Nada está tão ruim que não possa piorar: Bolsonaro Presidente

REDAÇÃO

14 de outubro de 2017 | 13h04

Lucas Pereira Rezende, Cientista Político, professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de “Sobe e Desce: Explicando a Cooperação em Defesa na América do Sul” (Ed. UnB, 2015).

Rafael R. Ioris, Historiador, professor de História Latino-americana e Política Comparada na Universidade de Denver, nos EUA. Autor de Qual Desenvolvimento: os Debates, Sentido e Lições da Era Desenvolvimentista. (Paco Editorial, 2017)

 

Assistimos, muitos de nós, com misto de espanto e horror, a ascensão cada vez maior de Jair Messias Bolsonaro nas sondagens eleitorais sobre as eleições presidenciais do ano que vem. Amparado em uma campanha midiática que mistura uma agenda militarista (bons tempos eram os da ditadura) e moralista (esse país é de Jesus), o deputado federal do Rio de Janeiro vem angariando respaldo entre segmentos mais conservadores, elitizados e religiosos da população.

Indo além do contexto doméstico, essa semana o candidato passou nos EUA tentando ampliar sua notoriedade e expressão, onde palestrou, muitas vezes ‘a portas fechadas, para empresários brasileiros e norte-americanos em diversas cidades daquele país. Assim, impulsionado por ares reacionários e autoritários soprando tanto em nosso país como em várias outras partes do mundo, inclusive nos EUA,  esse político medíocre e até recentemente sem expressão nacional se coloca como um candidato capaz de, se não ganhar, pelo menos impactar de modo muito forte o pleito de 2018.

A fim de entender esse fenômeno e seus impactos, cabe apontar, em primeiro lugar, que vivemos em um contexto global de ascensão da direita e de negação da política democrática liberal. No mundo desenvolvido, há exemplos fartos disso: o “Brexit”, saída do Reino Unido da União Europeia, aprovada em referendo nacional sob argumentos xenófobos e anti-globalização. Na França, Emmanuel Macron foi eleito sob discurso, ainda que moderado, de rediscussão da União Europeia, em um pleito onde a segunda colocada, Marine Le Pen, de orientação direita-radical, obteve cerca de 34% dos votos. Na Alemanha, as eleições parlamentares reconduziram a chanceler Angela Merkel a mais um mandato, mas com votos aquém do esperado e com a entrada no Bundestag, o parlamento alemão, pela primeira vez desde o fim do regime nazista, de um partido de extrema-direita, o Alternativa para a Alemanha (Afd), com mais de 13% dos votos. Consolidando o processo, o maior avanço de uma direita conservadora que gera repercussões globais foi visto nos Estados Unidos, com a vitória de Donald Trump e a consolidação de um governo mais à direita do que o próprio mainstream do Partido Republicano estadunidense tradicionalmente pregava.

O histórico eleitoral brasileiro também traz, por sua vez, agravantes que favorecem uma candidatura frágil de lógica, mas forte em retórica sentimental, como a de Bolsonaro. Neste sentido, o político acaba magnetizando impulsos de votos não associáveis a outros pré-candidatos. O voto de protesto, contra “tudo o que está aí”, que vende a falsa ilusão de rompimento com a dinâmica política em vigor, tem exemplos no Brasil tanto em eleitos para o Executivo quando para o Legislativo, sendo o mais famoso recente o deputado Tiririca. Da mesma forma, tem sido forte a preferência do brasileiro por líderes conservadores de perfil autoritário, percebidos como fortes e capazes de enfrentar as barreiras políticas do sistema. Basta lembrar que Enéas Carneiro, defensor da direita radical nacionalista pós-democratização, foi o terceiro colocado para presidente nas eleições de 1994 e o quarto nas de 1998, ficando à frente de políticos conceituados de diferentes origens partidárias.

