O apelo fácil da falácia

O apelo fácil da falácia

REDAÇÃO

30 de março de 2020 | 14h44

Rafael R. Ioris, é professor da Universidade de Denver nos EUA.

Em um dos pronunciamentos mais desastrosos e agressivos da história da República, na noite do dia 24 de março, Jair Bolsonaro decidiu por manter acesa a dinâmica da sua tumultuada administração. Em estilo de confrontação, que contrariou todas as expectivas de uma população vivendo um período de profunda preocupação com a crise de saúde pública que está por vir, o presidente reiterou a lógica de um governo de há muito não governa, tendo optado por por centrar forças na constante mobilização de sua base mais radical e extremada.
É provável que Bolsanaro não tenha buscado um tom mais conciliador dadas sondagens de opinião demonstrando que apesar de ter perdido apoio em vários setores, o Bolsonarismo ainda teria suficiente apelo popular capaz de bloquear nas ruas tentativas de restringir os poderes do presidente, seja via um parlamentarismo branco, legal ou de fato, seja via o encaminhamento de um processo de impeachment. Como poderíamos entender que um presidente, hoje visto domestica e internacionalmente como totalmente inábil para a função que exerce, consiga manter significativos níveis de popularidade entre diversos grupos sociais?
Lembrando que a eleição de 2018 foi certamente uma das mais polarizadas da história recente do país, o apelo que os ´capitão´ ainda exerce poderia ser visto como amparado em alguns pontos centrais que, entre outros, parecem estar vigentes.

1. Apelo fácil do discurso anti corrupção: surfando na onda criada pela campanha anti-corrupção que ganhou as ruas em 2013 e especialmente 2015, Bolsonaro, que não ajudou a liderar as demonstrações de então, acabaria aglutinando as forças do ´fora PT´ em meados de 2018; e, sob o manto de ser o candidato mais fora de um sistema político (establishment) tido como profundamente corrupto, onde todos políticos seriam iguais, o ´capitão´ por ter sempre sido um político do dito baixo clero seria a alternativa dado que não teria participado das negociatas envolvendo todos partidos ao longo das últimas décadas. Apesar de ter manchado tal narrativa, especialmente pelas revelações do envolvimento de sua família com esquemas de corrupção ligados a grupos milicianos do Rio de Janeiro, entre seus apoiadores mais aguerridos, Bolsonaro ainda é visto com um ´mito´ político distinto por não pertencer ‘as máquinas partidárias tradicionais. O capitão é pois ainda visto, por tais grupos – dentro de uma narrativa salvacionista simplista e seletiva – como o ungido que, por iniciativa pessoal própria poderia eliminar a corrupção do país.

2. Simplicidade da lógica neoliberal e do discurso meritocrático: em paralelo ‘a intensa campanha midiática em prol de uma cruzada genérica anti-corrupção que tomou o país nos últimos anos, o discurso meritocrático – que afirma que as oportunidades seriam iguais a todos e que o diferencial seria somente o esforço de cada – e a narrativa de que o problema essencial do Brasil seria o tamanho do estado, e que a reformas privatizentes trariam um solução rápida e efetiva para o país, deixaram de ser algo reproduzido exclusivamente entre as camadas sociais médias e altas, tendo passado também a fazer parte do imaginário político de parte importante da chamada Classe C. Aqui também pesou muito o papel da visão de mundo individualista propagada, em especial, pelas igrejas neo-petencontais, que ajudou a consolidar uma lógica simplista e perversa da realidade, onde quem ´não se deu bem´ não fez (ou fez) por merecer. Atuando de maneira sinérgica, tais valores ajudaram a repercussão do discurso anti-sistêmico de Bolsonaro de tal forma que ainda muitos continuar a dizer que embora não gostem do estilo do ´capitão´, apoiam suas reformas neoliberais.

3. Abordagem ´manu-dura´ ao problema da segurança pública: ao longo do crescimento econômico da primeira década dos anos 2000, que foi seguido por uma quedra abrupta do poder aquisitivo a partir de 2013, o aumento real da violência urbana, especialmente nas grandes cidades, associado ‘a falta de políticas de segurança públicas efetivas e continuadas, propocionou a retomada e popularização da abordagem manu dura, por vezes manu militari, (bandido bom é bandido morto!). Aqui parece residir um importante apelo do ´capitão´, especialmente entre as camadas mais pobres dos grandes centros urbanos do país, já que sua trajetória militar e defesa reiterada do regime militar são vistas como ideais para a implementação de tais políticas.

4. Defesa dos valores tradicionais: em paralelo ao seu discurso militarista, um dos apelos e elementos chaves da campanha presidencial de Bolsonaro foi sua cruzada contra o chamado kit gay que ameaçava os ditos como padão da tradicional família brasileira. Essa narrativa se encaixara de maneira perfeita no candidato que havia demonstrado sempre, de forma aberta e orgulhosa, sua homofobia, quem portanto foi, e para muitos continua sendo, o perfeito defensor de uma lógica de gênero conservadora que ainda tem, talvez mesmo crescente, apelo popular em camadas sociais da mais diversas no Brasil.

5. Lógica salvacionista e tecnocrática: catalizando os outros fatores, o estilo agressivo e salvacionista de Bolsonaro, quem, por sí só – embora crescentemente via um envolvimento direto dos militares no poder – poderia sacudir tudo que está por aí e assim entregar um novo Brasil, unido sob o manto da bandeira nacional, permanece cada dia mais nítido. Talvez seja aqui que se encontre as razões mais profundas para o ainda alto apoio popular de um presidente que aprofunda a narrativa de que somente ele entenderia os verdadeios anseios nacionais e de que somente ele, lutando contra barreiras institucionais de grupos corporativos mais diversos (partidos, congresso, judiciário, midia), poderia promover tais desejos.

Como em todo projeto e discurso fascistas, a negação da existência das diferenças reais (de classe, gênero, raça) entre as pessoas, já que seriam todos brasileiros, tem alta capacidade de atrair simpatizantes entre diferentes grupos sociais. Bolsonaro sabe bem disso já que foi por esses meios que ele se viabilizou como candidato a presidente. Ele parece agora ter dobrado a aposta do discurso de que somente ele poderá salvar a nação.

Mas em um país com a economia em queda livre e a sensação crescente da erosão acelerada a ordem institucional, terá Bolsonaro acertado em sua escolha ou será que a dor da perda de ente querido que muitos vão experimentar nas próximas será capaz de destrur o discurso facíl (e falacioso) no neofascismo Bolsonarista?

 

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