O coronavírus e os impactos para a segurança pública

O coronavírus e os impactos para a segurança pública

REDAÇÃO

05 de março de 2020 | 18h04

Rafael Alcadipani é Professor da FGV-EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O Brasil começa a ter um aumento do número de pessoas infectadas pelo coronavírus. Caso ocorra uma epidemia no país, haverá efeitos claros e diretos na segurança pública e nossas polícias, autoridades e pessoas precisam estar preparadas para isso. Em países como China, Irã, Itália e Coréia do Sul as forças de segurança estão empenhadas na linha de frente para fazer com que populações inteiras cumpram quarentenas. Em nome da proteção de todos, reuniões públicas estão sendo canceladas, viagens estão sendo suspensas e toda forma de aglomeração de pessoas está sendo evitada fazendo com que haja um verdadeiro Estado de exceção. Caso isso ocorra no Brasil, haverá questionamentos de até que ponto tal situação é uma necessidade de saúde ou se o vírus está sendo utilizado para diminuir liberdades individuais. Em um clima de acirramento político e ideológico, tudo pode ser lido por esta lente o que, no limite, acarreta um desgaste de imagem ainda maior para as forças de segurança, por um lado, e a restrição de direitos, por outro.

O coronavírus pode impactar no aumento de distúrbios civis. Em um cenário extremo de escassez de alimentos e outros itens de necessidade individual, pode ocorrer distúrbios em mercados e supermercados bem como saques. A rede de saúde do Brasil é conhecida por sua ausência de leitos e pela dificuldade de atendimento das pessoas o que em situações extremas pode levar a conflitos e brigas. Ou seja, em um caso limite de uma grande quantidade de pessoas infectadas com o coronavírus no país, as forças de segurança podem ter que lidar com múltiplos distúrbios acontecendo ao mesmo tempo. Isso além de todo o trabalho que desempenham cotidianamente. Lembrando que é comum questionamentos e críticas a forma com que polícias usam sua força para lidar com distúrbios civil.

Uma grande epidemia de coronavírus pode também impactar no aumento de crimes. Há já em todo o mundo um crescimento da xenofobia contra orientais que resultaram em crimes de ódio. A quarentena para evitar que o vírus se dissemine faz com que pessoas que geralmente passam longas horas fora de casa passem a ficar muitas horas juntas ocasionando um aumento de conflitos interpessoais que no limite podem levar a violência contra grupos vulneráveis, como crianças e mulheres. Isso pode gerar mais homicídios, por exemplo. O coronavírus está afetando a economia global e este desaquecimento econômico pode impactar, posteriormente, nos crimes contra o patrimônio. Há evidências da relação entre enfraquecimento econômico e o aumento de alguns tipos de crime, em especial contra o patrimônio.

Será preciso ter os equipamentos necessários e os cuidados para que os próprios membros das forças de segurança consigam ter proteção na linha de frente da epidemia. Não apenas durante o trabalho, mas policiais podem também ser infectados no contato social cotidiano. Ou seja, há um claro e nítido perigo de que membros de forças de segurança sejam contaminados e, com isso, fiquem fora de atuação. Isso leva a uma redução de efetivo disponível para as polícias em um momento de extrema sensibilidade para a população. No Reino Unido, há cenários traçados que indicam que a investigação de crimes e o patrulhamento podem ser fortemente afetados devido a contaminação de policiais pelo coronavírus. Espero que este artigo seja apenas um exagero e que este cenário não se configure no Brasil. Mas, é preciso que nossas autoridades estejam levando em conta como uma disseminação do coronavírus em grandes proporções pode impactar na segurança pública para mitigar seus efeitos. É quando estamos preparados para o pior que vidas são poupadas.

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