Não queremos ver o futuro repetir o passado

Não queremos ver o futuro repetir o passado

REDAÇÃO

15 de abril de 2020 | 15h50

Ver o futuro repetir o passado era uma das angústias de Cazuza. Ter a sensação de estar vivendo constantemente a mesma época não é natural para quem brada que o tempo nunca pára. É preciso deixar o passado para trás. No entanto, encarar o passado pode ser algo muito dolorido. Não é fácil admitir que erramos e que nossas atitudes deixaram cicatrizes que provavelmente não vão desaparecer. É difícil de aceitar. Por conta disso, muitos preferem fugir do passado ao invés de aprender com ele e não o repetir.

O Brasil é muito experiente em fugir do seu passado. Com muita relutância, assume o genocídio dos povos indígenas e trata populações tradicionais com alguma dignidade e respeito através de políticas públicas. Nosso país, até hoje, não admite que a escravidão tenha sido a maior chaga de nossa história, algo que vai nos marcar por gerações e que continua pautando nossa maneira de agir, de pensar e de sentir. Nega-se – sem nenhum pudor – os horrores do regime militar de 1964-1985 e seu legado de mazelas sociais e institucionais. O Brasil sempre fechou os olhos para sua desigualdade perversa. Será que somos o país do medo do passado e, por isso, fadado a ficar preso nele para sempre?

O processo de redemocratização que culminou no pacto social da Constituição de 1988 foi uma tentativa de nos entendermos com nosso passado. Muito foi pensado para endereçar nossos problemas sociais. O Sistema Único de Saúde (SUS) talvez tenha sido o maior de todos os legados desse movimento pós-ditadura. A democracia permitiu que o país encontrasse o caminho para a estabilidade econômica e que passasse a investir mais em políticas sociais. No entanto, 35 anos depois, não só seus resultados, mas o próprio pacto social de 1988 é posto em xeque. Por quê?

Fechamos a ferida sem curá-la. Achamos que bastava escrever todas as garantias em uma constituição para que elas se materializassem. Esquecemos que é preciso atuar ativa e constantemente para desenvolver o espírito democrático e republicano na sociedade. É preciso mudar práticas institucionais autofágicas, quebrar com os privilégios de corporações e de grupos de interesse econômico. É preciso admitir que muita coisa estava sendo feita de modo errado e garantir que esses erros não sejam esquecidos pelas gerações seguintes. Falhamos e é a hora de assumirmos como nação nossos erros históricos.

A fragilidade do nosso acordo social ficou explícita no primeiro momento que foi posto à prova. As manifestações de junho de 2013 era um sinal de que algo estava errado.

Víamos que aquele gostinho de desenvolvimento que experimentamos na década anterior não duraria muito mais. A fissura na coesão social passou a ser vista através do diagnóstico do nosso problema. De um lado, os camisas vermelhas, dizendo que era necessário um aprofundamento do pacto de 1988 de modo a ampliar e melhorar as políticas sociais e os serviços públicos oferecidos pelo Estado. De outro, os camisas amarelas, dizendo que o problema era a corrupção e a irresponsabilidade fiscal. De certo modo, era uma oposição entre aqueles que acreditavam no pacto de 1988 e viam que os rumos não iam levar à resolução dos nossos problemas sociais históricos e aqueles que não achavam que esse acordo funcionava, dado que minimizavam a importância dos problemas do nosso passado e centravam o discurso na importância do combate à corrupção. Dessa divisão, só colhemos crises, até que um lado se sagrou vitorioso.

Emergiram ao poder as lideranças que pregavam que a corrupção e a deturpação dos valores tradicionais era o que estava corroendo nosso progresso. O Estado deveria gastar menos, proteger menos, cuidar menos. Toda a narrativa que fundamentava o pacto de 1988 passou a ser desconstruída. De repente, já não havia opressão, já não havia desigualdade. Havia, sim, mais corrupção e mais depravação do que qualquer momento da história, em negação completa do nosso passado. Fugir do passado é, muitas vezes, criar um passado novo.

Porém, o futuro é sempre implacável com quem foge do passado. O ano de 2020 talvez tenha trazido o maior desafio da nossa sociedade em muito tempo com o novo coronavírus e as respostas que vêm sendo dadas por nossas principais lideranças já se mostram muito aquém daquilo que precisamos para amenizar o sofrimento do país. É preciso compreender que os problemas sociais que nosso país carrega desde sempre não só ficarão completamente expostos nessa crise como vão aumentar em escala e agravar ainda mais nossa situação.