Ecoando a guinada salvacionista crescente, as eleições municipais de 2016 mostraram que negar a política tradicional pode levar neófitos a desbancar nomes, partidos e fontes de informação tradicionais do status-quo político. As eleições para prefeito de João Dória em São Paulo, Alexandre Kalil em Belo Horizonte e Marcelo Crivella no Rio de Janeiro são claros exemplos dessa dinâmica. O “efeito Trump” se torna, pois, uma realidade também vívida no jogo político brasileiro, fenômeno que certamente ganhará reforço em 2018 dados os baixíssimos índices de aprovação do Congresso e do governo federal. Lembremos ainda que todos os principais partidos do país estão envolvidos na Operação Lava Jato, algo que tenderá a favorecer um nome que consiga se descolar da lógica partidária tradicional.

Outra lição vem das eleições de 1989, com seus 22 candidatos à presidência da República. Essa pulverização de nomes tende a se repetir em 2018. Tal qual na primeira eleição pós-regime militar, a fragilização do sistema partidário e a falta de um nome de consenso nacional leva todos a crer que podem ser candidatos. Em 1989, isto levou nomes de visões políticas próximas a se autoanularem no pleito presidencial, levando para o segundo turno dois nomes então distantes do centro político nacional: Fernando Collor de Mello e Luís Inácio Lula da Silva. Em 2018, o problema se repete nas então prováveis candidaturas que hoje se apresentam. Da perspectiva dos pré-candidatos da centro-direita, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e João Dória são os nomes hoje mais fortes. Se todos saem candidatos, o que não é improvável, os três disputarão votos em uma mesma parcela da população. Até o momento, levando em conta o fator de negação da política tradicional como uma variável interveniente forte para as dinâmicas eleitorais recentes em todo o mundo, o favorito dentre eles é o atual prefeito de São Paulo. No entanto, Dória tem contra ele exatamente estar no cargo, o que lhe levantará críticas, refreando o ímpeto de “novidade” que levou à sua eleição histórica em São Paulo no ano passado.

Da perspectiva da centro-esquerda, Marina Silva, Fernando Haddad e Ciro Gomes são os nomes mais fortes para uma renovação dos quadros, e que acabam competindo também entre si por um mesmo perfil de eleitor progressista. No entanto, a rejeição aos três é também bastante alta. Haddad tem como seu principal problema sua legenda. Ainda que o PT detenha os tradicionais 30% de preferência do eleitorado, o antipetismo foi definidor nas eleições municipais de 2016, inclusive contra o próprio Haddad em São Paulo. Não tendo nem mesmo ido para o segundo turno na capital paulista, o ex-prefeito certamente encontrará dificuldades para se firmar nacionalmente em um contexto que lhe segue desfavorável. Marina e Ciro, por sua vez, são também muito associados à política tradicional, além de terem alta taxa de rejeição. Todos, aliás, terão também dificuldades em lidar com um histórico de associação com o PT e com o ex-presidente Lula, de quem acabam herdando os malefícios, mas não as benesses que seu carisma pessoal ainda trazem.

Por fim, Lula, o franco favorito em todas as pesquisas, tem um desafio ainda maior que os de seus concorrentes: garantir que conseguirá sair candidato. Com condenações já na primeira instância emitidas pelo juiz Sérgio Moro, a Lava Jato segue em direção à retirada de Lula do pleito. Ainda que o ex-presidente consiga reverter a decisão da justiça e escape da prisão, por mais que tenha sua parcela estável de voto, Lula, mais do que nenhum outro, será imediatamente associado ao status-quo político, polarizando-se de maneira automática com qualquer candidato que se firme como o representante da negação da política tradicional. Somando-se ao antipetismo e à sua rejeição também alta, Lula tenderia a sair enfraquecido em um eventual segundo turno, canalizando em seu oponente todos os votos de protesto, de insatisfação, de negação dos governos PT, da corrupção e da política tradicional.

