Na ordem de prioridade, o que deve vir primeiro: o saneamento básico ou saneamento moral? Você decide

Na ordem de prioridade, o que deve vir primeiro: o saneamento básico ou saneamento moral? Você decide

REDAÇÃO

23 de junho de 2022 | 16h04

Ingrid Graziele Reis do Nascimento, Doutora em Engenharia do Território pela Instituto Superior Técnico de Lisboa, Diretora de Assuntos Regulatórios e Novos Negócio da empresa DAE/Jundiaí -SP

São tantos escândalos que assolam diariamente nossas mentes, que ficamos tontos tentando mensurar o quanto de empatia devemos destinar. Afinal, torna-se até dispendioso ficar buscando as causas exatas de tais fatos. De corrupção aos assassinatos por motivos banais, ou mesmo a quantidade expressiva de pessoas que ficam como “zumbis” vagueando pelos grandes centros das cidades.

Talvez, o grande gasto de energia dos últimos tempos, no contexto brasileiro, seja mais em apontar culpados, construir narrativas ideológicas, do que procurar ir ao cerne das questões para tentar transformar realidades.
Será que diante desse cenário não seria interessante promover um saneamento moral? Destarte, peço licença poética para transpor esse termo, tão em evidência nos últimos tempos nas discussões socioambientais sobre saneamento. Tal vernáculo deriva do verbo sanear, que induz tornar limpo, habitável.

Nas perspectivas ambiental  e social, a  falta ou mesmo a ineficácia dos sistema de saneamento básico, que assolam a maioria das comunidades vulneráveis e rurais brasileiras, é fato notório e comprovado. Diversas pesquisas e quantitativos que chocam são divulgados recorrentemente pela mídia e por pesquisadores. Assume-se o risco, aqui nessa discussão, de afirmar que também não é o maior entrave. Conforme pesquisa de Doutoramento realizada por Nascimento (2019), no Instituto Superior Técnico de Lisboa, o cerne da questão não reside nos montantes destinados à universalização dos serviços, e, sim, a diversos fatores que implicam em uma dispersão de verbas ao longo do caminho. Fatores como falta de continuidade de projetos devido à mudança de gestão, regulação frágil, quando não inexistente, contratos de concessão com objetos difusos, falta de monitoramento dos processos e falta de apoio de base para os municípios de pequeno porte, esses são alguns exemplos que geram impacto na fragilização do processo.

Esse cenário leva a implicações, além do aumento das doenças de veiculação hídrica, de várias derivações que perpassam pela condição de dignidade humana. Afinal, são lixões a céu aberto que contribuem para proliferação de vetores, de transmissores de doenças, assim como a ineficiência nas estruturas de drenagem refletidas nas enchentes, ausência de banheiros, que, no contexto feminino, contribuem para o aumento de casos de estupros de vulneráveis, esses são alguns dos impactos apontados na pesquisa. Nesse sentido, é estabelecida uma relação tênue sobre saneamento moral e saneamento básico.

A condição humana em que vive uma boa parte da população implica em uma imoralidade tamanha que não deve passar desapercebido nem deve ser normalizado. Longe da pretensão de mensurar sofrimento, escândalos ou coisa parecida, o alerta que fica traz o seguinte questionamento: o que deve ser prioridade no contexto social? Ou melhor, será que ao invés de focar nos rótulos não deveriam ser analisadas as realidades de maneira processuais, por uma ótica sistêmica? Enfim, é pertinente que, independente das respostas, ocorra uma avaliação das demandas e projeções de medidas capazes de ultrapassar preciosismos políticos, buscando reverberar no retalhado e heterogêneo território brasileiro.

Referência

NASCIMENTO. Ingrid Graziele Reis do. Serviços de Saneamento e abastecimento de água no Brasil: Bases para sustentação da universalização. Tese de Doutorado. Instituto Superior Técnico de Lisboa, 2019.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.