O contágio e a dança no escuro

O contágio e a dança no escuro

REDAÇÃO

23 de setembro de 2020 | 14h50

Cristovão Henrique – Doutor em Geografia Econômica pela (UFGD), Pós-Doutor em Geoeconomia pela UFG – e Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC). Administra o site geoeconomico.com.br

 

É isso, já estamos com a pandemia no Brasil há seis meses, um longo tempo para quem pode fazer o seu isolamento social à moda brasileira, mal elaborado, sem uma coordenação central e estratégica do governo federal que nos fez subir ao ranking dos três países no mundo em número de casos e de mortes pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2).

O conjunto de medidas destrambelhadas do Governo Federal brasileiro, no cenário pessimista nos mostrava uma tragédia humanitária, se nós, brasileiros não nos organizássemos para conter a curva ascendente de contágio, que no início dessas análises chamamos de contágio regional. Entretanto, no plano teórico e das projeções epidemiológicas, contar mortos não era um exercício emocional e psicológico colocado na mesa.

Pois bem, após esse período, os inumeráveis 137mil mortos com a pandemia de COVID-19 revelou uma gama multidimensional da crise, que de início, era sanitária, depois tornou-se econômica, política, social, antropológica, cultural, regional, geopolítica e geoeconômica e tanto outros fatores que a esse momento peculiar da nossa história recente nos acomete.

Em março de 2020, o isolamento social, estava na casa dos 61% no Brasil, como mostra o mapa 1, mas como é sabido, as medidas dos governos estaduais foram neutralizadas por um política de Estado, do poder Executivo, de completa incompetência técnica e científica espalhou desinformação nas redes sociais e culminou na exposição da população brasileira ao novo coronavírus.

 

Mapa 1: Taxa de isolamento social no Brasil (25/03/2020)

 

 

 

Após meses de políticas públicas implementadas pelos governos estaduais, no sentido de conter a proliferação do contágio nas respectivas unidades federadas, e reiteradamente ignorada pelo Governo Federal, na pessoa do Presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem Partido), temos o resultado, quase 4 milhões de infectados e 137 mil mortos.

O isolamento social que é a chave no debate sobre a desaceleração do contágio, para que os países encontrem uma saída estratégica no colapso e trauma que emerge com a pandemia, foi mal feito, em setembro de 2020, ronda os 40% no país como mostra o mapa 2, que nunca atingiu o isolamento social de 70%, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na discussão do contágio do resto, que fizemos outrora, baseado na discussão de Tomas Pueyo, sobre quais estratégias adotar em um momento tão peculiar, cuja saída faz analogia ao Martelo e a Dança. As ações de contenção da proliferação do vírus por parte dos gestores públicos deveriam acertar a curva epidemiológica em ascendência acelerada, em seguida, cada país, e no nosso caso, já que o Governo Federal é incompetente, os estados conseguiriam sua dança.

 

Mapa 2: Taxa de isolamento social no Brasil (20/09/2020)

 

Na escala nacional, o Brasil optou por arremessar o martelo pela janela, e os governadores cada um a seu modo instituíram suas medidas de conter o rápido contágio criando 27 epidemias diferentes com suas características regionais guardadas. Os números de casos e mortes exponenciais, fez com que se espalhasse, nas duas regiões mais pobres do país, Norte e Nordeste, várias Itálias e Espanhas, como também debatemos em outras análises.

Por outro lado, na escala regional, se as políticas públicas de saúde são os martelos que nos ajudam a conseguir a dança de convívio com o vírus, implementando inicialmente medidas severas de restrição da mobilidade social com isolamento, quarentena e lockdowns para que a propagação exponencial fosse contida e, cada um fez de uma forma, e claro, seguindo esse padrão não seria diferente o valor investido para resolver a problemática sistêmica da saúde pública.

É o que mostra os dados da Receita Corrente Líquida investido em Ações e serviços públicos em saúde de todos os estados brasileiros. Os estados amazônicos foram os que mais sofreram com a pandemia entre abril e maio com destaque para Amazonas e Pará, em paralelo, foram os que mais investiram suas receitas para conter o contágio como mostra o mapa 3, elaborado com os dados levantados pelo G1 no início de agosto.

 

 

 

Mapa 3: Investimento da receita liquida em serviços de Saúde por estado (10/08/2020)

Os investimentos dos estados foram implementados para que se atingissem uma taxa de contágio menor, o que alguns até conseguiram. Mas a pergunta que fica é seguinte: Se o poder executivo é incompetente e não conseguiu articular uma coordenação nacional qual seria então custo regional para conseguir uma dança durante a pandemia de COVID-19? resposta está na centena de milhares de mortes evitáveis e espalhadas em 98.7% dos municípios brasileiros.

A dimensão regional tangível da crise reúne os aspectos econômicos que cabalmente, os gestores, empresas, empresários pequenos, médios e grandes precisam de saber até quando as medidas restritivas estarão em vigor, isto é, quando será concedida a habilidade de dançar com o novo coronavírus, claro, nos adequando com as novas normas de convívio social com o vírus até que a vacina esteja pronta, outra problemática que a partir de agora, possui filtro geoeconômico e geopolítico escala global. E já vemos ensaios, inclusive de Jair Bolsonaro (Sem partido) e, por parte dos movimentos anti-vaxxers, com se denominam as pessoas que participam de grupos anti-vacinas, de como serão altíssimos os desafios relacionados a vacinação em massa quando tivermos a solução para a maior crise sanitária enfrentada neste século.

Até lá, por aqui, enquanto o Governo Federal optou por jogar fora o martelo que achataria a curva epidemiológica e dançar no escuro com a cloroquina. A pandemia avançou das metrópoles e regiões metropolitanas e se anexou a peculiaridades regionais brasileiras e criando um platô altíssimo de mortes diárias, e, naturalizamos a morte. Ultrapassamos a marca de cem mil mortes em agosto, faltam 129 dias para o fim do ano, a matemática é terrível se fosse apenas números, mas são mortes evitáveis que estamos a colocar em risco, isso se mantermos esse padrão de contágio, mesmo com Imperial College indicando nas pesquisas epidemiológicas que no Brasil a taxa de transmissão (R) começou a ficar abaixo de 1.

Assim como todos os outros estados, o padrão de interiorização da pandemia assumiu esse perfil regional e na porção mais Oeste da Amazônia, particularmente no caso do estado Acre que, já dissemos em outrora que respirar é privilégio, os números acumulados do contágio continuam sua escalada. O estado investiu 16,3% da Receita Corrente Líquida (RCL) no combate a COVID-19, desenhou políticas públicas até então satisfatórias para reduzir o impacto da pandemia, editou cerca de 35 normativas após o Decreto Estadual nº 5.465 de 16 de março de 2020.

Alinhou estratégias entre Prefeituras Municipais, com a Universidade Federal do Acre, a única universidade pública do estado, diga-se de passagem, alinhou estratégias com instituições jurídicas como Ministério Público do Acre (MPAC), Tribunal de Justiça (TJAC), de modo geral, buscou desenhar políticas públicas e parcerias para conter a pandemia. Ainda assim, até o momento no Acre, são 69.620 casos notificados, (5%) do total da região norte, com 42.367 (60,9%) casos descartados e outros 27.246 (39,1%) confirmados e outros 7 seguem aguardando resultado de exame laboratorial.

Pensar esses números do ponto de vista regional é fundamental para entendermos a dinâmica do contágio, sobretudo, na Amazônia, e crucial no caso do estado do Acre, historicamente excluído na geografia regional brasileira. É no interior que a pandemia revela sua face mais vil, haja vista, a limitação da oferta dos serviços públicos de saúde, mesmo que o governo estadual busque aumentar a oferta desses serviços.

 

Mapa 4: Casos confirmados de COVID-19 e Municípios por Índice de Desenvolvimento Humano no estado do Acre – Acumulado 25/08

 

No caso das mortes por COVID-19, no estado são 651 sendo 70% (456 casos) pessoas acima de 60 anos. De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (SESACRE), do total acumulado de mortos, 431, ou seja (66,2%), tinham alguma comorbidade e outras 220 pessoas, 33,8%, que evoluíram para o óbito não possuíam histórico de comorbidades. Todo esse panorama de casos confirmados que abarrotam as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do estado que já estão com a taxa de ocupação acima dos 90%

 

Gráfico 1: Distribuição do número de óbitos diários e curva acumulada por covid-19. Acumulado 22/09/2020

 

Entendamos o seguinte: o mundo será outro pós-pandemia novas relações econômicas, sociais, culturais estão nesse momento sendo redesenhadas para uma nova sociedade surgirá quando encontrarmos uma vacina. Por agora, o que temos de pensar, sobretudo para nós brasileiros, é entender decisivamente que a pandemia deve ser vista do ponto de vista regional, e, olhar o fator regional no Brasil é pensar os desafios colocados social e economicamente nos territórios dispostos em um país, que tem sua estrutura social desigual, atrás apenas dos países africanos, portanto, isso torna-se uma questão chave. Vimos, ao longo deste ano, a subida vertiginosa curva epidemiológica Brasil aliada a uma irresponsabilidade de gestores públicos em minimizar o efeito da crise sanitária que nos rondava desde o fim do ano de 2019.

Passado esse tempo, os seis meses, as centenas de milhares de mortes no país, as 651 mortes que o estado Acre compõe mórbida e regionalmente a taxa de mortalidade do novo coronavírus, até aqui o que fica evidente é que o Brasil, optou por adotar um contágio regional, adquirir uma imunidade de rebanho com um número de mortes altíssimo. Os vivos respiram de acordo com privilégios sociais e regionais dançando no escuro com as retomadas das atividades econômicas e consequente queda do isolamento social, enquanto isso, o Presidente da República, ao invés de executar uma resposta séria e de calibre nacional a crise que a pandemia trouxe, oferece cloroquina para as emas no Palácio do Alvorada, e, mais recentemente, prefere disparar delírios sobre sua gestão patética da crise da COVID-19, no 75º Encontro da Organização das Nações Unidas.

 

O texto faz parte do projeto “Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid-19 no Brasil” coordenado pela pesquisadora Luciana Santana (Ufal) junto a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).

 

REFERÊNCIAS

Boletim Sesacre – 22/09/2020 Boletim informativo diário situação epidemiológica da COVID-19 – https://bit.ly/2RWxsst

Data SUS – COVID-19 – Ministério da Saúde Insumos – https://covid.saude.gov.br/

Folha de São Paulo – Cinco estados têm mais 90% dos leitos de UTI ocupados – https://bit.ly/2XRkVuu

Minas Gerais é o estado brasileiro que aplicou menos recursos em saúde durante a pandemia – https://glo.bo/2YDj4cs

IBGE – Cidades – Rio Branco – https://bit.ly/3caJcjA

Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) – https://covid19.healthdata.org/brazil/acre

Portal da Prefeitura de Rio Branco – Portal da Prefeitura de Rio Branco – Decretos e Notícias Corona vírus – https://bit.ly/3c8rP3d

Confins, « Fatores associados a difusão da epidemia de Covid-19 », Confins [Online], 46 | 2020, posto online no dia 05 julho 2020, consultado o 15 julho 2020. URL : http://journals.openedition.org/confins/31101

Folha de São Paulo – Cinco estados têm mais 90% dos leitos de UTI ocupados – https://bit.ly/2XRkVuu

Tomas Pueyo – Coronavirus: The Hammer e the Dance – https://bit.ly/2WjnPH0

 

 

 

 

 

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