O contágio do resto

O contágio do resto

REDAÇÃO

07 de agosto de 2020 | 16h41

Prof. Dr. Cristovão Henrique, Doutor em Geografia Econômica pela (UFGD), Pós-Doutor em Geoeconomia pela UFG – e Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC).

 

Completaremos quatro meses de epidemia do novo coronavírus no Brasil e desde então temos perseguido o tal achatamento da curva epidemiológica que continua ascendente no país. Com cenário pandêmico novo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), juntamente a virologistas, epidemiologistas recomendaram aos países medidas de contenção da pandemia para evitar o estresse dos seus respectivos sistemas de saúde e funerários. Somado a isso, ao longo desses meses, debatemos em outros textos, que a pandemia no Brasil deve ser enfrentada ponto de vista regional, porque ela está embutida na dimensão territorial/regional da sociedade seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.

Entretanto, para além dessa questão regional, no início do contágio nas Américas, o Engenheiro Tomas Pueyo, escreveu o artigo The hammer and the dance [1](O martelo e a dança, em tradução livre), na análise o autor propôs que cada país, deveria definir estratégias para a contenção da pandemia acertando a curva epidemiológica com um martelo, ou seja, implementando medidas severas de restrição da mobilidade social com isolamento, quarentena e lockdowns para que a propagação exponencial fosse contida, depois disso, os dirigentes deveriam estabelecer medidas e protocolos de convívio com o novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Convívio que foi entendido, na proposta, como uma dança que praticamente consistia em adoção de normas de biossegurança, iniciativas educacionais para a população de modo geral e controle sanitário rígido evitando aglomerações poupando vidas até o surgimento de uma vacina, evitando assim, o impacto mais severo da pandemia no mundo como mostra gráfico 1.

 

Gráfico 1: Esquema do martelo e a dança – the hammer and the dance.

Pois bem, no Brasil, um quadrimestre depois temos a realidade em imposta pela pandemia que se revelou com um padrão territorial, o colapso na região Norte, representado por Manaus (AM) e suas valas coletivas, evidenciou qual seria o tom desse colapso regional da saúde pública e do sistema funerário como bem expõe o mapa 1, cuja cor azul, mostra a situação dos municípios com casos a cada mil habitantes, sobretudo, na região Norte do país que, concentram-se atualmente, julho de 2020, cerca de 21% dos casos de confirmados.

Agora, como já debatemos em outra ocasião, [2]a pandemia caminha sobre nossas estruturas rodoviárias, ferroviárias e hidroviárias em direção ao interior país revelando 27 outras pandemias, representadas nas unidades federativas, que possuem peculiaridades socioeconômicas, históricas e geográficas que impõem uma resposta coordenada e estratégica. Porém, a incompetência do Governo Federal em criar uma resposta de calibre nacional para a pandemia colocou o Brasil na rota dos 100 mil mortos, e, por isso os governos estaduais e municipais se viram neutralizados nas suas iniciativas institucionais de criarem, com suas políticas públicas, os martelos para achatar a curva de contágio e, assim retirar do cálculo de óbitos, aquelas que poderiam ser mortes evitáveis.

 

Mapa 1: Casos confirmados da pandemia de COVID-19 no Brasil (30/06/2020)

Fonte: Hervé Thery.

No Brasil, quando as medidas dos governos estaduais e municipais foram implementadas, houve um leve achatamento da curva, porém, em meio as trapalhadas do Governo Federal que não possui diretriz de enfrentamento a pandemia, a curva de contágio continuou ascendente nas regiões metropolitanas das grandes cidades brasileiras. Por exemplo, no início de junho de 2020, das 34.0726 vítimas fatais da pandemia, estavam concentradas em 6 metrópoles brasileiras, Belém/PA, Recife (PE), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo representando cerca de 45% das mortes por COVID-19[3]. Agora, na 29ª semana epidemiológica de propagação do vírus, a doença entra em uma fase delicada de interiorização em direção aos municípios que não possuem estrutura no Sistema Único de Saúde (SUS) para suportar o estresse gerado com a necessidade de internação dos pacientes mais graves. No campo da análise das políticas públicas parece que o Brasil adotou como estratégia, a partir de agora, do contágio do resto, no sentido de contaminar o restante do Brasil, interiorizando a tragédia.

Ainda assim, na proposta do Martelo e a dança, após a queda de número de infectados, começa a dança até que tenhamos a vacina, instituindo medidas duras orbitando em torno da taxa de transmissão do vírus (R) que deve ficar abaixo de 1. Com isso em mente, a dança brasileira, isto é, a flexibilização das ações de redução do contágio, inicia-se em uma espécie de platô altíssimo de mortes diárias, algo em torno de 1.042, enquanto o interior assiste a uma escalada de propagação rápida.

Do ponto de vista regional, em breve as grandes cidades brasileiras e, até os polos regionais, terão de voltar atrás em relação as medidas de flexibilização já que a medida que a doença se interioriza são nas regiões metropolitanas que estão as unidades de tratamento intensivo (UTIs), por isso, o deslocamento geográfico de sintomáticos se torna inevitável.

No caso específico do extremo Oeste da Amazônia Ocidental, o estado do Acre, no campo institucional desenhou suas políticas públicas de modo satisfatório no combate a pandemia. Entretanto, analisando estrategicamente, o Acre deveria ter utilizado sua característica territorial de ser isolado, um lugar pejorativamente cunhado de inexistente no território brasileiro e mantido suas políticas de contenção, criado o martelo de achatamento da curva e conseguido sua dança. Porém, os disparates emanados de Brasília acertaram precisamente as medidas dos Governos Estadual e Municipal, promovendo uma baixa adesão da população ao isolamento social que, apenas no início da quarentena ficou acima dos 60%, atualmente, segundo o Google, o isolamento no estado do Acre ronda a casa dos 40%.

Assim, para termos uma ideia, aproximadamente, a cada dois testes realizados, após a notificação do caso, um é positivo. Até o momento no Acre, são 50.862 casos notificados, (5%) do total da região norte, com 29.371 (57%) casos descartados e outros 21.263 (42,7%) confirmados e outros 228 (0,4%) seguem aguardando resultado de exame laboratorial. Onde está a questão regional nesses números? No Acre, entorno da capital, estão os municípios com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do estado aliado aos maiores números de contágio, isto é, como no Brasil como um todo, as áreas mais populosas possuem a maior taxa de contágio, em seguida a interiorização dos casos é iniciado, o tom regional reside nesse ponto, porque, assim como os municípios, nenhuma das unidades federadas do Brasil detém uma reação homogênea da pandemia porque o novo coronavírus não respeita os limites políticos administrativos da gestão pública (Mapa 2).

Mapa 2: Casos confirmados de COVID-19 e Municípios por Índice de Desenvolvimento Humano no estado do Acre – Acumulado 06/08.

 

A outra ponta da análise da pandemia, que são as mortes por COVID-19, no estado são 552 sendo 65,9% (335 casos) pessoas acima de 60 anos. De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado (SESACRE), do total acumulado de mortos, 67,4, ou seja (70,0%), tinham alguma comorbidade e outras 180 pessoas, 32,6%, que evoluíram para o óbito não possuíam histórico de comorbidades[4]. Todo esse panorama de casos confirmados que abarrotam as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) do estado que já estão com a taxa de ocupação acima dos 90%[5] (Mapa 3).

Assim, o contágio regional segue o padrão de interiorização para os municípios menos estruturados, enquanto a capital Rio Branco, epicentro da doença começa entrar em rota de flexibilização. A média móvel dos dados da pandemia no Brasil apontam o Acre com um decréscimo de mortes de (-18%) junto com Rio de Janeiro (RJ), Pará (PA) e Rio Grande do Norte (RN), ainda assim, é incipiente ensaiar uma dança de retomada das atividades econômicas no estado, mesmo que na prática, haja uma percepção de que o pior passou. No caso específico das mortes causadas pela COVID-19, por exemplo, os municípios com maior índice de desenvolvimento humano, no critério longevidade, são os mesmos que apresentam os maiores números de casos de mortes. Naturalizar esse dado é naturalizar a morte por si só, sobretudo, dos mais pobres do interior como mostra o mapa 3.

 

 

Mapa 2: Mortes confirmadas de COVID-19 e Municípios por Índice de Desenvolvimento Humano – Critério Longevidade no estado do Acre – Acumulado 06/08.

 

Mesmo com esse cenário, com uma leve martelada na média móvel de mortes, e com a interiorização dos casos o Governo Estadual lançou, no dia 22 de junho, o Pacto Acre Sem COVID, cuja ideia central é retomar as atividades econômicas com protocolos de biossegurança. A chance de dar certo é quase nula, sem vacina, não tem como pensar uma dinâmica social e territorial sem a COVID-19. Tal como para o Brasil como um todo, no estado do Acre, que existe, respirar é um privilégio e o contágio do resto é uma prioridade.

Cristovão Henrique – Geógrafo e Internacionalista – Professor do Curso de Geografia do CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre (UFAC). E administra o site geoeconomico.com.br

 

 

REFERÊNCIAS

 

Boletim Sesacre – 06/08/2020 Boletim informativo diário situação epidemiológica da COVID-19 – https://bit.ly/3ii8z5K

Data SUS – COVID-19 – Ministério da Saúde Insumos – https://covid.saude.gov.br/

Folha de São Paulo – Cinco estados têm mais 90% dos leitos de UTI ocupados – https://bit.ly/2XRkVuu

IBGE – Cidades – Rio Branco – https://bit.ly/3caJcjA

Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) – https://covid19.healthdata.org/brazil/acre

Portal da Prefeitura de Rio Branco – Portal da Prefeitura de Rio Branco – Decretos e Notícias Corona vírus – https://bit.ly/3c8rP3d

Confins, « Fatores associados a difusão da epidemia de Covid-19 », Confins [Online], 46 | 2020, posto online no dia 05 julho 2020, consultado o 15 julho 2020. URL : http://journals.openedition.org/confins/31101

 

[1] Tomas Pueyo – Coronavirus: The Hammer e the Dance – https://bit.ly/2WjnPH0

[2] Questão regional da pandemia no extremo Oeste brasileiro – https://bit.ly/2NtC4V5

[3] 6 capitais que concentram 45% das mortes por Covid-19 flexibilizam quarentena; https://glo.bo/2Wn9I3t

[4] Boletim Sesacre – 13/07/2020 Boletim informativo diário situação epidemiológica da COVID-19 – https://bit.ly/3h54OzV

[5] Folha de São Paulo – Cinco estados têm mais 90% dos leitos de UTI ocupados – https://bit.ly/2XRkVuu

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: