proporcionalmente maiores do que da PM, há uma nítida sensação entre os policiais de que a polícia foi sucateada pelos governantes e está em seríssimas dificuldades, além de ter dificuldades para realizar uma gestão efetiva, inclusive de seus recursos humanos.

O suicídio precisa deixar de ser um tabu e se tornar em um tema de primeira grandeza na agenda dos chefes de polícia e dos governantes de São Paulo. Como recomenda o Ouvidor das Polícias, é preciso criar programas de prevenção ao suicídio com profissionais de fora das instituições policiais. Os governantes, ainda mais em época de eleição, precisam propor melhorias efetivas nas condições de trabalho cotidiana dos policiais que aliviem a sua pressão cotidiana. Mas, não bastam promessas.  É urgente levar os problemas da polícia a sério e não ver os policiais apenas como massa de manobra para conseguir votos. A sociedade precisa reconhecer melhor o trabalho dos bons policiais, a sua imensa maioria. Todos nós precisamos agir para combater uma das maiores causas de vitimização policial no Brasil: o descaso com que são tratados. Nossos policiais estão se matando, quem se importa?