O desafio da distribuição da vacina da COVID 19

O desafio da distribuição da vacina da COVID 19

REDAÇÃO

30 de outubro de 2020 | 16h10

Priscila Laczynski de Souza Miguel, mestra e doutora em Administração de Empresas pela FGV EAESP, onde é coordenadora adjunta do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain (Celog) e é professora no departamento de Gestão de Operações.

 

Muito tem se discutido sobre a origem da vacina para a COVID 19, mesmo sem termos ainda nenhuma efetivamente aprovada. Os laboratórios responsáveis já investiram na produção antecipada e, em sendo confirmada, a vacina poderia ser administrada em tempos bastante curtos, visto que vários lotes já estão estocados. Há, no entanto, um segundo desafio: a distribuição de doses para toda a população. Um estudo recente realizado em parceria pela DHL e McKinsey relata que, para uma cobertura em massa da população mundial, serão necessários cerca de 15.000 vôos e 15 milhões de entregas refrigeradas.

Vacinas são produtos que exigem uma série de cuidados no transporte e na armazenagem, pois requerem elevado controle de temperaturas de forma a garantir sua eficácia. Qualquer oscilação fora das condições especificadas pode resultar em lotes com problemas de qualidade, inviabilizando sua aplicação e resultando em descarte.

Embalagens especiais são também projetadas para aumentar a proteção do produto por mais tempo. Entre as vacinas em desenvolvimento, a americana Pfizer, por exemplo, informou que seu produto precisará ser mantido a menos 70 graus celsius. Para isso, estão sendo projetadas embalagens próprias para o transporte e armazenagem. O desafio é ter esta estrutura nos postos de vacinação nas diversas localidades, pois uma vez que a embalagem é aberta, o produto não pode ser mantido por mais de um dia.

Quando se fala em um país continental e com tantas diferenças regionais como o Brasil, a vacinação em massa exigirá cuidados logísticos ainda maiores, principalmente em regiões distantes dos grandes centros, em função da falta de infraestrutura de transportes adequada e menor frequência de entregas. Isso sem falar nas altas temperaturas nas diversas regiões do Brasil, considerando que esta distribuição deverá acontecer no verão brasileiro, em se confirmando a aprovação da vacina ainda este ano. A boa notícia é que já temos, há anos, experiência de vacinação em lugares remotos, como, por exemplo, as comunidades indígenas na região Norte, que exigem transporte aéreo, aquaviário e uma parte do percurso realizada a pé. Um segundo desafio grande será na aplicação de vacinas nos grandes centros, em função da alta demanda. Não haverá produto e nem capacidade para se vacinar todo mundo ao mesmo tempo. Vimos, durante a epidemia de febre amarela, pessoas se aglomerando nos postos e até mesmo confusão, em função da disponibilidade restrita de vacinas para aplicação diária.  Há necessidade de se pensar como será feita esta entrega de forma eficiente. Em primeiro lugar, deve-se segmentar os grupos de acordo com sua necessidade de imunização. Profissionais de saúde e grupos mais vulneráveis devem ser priorizados. Para evitar tumulto nos postos, deve ser ainda pensado uma forma de agendamento que permita manter o distanciamento mínimo entre as pessoas e não ultrapasse a capacidade de prestação de serviço. Recomenda-se ainda uma análise detalhada de demanda de cada local para evitar o deslocamento desnecessário da população e mesmo do produto. Quanto maior a capacidade de planejamento e de comunicação com a população para explicar o fluxo a ser seguido, menor a probabilidade de confusão.

Em tempos de crise como o atual, precisamos mais uma vez aprender com a experiência passada e prepararmos a logística desta distribuição de forma a evitar novas surpresas.

 

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