Não olhe para baixo: expectativa sobre as eleições brasileiras de 2022

Não olhe para baixo: expectativa sobre as eleições brasileiras de 2022

REDAÇÃO

04 de fevereiro de 2022 | 12h20

Bruno Mello Souza, Doutor em Ciência Política (UFRGS). Realizou Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPI. Professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da UESPI e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPI

Antonio Silvio K. L. Freitas, Bacharel/Licenciado em Ciências Sociais e Mestrando em Ciência Política no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFPI. Pesquisa na linha “Democracia, comportamento político e cidadania”. Especialista em Literatura e Estudos Culturais (UESPI)

Como diria Adam Przeworski, eleições sempre importam, pois elas já fazem parte do nosso cotidiano. Mesmo não gostando de política, o cidadão comum já sabe que, a cada 4 ou 2 anos, haverá alguma disputa eleitoral, principalmente nos países considerados democráticos. Apesar de alertar que nem tudo se resolve com eleições, considera que estas são uma forma “pacífica” de escolha dos seus representantes e, também, uma forma de punição aos governantes cuja atuação seja reprovada[1]. As eleições, portanto, servem, pelo menos em tese, para recompensar governos bem avaliados e expurgar governos mal avaliados pela população.

O Brasil não é diferente das democracias pelo mundo afora. Até mesmo nos períodos de ditaduras tivemos alguma forma de eleição no país, seja direta ou indireta. Logo, aqui, eleições importam bastante e devem ser o centro dos debates e das expectativas da população, que vão desde o barzinho, passando pela calorosa reunião de família, até as polarizadas redes sociais digitais, como a “twittercracia”[2].

Primeiramente, é importante destacar que, diferentemente do senso comum que muitas vezes é reproduzido nos meios de comunicação de massa e redes sociais digitais, nas Ciências Sociais, em especial na Ciência Política, não existem variáveis fixas para explicar o voto[3]. Variáveis de natureza diversa, como institucionais, econômicas, contextuais, políticas, comunicacionais, culturais etc., podem de alguma maneira impactar ou influenciar nessa decisão.

Na conjuntura atual, diante de um cenário ainda pandêmico, apesar das flexibilizações, seus desdobramentos econômicos podem, de alguma forma, indicar sugestões para a corrida eleitoral que se aproxima. O mundo todo está passando por isso e, no Brasil, a situação não é diferente, apesar de mais intensa[4]. Não está apenas nos dados, mas também é perceptível no cotidiano das pessoas. Então, as dificuldades econômicas vivenciadas pelos brasileiros neste contexto acabam sendo uma variável contextual importante, como já demonstram as pesquisas de opinião pública[5].

Na teoria, é quase um consenso na literatura que o “voto econômico”[6] é muito importante diante desse cenário e, por isso, entre as principais preocupações do eleitor brasileiro vide pesquisas recentes, estão, dentre outras, a questão do emprego, da renda e da fome. Isto é, de alguma maneira a preocupação central para as eleições de 2022 é o fator econômico.

Tais perguntas, como: A minha vida melhorou nos últimos anos? Quem tem o perfil de liderar essa recuperação econômica?, devem estar na pauta e nas expectativas dos eleitores para o próximo pleito, bem como na agenda dos candidatos e dos seus estrategistas políticos.

Mas, por que corrupção e violência, que foram tão importantes nas eleições de 2018, não impactam como antes?  Para compreender essa mudança, é fundamental que se tenha em mente que naquele período, existia uma outra agenda, na qual o combate à corrupção e o fim da violência eram alimentados não só pelos meios de comunicação, mas também pela discussão dentro das instituições e da própria sociedade. Eram questões “da ordem do dia”. Apesar do discurso de crise, as pessoas não sentiam essa questão econômica tão fortemente no seu dia a dia e, se compararmos, principalmente, a inflação naquele período com o atual, perceberemos essa evidência de forma bem didática[7].

Dessa forma, o “voto econômico” é uma variável constantemente considerada nos estudos eleitorais, verificando-se uma correlação de desempenho econômico versus desempenho eleitoral, ou seja, fraco desempenho econômico possui grandes chances de desembocar em fraco desempenho eleitoral, ou forte desempenho econômico igualmente possui enormes possibilidades de resultar em forte desempenho eleitoral. Apesar das estratégias de campanha e mídia, além dos fatores contextuais que ainda podem sofrer algumas modificações, pelo que temos até aqui, a pauta econômica será o grande divisor de águas da próxima eleição.

Por isso, temos, de um lado, governistas tentando trazer essa pauta para o centro, para que se tenha um governo minimamente funcional na tentativa de reverter esse quadro extremamente problemático- e com resistências internas e rachaduras- com pouco tempo, enquanto os oposicionistas buscam fazer a crítica desse cenário. Uns procuram não olhar para cima, pois lá no alto encontram-se níveis de grande desemprego, inflação recorde e a fome batendo à porta de milhões de brasileiros. Outros, buscam não olhar para baixo, pois podem perceber que o buraco é mais fundo do que se possa imaginar. Fato, porém, é que a pauta econômica tem tudo para ser decisiva no pleito desse ano.

Notas

[1]   Sugerimos a leitura do livro “Por que eleições importam?” de Adam Przeworski (2021) disponível pela editora da EdUERJ.

[2] “Twittercracia” é um termo utilizado na Ciência Política e na Comunicação Política, o qual é considerado um fenômeno político marcado pelo debate e pela publicização de posicionamentos. Para uma leitura mais ampla do fenômeno, recomendo o artigo “Embates e silêncios: Lideranças Partidárias do Legislativo no Twitter” das pesquisadoras Helga Almeida e Larissa Peixoto Gomes, apresentado e publicado no 44ª Encontro Anual da ANPOCS. GT 22 – Internet, Política e Cultura (2020).

[3] O best-seller da Ciência Política brasileira, de Marcus Figueiredo, com o livro “A decisão do voto: democracia e racionalidade” (2008) verifica e analisa como essas variáveis são dimensionadas e relacionadas nas principais perspectivas teóricas sobre o tema.

[4] Aconselho a leitura do artigo de opinião publicado no blog “Gestão, Política & Sociedade”, com o título “Esticando a corda: Covid-19 e a tripla crise brasileira”. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/esticando-a-corda-covid-19-e-a-tripla-crise-brasileira/. Acesso em 15/01/2022.

[5] Conforme pesquisa de opinião pública da Genial/Quaest, divulgada em 08 de dezembro de 2021, temas relacionados à economia, como desemprego e inflação, foram relatados por 41% dos entrevistados. Disponível em:  https://media-blog.genialinvestimentos.com.br/wp-content/uploads/2021/12/07170347/genial-nas-eleicoes_pesquisa-para-presidente-2022_resultado-dezembro-2021.pdf. Acesso em: 15/01/2022.

[6] O “voto econômico” parte do pressuposto de que variáveis econômicas são centrais para compreender e explicar a participação política e os seus impactos, ou seja, é de suma importância como “o Estado de bem-estar dos indivíduos ou grupos” está se relacionando durante um determinado contexto (FIGUEIREDO, 2008, p. 20; ANDERSON, MORGAN, 2011).

[7] No fim de 2021, o país fechou com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acima dos 10%, superando o teto estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional, de 5,25%, e se constituindo como maior percentual nos últimos seis anos. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/business/inflacao-fecha-2021-a-1006-acima-do-teto-da-meta-e-no-maior-nivel-em-6-anos/ . Acesso em: 27/01/2022.

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