Assim, neste cenário de polarização e fragilidade dos pré-candidatos, o único deles que parece sair ileso às potenciais fragilidades é justamente Jair Bolsonaro. Coerente em sua incoerência, o que é visto como seus pontos fracos alimenta, na verdade, a base de sua candidatura. Tudo o que for feito e trazido à tona por seus oponentes como forma de fragilizar sua candidatura trabalhará precisamente por reforçá-la. O pré-candidato não perderá votos ao ser acusado de racista, misógino, machista, torturador, homofóbico ou autoritário – pelo contrário. Seus apoiadores não apenas sabem de tudo isso, mas veem nessas características elementos de rigidez moral e/ou política, ainda que não concordem com elas.

Ademais, em momentos de incerteza, como o atual, vender a promessa de ordem e estabilidade, ainda que falsas, soa, alternativamente, como capacidade de trazer resultados a qualquer custo. Para os apoiadores de Bolsonaro, os fins justificam os meios, já que a política tradicional, democrática, plural e inclusiva, não foi capaz de levar aos fins esperados – ainda que o fim seja abstrato e indefinido. Logo, não é contraditório para os apoiadores do ex-militar que ele seja acusado de abusos, o que está em jogo é uma liderança capaz de “fazer o que for preciso”. A falsa ilusão vendida por Bolsonaro jaz na subjetividade, por isso desconstruir seu populismo de direita através de argumentações coerentes e racionais é esforço aparentemente inócuo. Mais do que qualquer outro pré-candidato, o sentimento de “último recurso” impulsiona sua candidatura, tal qual a de Donald Trump nos Estados Unidos ou a de Marine Le Pen na França. Seu maior alimento é o medo, um sentimento puramente subjetivo e facilmente explorável por oportunistas políticos.

Outra força da pré-candidatura de Bolsonaro é a ampla sustentação em conceitos absolutamente frágeis logicamente, mas que se tornam realidades aparentemente inegáveis em uma construção de “verdades pós-modernas”. Conceitos como “ideologia de gênero”, “ditadura gayzista”, ou “venezuelização do Brasil” são reproduzidos em vídeos e posts que, rapidamente viralizados, passam a fundamentar argumentos, ainda que permeados de saltos indutivos do começo ao fim. Junta-se a isso falsas verdades como as noções que “bandido bom é bandido morto”, “defender direitos humanos é defender bandido” ou que a percepção de que a corrupção endêmica no país teria fim com um governo autoritário sustentado pelas Forças Armadas.

Apresentadas como verdades reveladas frente a um complô esquerdista que as tenta negar, tais afirmações se colocam como dogmas, que trazem quase nenhuma possibilidade de desconstrução via um debate racional e de causa e consequência, o que tornam inócuas as tentativas de suas desconstruções. De fato, por mais que a imprensa, celebridades, políticos e até ex-presidentes democratas e republicanos denunciassem as constantes inverdades apresentadas por Donald Trump durante a campanha eleitoral estadunidense, suas respostas evasivas e impossíveis de comprovação acabavam por fortalecê-lo ainda mais, e foram as responsáveis por levá-lo à Casa Branca. Se o maior esforço do establishment político do mundo não foi suficiente para barrar a ascensão de um racista, misógino, machista, homofóbico e xenófobo à presidência dos Estados Unidos, acreditar que nosso ainda mais fragilizado status-quo político será capaz de barrar a candidatura e as promessas fáceis de Bolsonaro é subestimar tanto a rejeição à política tradicional quanto a capacidade das verdades pós-modernas definirem os rumos da política real.

Assim, com todos os problemas dos demais pré-candidatos, o único que sustenta uma aparente capacidade de mobilização em torno de um discurso extremista de manipulação do medo é, tragicamente, o referido deputado carioca. Assim, nossa assustadora e preocupante constatação é que, a não ser que algo muito absurdo aconteça de modo a alterar a crescente dinâmica que pautará o pleito de 2018, é bastante provável que Jair Messias Bolsonaro se torne o próximo presidente do Brasil.

Tendências: