O Brasil na corrida global da inovação: avanços e desafios

O Brasil na corrida global da inovação: avanços e desafios

REDAÇÃO

17 de setembro de 2020 | 14h31

Pedro Cavalcante, Doutor em Ciência Política e Professor de Pós-graduação da Enap e IDP.

 

É cada vez mais consensual entre acadêmicos e líderes dos setores público e privado que a capacidade inovadora de uma nação é fator essencial na direção da prosperidade, devido aos impactos positivos sobre a competitividade, produtividade e crescimento econômico. A inovação, compreendida como novos produtos, serviços, processos ou modelos de negócios colocados em uso, comercialmente ou não, também pode contribuir no enfrentamento de desafios sociais urgentes e em melhorias na qualidade de vida dos cidadãos[1]. Durante a pandemia da Covid-19, se por um lado, as economias são afetadas pela drástica queda de consumo e investimentos em novos projetos, por outro, abrem-se janelas de oportunidades para certos setores, como o que vem ocorrendo nas inovações disruptivas de saúde, teletrabalho, educação e e-commerce, cruciais no combate à atual crise humanitária.

Não obstante, a construção de um Sistema Nacional de Inovação (SNI) que alcance esses objetivos é um processo sempre desejado, mas pouco alcançado pela maioria dos países. Trata-se de um fenômeno de longo prazo, complexo e, sobretudo, multicausal, que pressupõe a combinação de um conjunto abrangente de fatores complementares. O bom funcionamento do SNI demanda uma variedade de papéis do Estado, tais como agente, financiador, regulador e promotor de competências e práticas inovadoras. Essas funções, todavia, são crescentemente formuladas e implementadas mediante estratégias colaborativas, principalmente, entre organizações públicas, indústria e universidades.

Outro consenso envolve a heterogeneidade entre países e regiões do mundo no tocante às capacidades, condições e desempenhos na inovação. Esses padrões desiguais podem ser facilmente percebidos, por exemplo, no Índice Global de Inovação – IGI (Global Innovation Index). Sua nova edição foi lançada recentemente com foco nas análises acerca dos desafios de financiamento, diante do cenário generalizado de crise econômica[2]. Desde 2013, o IGI mensura o caráter pluridimensional da inovação em cerca de 130 países nos cinco continentes, com base em oitenta indicadores agrupados em sete pilares – cinco de insumos – inputs para inovação (II) e dois de produtos/resultados –outputs (PI), conforme detalhado na figura 1 a seguir:

 

Figura 1 – Estrutura dos Indicadores do IGI

Fonte: Global Innovation Index (https://www.globalinnovationindex.org).

 

O Índice Global de Inovação (IGI) consiste na média aritmética entre os subíndices II e PI, enquanto a Taxa de Eficiência de Inovação (TEI) reflete a razão entre eles, ou seja, a capacidade da economia em traduzir a sua estrutura (ou fatores determinantes) de inovação em produtos, serviços e/ou negócios inovadores.

O ranking da edição de 2020 trouxe poucas mudanças significativas, com a recorrente liderança dos países de alta renda per capita, pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com grandes investimentos em P&D e produtores de inovação de alto valor agregado. A exceção ficou por conta da China, 14º no IGI, mas que vem elevando o quantitativo de clusters de alta tecnologia, além de se destacar na primeira colocação da Taxa de Eficiência de Inovação (TEI), o que provavelmente sinaliza para um avanço do posicionamento desse gigante asiático no índice de produtos inovadores no curto prazo.

E nessa corrida por inovação, como anda o Brasil? O panorama nacional também é de relativa estabilidade com pontos negativos e positivos. Como é possível visualizar no gráfico a seguir, em 2020, o Brasil ficou na 62º posição no IGI (59º em insumos e 64º em produto) com uma crescente melhora nos últimos três anos e, praticamente, retornou ao patamar de 2014, quando obteve o melhor desempenho no índice. O país obteve a quarta posição na América Latina e apenas a 16ª entre as trinta e sete nações de renda média-alta, o que pode ser considerado um desempenho decepcionante, haja vista suas potenciais vantagens territorial e econômica em comparação aos seus vizinhos e demais emergentes. Todavia, o mais preocupante é a TEI (74º), que apesar das melhoras recentes, ainda é o nosso pior indicador e demonstra a ineficiência nacional em converter seus insumos em inovações de fato.

 

Figura 2 – Brasil no Ranking do Índice Global de Inovação, 2013-2020[3]

Fonte: Global Innovation Index (https://www.globalinnovationindex.org).

 

Outro aspecto que chama a atenção é a heterogeneidade na performance do Sistema Nacional de Inovação brasileiro. A análise detalhada do relatório reitera significativas variações nos escores e posicionamentos em praticamente todos os pilares desse indicador composto[4]. Do lado das fragilidades, gargalos históricos e persistentes se apresentam como obstáculos de distintas naturezas à capacidade inovadora tanto de firmas quanto do setor público, entre eles, a qualidade da educação básica, dificuldades em abrir novos negócios, acesso ao crédito e a infraestrutura geral do país. Do lado das potencialidades, destaque para os gastos com educação e C&T, produção e absorção de conhecimento científico, bem como os progressos nos indicadores de serviços públicos digitais e governo aberto.

Esse panorama ambíguo e também desafiador reforça a necessidade de estratégias holísticas e integradas no sentido de superar o conhecido paradoxo da inovação[5], comum nos países subdesenvolvidos. Em outras palavras, a situação em que se reconhece a magnitude das falhas de mercado dessas economias, porém os governos carecem de capacidades de formular e implementar programas eficazes na construção de condições e competências propícias às práticas inovadoras.

Portanto, a despeito das limitações metodológicas e teóricas de indicadores complexos[6], o IGI se apresenta como uma ferramenta relevante para a compreensão dos problemas e das potencialidades dos ecossistemas de inovação. Essas informações e dados qualificam os debates e ajudam os líderes empresariais na definição de investimentos e modelos de negócios, como também os dirigentes nas decisões sobre prioridades de ações governamentais, em tempos de políticas públicas baseadas em evidências.

 

[1] Ver Cirera et al. (2020) A Practitioner’s Guide to Innovation Policy. Instruments to Build Firm Capabilities and Accelerate Technological Catch-Up in Developing Countries. Washington, DC: World Bank.

[2] https://www.globalinnovationindex.org/gii-2020-report#.

[3] O ranking do TEI de 2019 é a média do ano anterior e posterior, uma vez que nesse ano não foi calculado.

[4] https://www.globalinnovationindex.org/analysis-economy.

[5] Cirera, X., & Maloney, W. F. (2017). The innovation paradox: Developing-country capabilities and the unrealized promise of technological catch-up. The World Bank.

[6]Andrews, M. (2008). The Good Governance Agenda: Beyond Indicators without Theory, Oxford Development Studies, 36:4, 379-407.

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