O acerto de contas: fragmentos da memória de Marco Aurélio Garcia

O acerto de contas: fragmentos da memória de Marco Aurélio Garcia

REDAÇÃO

31 de julho de 2017 | 09h06

Dawisson Belém Lopes é professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Corria o mês de agosto de 2015. O clima no Palácio do Planalto já era de fim de festa. A crise política galopava e – tudo já indicava – logo Dilma Rousseff seria afastada da Presidência da República. Foi nesse contexto de turbulência que Marco Aurélio Garcia se permitiu, uma vez provocado por este entrevistador, fazer um exercício de contabilidade política acerca dos quase doze anos e oito meses em que estivera assessorando dois chefes de Estado brasileiros em matérias internacionais.

“Os dois primeiros capítulos do livro são ótimos, mas o livro tem dez capítulos. E o terceiro nos reservou surpresas”. Assim, falando por meio de parábola, ele se referia ao projeto inovador de política externa que Lula teria implementado quando presidente, tendo como fiéis escudeiros o seu chanceler, Celso Amorim, o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e o próprio Marco Aurélio. O trecho ilumina não apenas uma certa frustração com os rumos tomados pelo empreendimento a partir de 2011, senão também a concepção indisfarçada de um plano de longo prazo, cuja maturação levaria 40 ou 50 anos.

As ênfases do projeto de diplomacia “ativa e altiva” compareceram à entrevista. Garcia entendia ter havido êxito na política externa “em grande medida porque fizemos uma aposta grande na América do Sul e na América Latina”, mas, em tom de autocrítica, admitia que essa aposta “não foi feita com todo o ímpeto que teríamos que desenvolver”. Uma nota de modéstia foi esboçada na referência aos BRICS – uma “coisa que caiu do céu”, de acordo com o próprio assessor presidencial. Foi uma ideia que “surgiu na cabeça de um maluco” e que, num determinado momento, “ganhou uma consistência, que não é definitiva, mas que é significativa”.

Ao tratar do G20 – grupo das vinte maiores economias do mundo, tornado protagonista após a crise financeira de 2008 –, Marco Aurélio foi menos contido verbalmente. Alegou que uma organização anódina, composta por vice-ministros de economia dos países membros, acabou dotada de saliência em função da proatividade diplomática brasileira. Na reunião do G8 em Sapporo, no Japão, ocorrida em 2008, Lula teria afirmado que “não viria mais para tomar o cafezinho do jantar”. Aquilo, segundo Garcia, precipitou uma pequena rebelião dos países emergentes. Já em meio aos efeitos do crack das finanças, George W. Bush, então presidente dos EUA, teria telefonado para Lula e perguntado: “Eu quero convocar uma reunião para discutir a crise e quero te convidar para essa reunião; quem mais você acha que deve vir?

Uma crítica recorrente da oposição à política externa de Lula e Dilma – dita “ideológica” e “partidarizada” – ressaltava a suposta usurpação dos papéis de formulação que caberiam ao Ministério de Relações Exteriores. Instaurou-se a “querela dos dois chanceleres” – a hipótese de que, enquanto Marco Aurélio comandava as ações internacionais do país, caberia a Celso Amorim apenas “carimbar” as suas escolhas. A versão é rechaçada e tratada como absurda pelo assessor-chefe da Presidência. Aludindo reverentemente ao Itamaraty como “instituição extremamente qualificada” e “o ministério republicano da nação”, apontava ao redor a sua equipe e dizia: “veja só: são todos diplomatas”. De fato, havia 4 ou 5 exemplares da Casa de Rio Branco sentados à mesa. Para Amorim, Garcia reservou uma coleção de adjetivos – condução “brilhante”, dono de grande “cultura diplomática” e de uma imaginação “extraordinária”. Ponderou, todavia, que o chanceler de Lula “não foi capaz de legar uma marca crítica que, pessoalmente, ele tinha”, pois “não houve um estímulo à formação de massa crítica dentro do Itamaraty”. A estocada, segundo se pôde depreender, tinha como alvo nominal o primeiro chanceler de Dilma Rousseff, embaixador Antonio Patriota.

A Venezuela, tema de grande apelo contemporâneo, também mereceu a atenção de Garcia. “Chávez assumiu com uma politica de distribuição de renda muito importante, mas não fez uma reforma da economia venezuelana e menos ainda do Estado, e eu acho que as duas coisas tinham que ser feitas. Num Estado que vive à base da renda do petróleo, você tem que fazer uma inflexão na destinação dos recursos”. Para o professor Garcia, Celso Furtado já explicava, nos idos de 1950, o problema estrutural venezuelano: décadas e décadas do mal do petróleo, fator gerador de desindustrialização e concentração da riqueza. Nenhuma menção, porém, foi feita à escalada autoritária por que Caracas, em 2015, já vinha passando.

Ainda no referente a tópicos da conjuntura, salta aos olhos a evocação do suporte dado pelo governo brasileiro à atuação internacional do empresariado nativo como um elemento a ser celebrado: “Se você for a qualquer almoço ou jantar oferecido ao chefe de Estado estrangeiro em visita, vai ver o ambiente coalhado de empresários. (…) Poucas vezes eu devo ter me deslocado com o presidente ou com a presidenta para o exterior sem que houvesse uma reunião empresarial, uma pelo menos. Na Turquia, na China, na Índia, no México…”. Questionado, especificamente, sobre os setores da construção civil e do agronegócio – hoje no centro do alvo da operação Lava Jato –, Marco Aurélio retrucou: “Não vejo problema. Nunca senti uma resistência das partes envolvidas. Muito pelo contrário”. Nessa cruzada econômica, a funcionalidade do BNDES não deixou de ser relembrada: “Nós tínhamos poucos instrumentos, não tínhamos um eximbank, então criamos instrumentos com o BNDES, com todos os limites que o BNDES tem, para alavancar os negócios de empresas brasileiras lá fora”.

Ao contrário do que o senso comum poderia sugerir, os Estados Unidos da América desfilam na narrativa de Garcia como um ator relativamente benevolente e instrumental para a ascensão do Brasil no início deste século. “Eu posso te dizer que nunca houve um afrouxamento de tal ordem nas relações dos Estados Unidos com a América Latina como naquele período. E isso, em certa medida, nos beneficiou como um clima geral”. Entre os temas que motivaram choques entre os gigantes do Sul e do Norte, o assessor presidencial recorda as discussões para a implantação da ALCA, em 2005, e o escândalo de espionagem da NSA, em 2013. Em todo o resto, a relação bilateral teria sido produtiva e respeitosa. A ponto de, em 2012, o Brasil ter sido contatado por um alto diplomata americano para intermediar a reaproximação de Washington com Havana. Marco Aurélio ainda revela, numa aparentemente despretensiosa nota de rodapé, que o ex-ministro Zé Dirceu “era muito pró-americano no começo do governo Lula. Acho que não teria objetado se o [embaixador] Rubens Barbosa fosse o nosso Ministro de Relações Exteriores”.

Com o bom humor que os amigos e conhecidos sempre lhe atribuíram, Garcia protagonizou boas tiradas nesta entrevista. Citou com desembaraço o Foro de São Paulo, de cuja fundação e consolidação teria ativamente participado. Externou a sua perplexidade com a mistificação em torno do órgão, ironizando: “Parece hoje que a Al-Qaeda é uma organização mais moderada que o Foro”. Em defesa própria, redarguiu: “Grande parte das reuniões do Foro de São Paulo estão no YouTube. Para quem tiver saco, são 30 horas de gravação…” Anuiu que o tratamento que a grande imprensa brasileira lhe concedera ao longo dos anos havia sido muito duro, mas ressalvou que o jornalista Clóvis Rossi era uma voz dissonante, o que estaria ilustrado pela forma como cobriu o momentoso Acordo de Teerã, em 2010.

Garcia ainda versou sobre a alegado retraimento diplomático brasileiro. Disse que, embora Dilma tivesse “uma percepção muito clara do mundo, e até, em alguns momentos, uma percepção sofisticada”, lhe faltou investir mais na propositura de uma agenda de política externa. Alegou que o Itamaraty estaria vivenciando um período de “baixa intensidade na formulação diplomática”, mas via com bons olhos a reorientação que estava sendo dada à pasta por Mauro Vieira. Todavia, em cristalina antecipação a uma linha argumentativa que vem ganhando força entre os analistas internacionais dos tempos atuais, concluía: “Mais do que da política externa, precisamos fazer um diagnóstico mais acurado do nosso lugar no mundo”. Em momentos de autoestima elevada, Marco Aurélio prosseguia, é mais natural projetar-se. É mais fácil. Já os momentos de baixa autoestima “não favorecem muito a formulação da politica externa”.

Encerrada a conversa de uma hora e meia de duração, levantamo-nos e passamos a caminhar pelo terceiro andar do Palácio do Planalto, já sem a companhia dos assessores diplomáticos, ao que Garcia elaborava sobre o acervo de obras de arte. Rodeado por Portinaris e Di Cavalcantis, sacava do bolso algum otimismo: “As coisas estão melhorando. Você vai ver. Semana passada mesmo ela [Dilma] esteve com a Angela Merkel.” Marco Aurélio então conduziu-me até a sua sala, mostrou-me montanhas de livros e papéis espalhados, bem como uma foto, pendurada, do gabinete do Barão do Rio Branco.  Em tom de galhofa, despediu-se de mim: “Diz a turma aqui que já descobriu o que eu e o Barão temos em comum: é a bagunça”.

 

* A íntegra da entrevista, realizada em 26 de agosto de 2015, será publicada na próxima edição da revista Inteligência (http://insightinteligencia.com.br).

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