Ao invés de lidar com isso, se insiste em uma narrativa de negação. A criminalização da política e estigmatização de partidos e servidores, necessárias para emplacar a narrativa da moralidade contra a corrupção, impedem a cooperação e articulação das lideranças dos diferentes Poderes da República e entre os entes federados. O negacionismo científico, perseguição de acadêmicos e instituições de pesquisa e a propagação de desinformação e de mentiras, atacando a legitimidade de canais oficiais de comunicação – atos também necessários para legitimar o discurso oficial – destroem a capacidade de coesão social em torno das medidas necessárias para contenção da epidemia e mitigação de seus impactos econômicos. Continuar negando nosso passado é não admitir que os problemas sociais do Brasil vão agravar as consequências desta crise sanitária em nosso país.

Com a população entendendo essa situação, há a possibilidade de novos valores emergirem. É possível que outras lideranças que defendem saídas alternativas para essa crise e para nossos problemas sociais históricos ganhem mais destaque. Assim como em 2013, uma nova leva de líderes pode emergir e propor um novo projeto para nosso país: um revigoramento em torno do pacto de 1988.

Mais do que nunca é preciso valorizar aqueles que trabalham para desenvolver tecnologia em nosso país. É fundamental garantir que universidades, centros de pesquisa e pesquisadores tenham as melhores condições de trabalho e reconhecimento por seus esforços. A ciência é o que nos guiará para a tomada das melhores decisões hoje e no futuro.

Temos que resgatar a confiança em nossas instituições políticas. Aproximar o trabalho das lideranças dos anseios da sociedade e, ao mesmo tempo, construir os valores democráticos e republicanos todos os dias através das nossas atitudes. Isso só vai ser possível com transparência intransigente, controle severo e garantia do Estado de Direito. Nenhuma arbitrariedade pode ser admitida, nem aquelas contra adversários. A responsabilidade com os recursos públicos deve ser um pilar na conduta de qualquer liderança e não é antagônica, por si, ao aumento de investimentos sociais.

Para além disso, a crise sanitária escancara a urgência em resolvermos outros problemas antigos do nosso país. Precisamos decidir que é prioridade termos serviços públicos que não atentem contra a saúde pública. Não se pode mais admitir a saturação e o subfinanciamento do SUS. Não é mais aceitável as condições de superlotação do transporte público. É inconcebível que famílias inteiras vivam aglomeradas em habitações precárias, sem saneamento ou acesso à água encanada e luz elétrica. Nossa política prisional é medieval.

Não podemos mais admitir ou naturalizar a desigualdade no Brasil. Como podemos achar normal mais de 9 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, sem dinheiro para comprar um sabonete? Como podemos viver em uma sociedade em que quase a metade das pessoas que trabalham não tem nenhum direito, nenhuma assistência e nenhuma segurança que as possibilite passar por momentos de crise sem a angústia de não terem mais o que comer? Passou da hora de garantirmos dignidade para todas as pessoas, independente da função que exercem no mundo do trabalho ou de qualquer outra característica. É urgente que se adote políticas de renda mínima, financiada por um sistema tributário justo, que cobre mais dos que mais tem, que dê segurança às famílias em situação de vulnerabilidade. Enquanto o país não for para cada um, não será de nenhum.

Nossas mazelas sociais são graves e complexas e a crise da Covid-19 vai ser dura. Talvez a mais dura da nossa história. As previsões para as perdas econômicas são muito pesadas. Estima-se que o país empobreça mais no próximo ano do que a média dos anos 1980, chamada década perdida para nós. A previsão até agora é que mais 12 milhões de pessoas fiquem desempregadas. As perdas sociais são incalculáveis. Muitas vidas serão ceifadas. Os efeitos do novo coronavírus podem ser tão intensos a ponto de gerar convulsões sociais tão grandes ou até maiores do que vimos em 2013. Porém, como naquela época, caberá a nós decidir: vamos aprender com nossos erros e corrigir o que é preciso em nossa sociedade ou vamos, como Cazuza, ver nosso futuro repetir o passado?

Barbara Panseri – graduada em Relações Internacionais pela USP, mestra em Administração Pública e Governo pela FGV e membra do coletivo Faz Diferença? Discussões sobre Desigualdades

Ivan Mardegan – graduado em Economia pela USP, doutor em Administração Pública e Governo pela FGV e fundador do coletivo Faz Diferença? Discussões sobre Desigualdades

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: