O cobertor de Bolsonaro está ficando curto

O cobertor de Bolsonaro está ficando curto

REDAÇÃO

25 de junho de 2021 | 16h12

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA. Pesquisador FGV-EAESP

Jair Bolsonaro está completando o 5.o semestre de seu mandato, restando, portanto, apenas três. Pensando em termos da próxima eleição presidencial falta menos ainda, pouco mais de um ano. Assim, se o presidente quer atender seu eleitorado tem agora um tempo reduzido, e cada vez mais, para entregar algo que o torne competitivo na próxima disputa.

Não há dúvida que Bolsonaro nunca escondeu seu viés antidemocrático, acenando recorrentemente, com possibilidades de quebra da ordem democrática. Ele respeita a democracia desde que seja o vencedor da eleição. Transcorrido esse tempo de mandato, já deve ter caído em si que este caminho revela-se mais difícil do que imaginava ao início. Mesmo se blindando ao colocar seguidores fiéis em cargos chave da República, caso mais notório e vergonhoso o da PGR, os planos autoritários do mandatário não fluíram. Recorre, então, a uma aliança com o Centrão, grupo repelido por ele e seu staff durante a campanha, mas que expressava cristalinamente quem era Jair Bolsonaro. O importante é construir uma barragem na Câmara contra qualquer pedido de impeachment contra o governo da família Bolsonaro.

Nos últimos tempos, adiciona outra estratégia, revelada de maneira cifrada, como soe fazer, de que está e estará sempre ao lado do povo, o que o leva a tomar parte em mobilizações a seu favor, no Rio e em São Paulo, realizadas em cima de duas rodas com apoiadores sem os pés no chão.  Esses dois eventos, no entanto, não lograram juntar um número apreciável de apoiadores, impressionando mais pelo aspecto performático, um Easy Rider às avessas.  Ainda deve ser comentado que esse tipo de manifestação é uma fatia mínima do que pode ser pensado como povo. Esses recados vêm sempre quando o presidente encontra-se em apuros e a suposta ação a ser tomada seria uma resposta a um chamamento do povo.

Essa questão merece um mergulho na História, de modo a buscar algumas lições e aprender com elas. Jânio Quadros valia-se de bilhetes (bilhetinhos) para seus assessores. Algumas vezes o teor dos mesmos era sua renúncia. Seus acólitos acabavam ignorando-os, até que um deles acabou sendo encaminhado ao Congresso e a renúncia de Jânio se consumou. Recolheu-se à base aérea de Cumbica (local do Aeroporto Internacional de Guarulhos) ficando à espera do povo para conduzi-lo, com poderes extraordinários, ao poder. O povo não lhe respondeu e gerou-se uma crise gigantesca que deu no que se sabe. A expectativa era que o povo que o havia consagrado com uma votação espetacular não o abandonaria.

Outro episódio que também nos aporta aprendizagem encontra-se no governo Collor. Este, sentindo que o cerco do impeachment se fechava conclamou, em frase famosa, para que o povo não lhe deixasse só. Não deu outra, ficou sozinho também. Bolsonaro parece seguir o mesmo figurino. Eleito com 55% dos votos acredita que o povo não lhe faltará também. Jânio tinha apenas oito meses de mandato e não havia feito nada que conspirasse fortemente contra as expectativas de seu eleitorado. Collor de Mello, por sua vez, já se aproximava do fim do mandato, lembrando que as ações mais violentas tinham ocorrido ao início do mesmo. Bolsonaro aproxima-se da parte final do seu período e não tem efetivamente um portfólio de ações positivas a oferecer à Nação, muito pelo contrário, prima pela prevaricação, omissão e ações destrutivas em qualquer campo que se examine.

O que os três governantes compartilham é uma visão autoimpingida de salvadores da pátria e messiânicos, sendo, na verdade, para dizer o mínimo, autocráticos e histriônicos. Olhando, retrospectivamente, no entanto, os dois primeiros não conseguiram viabilizar seus projetos. Jânio porque não teve tempo suficiente para tanto e tentou uma espécie de autogolpe que não vingou. Collor não tinha estofo suficiente para se manter na presidência  sendo totalmente abandonado. O case Bolsonaro tem outro pedigree: após uma carreira militar frustrante, o ex-capitão emergiu para falar em nome daqueles que perderam posições com o projeto militar ditatorial abortado por Geisel e pela pressão feita pela sociedade civil a partir de meados dos anos 1970. Cerca-se de um número absurdo de militares em postos chave da administração que aderem a seu projeto, talvez mais por razões pecuniárias do que ideológicas.

Assim, entendemos o estado da arte da seguinte forma: o presidente tenta se blindar e aos seus zeros com (i) o Centrão;  (ii) os militares  e (iii) as recorrentes ameaças vagas e indefinidas convocando o povo. O povo, que fez ouvidos moucos a Jânio e Collor, poderá lhe faltar também, ainda mais porque já vem se tornando rarefeito. Por mais obtuso que seja o presidente, já deve ter percebido que a economia não se recuperará a tempo e na intensidade para lhe dar sustentação eleitoral em 22, como tampouco o auxílio emergencial será suficiente para capturar o eleitorado da massa de desfavorecidos.

Desta forma, nuvens carregadas cobrem o mundo paralelo bolsonariano. O cobertor está ficando curto para Bolsonaro agasalhar quem pode sustentá-lo no poder, e quiçá, pleitear uma reeleição, longe agora de certa. E o inverno mal começou. A CPI da Covid 19 parece ser um divisor de águas. O desenrolar das investigações da Comissão, com comportamento para além das mais otimistas expectativas, está gerando um resultado que fica inevitável um impeachment. Essa hipótese só se robustece com o descobrimento de atos suspeitos embebidos em corrupção na compra de vacina indiana, com um açodamento estranho para um governo que fez o que pode para não comprar qualquer vacina.

A cotação do Centrão deve subir bastante, mas também tem um limite. Partindo de uma metáfora desprezível (qual não é?) de Jair Bolsonaro quando disse que não era coveiro, podemos dizer que o Centrão “não pega em alça de caixão”, e, assim, poderá lhe abandonar quando sentir que terá mais a perder do que a ganhar mantendo o apoio ao ex-capitão. As pesquisas eleitorais mais recentes já mostram uma queda abrupta do presidente e dificilmente dará para abrir o paraquedas.  Esse quadro de não o deixará em situação nada confortável o que poderá levá-lo facilmente à perda da têmpera, coisa nada difícil de acontecer, juntando mais elementos para seu impeachment.

Ainda da lavra da CPI e de tudo já conhecido a priori, pode-se extrair com clareza absoluta o comportamento genocida do presidente com sua postura negacionista contra as vacinas e ao defender remédios inapropriados para o enfrentamento do vírus, negando o uso de máscaras, não mantendo o distanciamento físico. A única coisa que faz, parece, é lavar as mãos. Como um traço característico de Bolsonaro é quebrar marcas do absurdo, ao pegar uma criança no colo e retirar-lhe a máscara bem como incentivar o mesmo com uma garota, no RN, revela-se uma ameaça à saúde pública. Medidas profiláticas para coibir esse absurdo têm que ser tomadas.

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