O atentado em Toronto e o investimento em policiais: lições para o Brasil

REDAÇÃO

25 de abril de 2018 | 20h06

Rafael Alcadipani, é professor de estudos organizacionais da EAESP FGV e colaborador do Forum Brasileiro de Segurança Pública.

 

Uma das grandes cidades mais pacatas e seguras do mundo do mundo, Toronto, assistiu, nesta semana, um estudante de 25 anos usar uma van branca para atropelar inúmeros pedestres matando 10 e ferindo 15 pessoas. As vítimas na sua maioria são mulheres e o estudante teria feito comentários misóginos pouco antes do ataque.

Diante desta carnificina, ganhou as páginas de um dos mais prestigiados jornais do mundo, o The New York Times, a ação dos policiais de Toronto ao prender o criminoso. O suspeito do ataque sai da van, aponta um objeto para o policial como se uma arma fosse e, aos berros, pede para que o policial atire em sua cabeça. O agente da lei mantém o sangue frio, desliga a sirene da sua viatura. O suspeito diz possuir uma arma no bolso e faz um movimento como se sacasse uma arma com a mesma mão que segurava o objeto – o suspeito não está armado. O policial se aproxima, troca a sua pistola por um bastão retrátil e prende o suspeito que já está encarcerado e irá responder na Justiça pelas 10 mortes e 15 tentativas de homicídios. Vale frisar que cotidianamente policiais brasileiros resolvem ocorrências de risco sem ter que neutralizar fatalmente o suspeito, embora isso raramente gere notícia.

Uma breve visita ao site da Polícia de Toronto mostra que um policial do município recebe de salário, enquanto está em fase de treinamento, para cerca de $ 60.000 dólares canadenses por ano, o equivalente a R$13.000 por mês. No último nível da carreira, o policial irá receber cerca de R$ 22.000 por mês. Estes são o salário base sem as incorporações financeiras por ocupar posição de chefia, por exemplo. O diferencial se dá na extensa lista de benefícios para o policial: plano de saúde  para o policial e sua família, plano de saúde dental para o policial e sua família, plano de cuidado para visão e ouvidos, cartão para a compra de remédios, seguro de vida, acesso a planos de crédito que oferecem juros subsidiados para o empréstimo de dinheiro e aquisições de bens, esquema de aposentadoria diferenciado, plano de apoio psicológico para o policial e a sua família, férias diferenciadas para maternidade, paternidade e cuidado dos pais.

A Polícia de Toronto recruta, também pessoas fora da carreira de policial (ex.: cargos de processos administrativos, pessoas ligadas a tecnologia da informação, mecânicos, atendentes de telefone, etc.) e também oferece oportunidades para que pessoas do público em geral prestem serviços voluntários para a organização policial, além de desenvolver uma série de iniciativas de interação com a comunidade. São cerca de 5 mil policiais e 2 mil pessoas que trabalham em serviços de apoio e não possuem o juramento de policial.

Os policiais precisam passar por treinamentos de reciclagem anualmente. O policial de Toronto recebe tanto o treinamento operacional quanto o cuidado como um ser-humano que está em uma profissão de elevado risco. O sistema de promoção na carreira está atrelado a tempo de serviço e resultados efetivos no trabalho.

Jamais podemos pensar no trabalho policial fora do contexto em que ele acontece. Armas de fogos são restritas no Canadá. Trata-se de um país com um dos maiores níveis de educação e desenvolvimento humano do mundo. Há sugestões de que em menos de 5% das prisões em Toronto efetuadas pela polícia, o policial chegou a sacar a sua arma. Ou seja, o ambiente ajuda muito para que a polícia atue de forma a preservar a vida.

 Mas, considero que o exemplo da polícia de Toronto pode inspirar mudanças na maneira que tratamos o policial e vemos a polícia no Brasil. Em primeiro lugar, precisamos investir em nossos policiais. O caso de Toronto mostra bem que é possível fornecer aos policiais uma série de benefícios para eles e elas bem como para suas famílias. Com isso, o policial se sente valorizado e está preparado para realizar a sua tarefa.  Toronto ainda nos mostra que podemos ter não policiais trabalhando dentro das polícias em funções burocráticas e de apoio e que é fundamental que se estabelecem relações de solidariedade com a comunidade.

Há um abismo entre as condições sociais de Brasil e Canadá e as comparações são muito problemáticas. Mas, se há uma grande lição que podemos apreender em termos de polícias respeitadas fora do Brasil é que o investimento em treinamento efetivo e condições de vida para os policiais ajuda muito no combate ao crime.

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