O combate à Covid no estado do Paraná: o isolamento social insuficiente e o aumento do contágio

O combate à Covid no estado do Paraná: o isolamento social insuficiente e o aumento do contágio

REDAÇÃO

01 de julho de 2020 | 11h46

Luiz Fernando Vasconcellos de Miranda – Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Transparência Brasil. É professor visitante da Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA) onde atua nos cursos de Administração Pública e Políticas Públicas e no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento. Contato: lfmiranda2005@yahoo.com.br

 Rodrigo Rossi Horochovski – Doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua no curso de Administração Pública e nos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política e em Desenvolvimento Territorial Sustentável. Está vinculado ao Laboratório de Análise de Redes (LAR-UFPR) e ao Laboratório de Análise do Campo Científico (LaCC-UFPR), do qual é coordenador. Contato: rodrigoh33@gmail.com

 Maiane Bittencourt – mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisadora vinculada ao Laboratório de Análise do Campo Científico (LaCC-UFPR) e ao Observatório de Elites Políticas da Universidade Federal do Paraná. Contato: maiane.ctba@gmail.com

 

 

Com um IDH-M de 0,792, o Paraná ocupa a quinta posição em desenvolvimento humano entre as unidades federativas do Brasil. Seus indicadores de expectativa de vida – 77,7 anos, sexta maior do país – e mortalidade infantil – taxa de 8,9 ‰, segunda menor – são melhores que as médias nacionais (respectivamente, 76 anos e 12,4 a cada mil nascidos vivos, segundo o IBGE) e podem ser tomados como proxies das condições sociais e sanitárias do estado. Esta breve caracterização permite-nos entender melhor como a infraestrutura e os indicadores sociais do estado auxiliam o enfrentamento da atual pandemia do coronavírus.

Neste relatório, usamos dados da Secretaria de Saúde do Paraná (SESA/PR) e notícias oficiais do governo do estado e da mídia. As análises têm três enfoques: o primeiro são os números oficiais da Covid-19; o segundo discute, mediante outros indicadores, até que ponto tais números espelham o que efetivamente acontece no estado em relação à pandemia e o terceiro aponta para o fato de reaberturas mal desenhadas poderem impactar no aumento de casos de Covid-19 no estado. Além disso, quando necessário, nos remetemos à cronologia recente do problema.

Quando olhamos o retrato atual, o Paraná aparenta ter um bom resultado. Com 22.623 casos; 636 óbitos; 197,86 casos por 100 mil habitantes e 5,56 óbitos por 100 mil habitantes, o estado está entre os menos afetados pelo coronavírus, seja no número de casos, seja de óbitos, principalmente quando os números são relacionados à população.

 

GRÁFICO 1.1 – Número absoluto de Casos e Óbitos por UF (30/6/2020)

 

 

GRÁFICO 1.2 – Número de casos e óbitos por cem mil habitantes (30/6/2020)

 

 

Constatação semelhante advém quando analisamos o estado isoladamente. Considerando a trajetória da covid-19 em uma perspectiva temporal, entre os primeiros casos e óbitos, registrados em março, até a segunda quinzena de abril, o Paraná vinha obtendo um bom desempenho no controle da pandemia e de seu avanço. Isso pode ser observado no gráfico 2. A disposição dos dados em escala logarítmica permite vislumbrar três tendências: crescimento acentuado até 6 de abril; até 16 de maio, redução do ritmo de aumento, tendente à desejada estabilização dos números que antecede a melhoria do cenário e com o chamado achatamento da curva; e, desse dia em diante, a curva ascendente começa a se acentuar lentamente.

 

GRÁFICO 2 – Números absolutos de casos e óbitos – Paraná (em escala logarítmica)

 

 

Como se chegou a esta situação? O estado tomou providências importantes antes mesmo de registrar óbitos. As duas primeiras mortes no estado aconteceram em 27 de março. Duas semanas antes, no dia 12, quando o primeiro caso foi registrado, medidas começaram a ser tomadas, como a assinatura, pelo governador Ratinho Junior, de decreto proibindo eventos culturais e autorizando o trabalho remoto para parte dos servidores públicos. No dia seguinte, novo decreto suspendeu aulas nas escolas e nas universidades do estado. No dia 20 de março, o governo decretou estado de emergência, regulamentando atividades essenciais e determinando o fechamento do comércio. As principais cidades paranaenses, especialmente a capital, Curitiba, seguiram inicialmente a mesma linha de ação.

Em suma, é possível dizer que em março e até meados de abril o Paraná agiu na contramão do próprio governo federal, conseguiu antecipar-se e evitou o quadro mais agudo que se instalou em outros estados. Como seria de se esperar, o estado busca capitalizar politicamente este bom desempenho. Como exemplo disso, no dia 19 de maio, a Agência Estadual de Notícias, órgão oficial de comunicação do governo do estado, publicou matéria sob o título “Paraná tem menor taxa de crescimento da Covid-19 do Brasil”.

Até aqui nos baseamos nos dados oficiais sobre a covid-19. Há elementos, porém, que sinalizam os limites desta análise.

Os indicadores gerais de mortalidade também são importantes nesta análise. A título de exemplo, entre abril de 2019 e abril de 2020, houve um crescimento de 2.162 óbitos1, fenômeno que acontece em todo o país, a despeito do isolamento social, que levaria a uma tendência de redução de certos tipos de óbitos, especialmente os provocados por causas externas (homicídios, acidentes de trânsito e trabalho, entre outros).

Outro indicador sugere que os números da covid-19 podem estar sendo subestimados no Paraná: os óbitos registrados como de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Os gráficos 3.1 e 3.2 trazem a comparação entre meses de 2020.

 

GRÁFICO 3.1 – COMPARATIVO DE MORTES SARG 20202 (Série Temporal)

 

 

GRÁFICO 3.2 – COMPARATIVO DE MORTES SARG 2020 (Colunas)

 

 

Chamamos atenção, portanto, para um possível descaso com a subnotificação, que pode ter levado o governador a permitir que prefeitos fizessem reaberturas sem os devidos critérios técnicos. Conseguimos enxergar que grupos de pressão atuam fortemente para reaberturas de comércio e demais setores não essenciais. Todavia, ainda não entendemos bem os mecanismos que levam um chefe do Executivo a abrir mão de normas técnicas, o que trará um custo futuro, em nome de reaberturas que são como voo de galinha, com resultados de curta duração.

Voltando ao mérito técnico, outro aspecto problemático no Paraná, e no Brasil como um todo, é a baixa testagem. Embora o estado tenha ampliado significativamente o número de testes de detecção do coronavírus, os números seguem tímidos e, até o dia 29 de junho, foram realizados 896 testes por 100 mil/hab., segundo o Informe Epidemiológico da Secretaria de Saúde do Paraná (SESA/PR). É muito aquém dos países que mais testam no mundo (Portugal e Espanha, por exemplo, testam mais de 5 mil/100 mil)3. Os dados do Paraná podem ser observados nos gráficos abaixo.

 

GRÁFICO 4.1 – Testagem de Covid-19 (Números Totais)

 

 

GRÁFICO 4.2  – Testagem de Covid-19 (por 100 mil/hab)

 

 

O problema da dinâmica de combate ao Covid-19 é que agentes públicos paranaens­es, principalmente nos executivos estadual e municipal, podem ter tomado decisões baseadas em números que não retratam fielmente a situação no Paraná. Nas últimas semanas, ocorreram vários movimentos de flexibilização do isolamento social e de reabertura do comércio. Houve reuniões do governador com o empresariado para discutir regras de retomada e ações paulatinas de reabertura, como o estabelecimento de protocolos para cultos religiosos. É a resposta que os governos vêm dando a pressões tanto do governo federal, quanto de grupos e organizações representando setores econômicos. Nos últimos dias, as curvas de casos e óbitos voltaram a crescer, indicando que esta pode não ser a melhor resposta.

Como consequência do aumento do contágio, provavelmente em função de reaberturas mal programadas, o governador Ratinho Junior (PSD) determinou, no dia 30 de junho, que fosse decretado um período de isolamento social mais restritivo com abertura somente do comércio essencial. O decreto alcança sete regiões administrativas e pode ser expandido para outras regiões administrativas, em caso de necessidade. Cornélio Procópio, Cianorte, Toledo, Cascavel, Foz do Iguaçu, Londrina e a região metropolitana de Curitiba são as áreas cobertas pelo documento estadual.4 Em resumo: este último decreto parece indicar que as reaberturas anteriores não foram boa solução nem para a questão econômica e muito menos para o problema sanitário.

 

*O artigo faz parte doe projeto em parceria com a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e intitulado ‘Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid19 no Brasil’. O projeto tem a coordenação da professora Luciana Santana da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).  Esta é uma versão elaborada a partir de texto publicado no site da ABCP em 8 de junho de 20202 no seguinte link: https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/06/especial-abcp-acoes-parana-enfrentamento-pandemia.

 

Notas:

(1) Disponível em https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2020/05/12/numero-de-obitos-no-brasil-nao-caiu-15-mil-em-abril-houve-aumento-de-2.htm>, acesso em 5/6/2020, acesso em 5/6/2020

(2) Outros dados em https://paranaportal.uol.com.br/cidades/coronavirus-mortes-srag-crescem/>

(3) Disponível em https://ciis.fmrp.usp.br/covid19/analise-brasil-e-mundo-testes/>, acesso em 5/6/2020

(4) Disponível em https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2020/06/30/ratinho-junior-anuncia-quarentena-mais-restritiva-para-combater-a-covid-19-no-parana.ghtml />, acesso em 30/06/2020

 

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