Mulheres no centro da recuperação econômica

Mulheres no centro da recuperação econômica

REDAÇÃO

16 de julho de 2020 | 12h01

Maria José Tonelli, é professora titular no Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos na FGV EAESP, onde também coordena NEOP – Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas e, desde 2016, é editora científica da RAE – Revista de Administração de Empresas e da GV Executivo.

Ao redor do G20 reúnem-se vários grupos de engajamento da sociedade civil que debatem e propõem políticas públicas sobre temas como Negócios, Think Tanks, Ciências, Empreendedorismo e Juventude, entre outros. O grupo oficial de engajamento das mulheres, o W20 (Women-20) conta uma delegação brasileira(*) que tem participado desses debates desde sua criação em 2015.

Em 14 de julho último, a ONU Mulheres em conjunto com o W20 lançou um manifesto global  (**)  sobre a necessidade urgente de considerar o papel das mulheres na economia, nesse longo  período de pandemia que atinge todos os países do G20 e além.

As mulheres representam 70% dos trabalhadores na área da Saúde bem como nos trabalhos de cuidado tanto remunerados como os não pagos. Na pandemia, elas têm sido, evidentemente, as mais impactadas pelo COVID-19, por estarem em ambientes mais expostos ao vírus. Mas também têm sido as mais prejudicadas ao perderem seus trabalhos remunerados em vários outros setores da economia, desnecessário dizer, em crise.

Em crises, como diz um ditado popular, “quem está montado à cavalo, continua montado e quem está à pé, continua à pé. A participação das mulheres no mercado de trabalho ocorre principalmente no trabalho informal ou em serviços mais precários, os primeiros a serem  afetados na crise.  Vale lembrar que no Brasil as mulheres são chefes de família em mais de 40% dos lares, ou seja, são responsáveis pelos filhos e agregados. A desigualdade tem cara de mulher e, no nosso país, de mulher negra.  O impacto da perda de trabalho repercute, num perverso efeito cascata, no desenvolvimento das crianças e jovens que dependem dessa  recurso para sobreviver. Por  insensibilidade ou por um certo distanciamento de tal realidade, pode-se pensar que esses problemas são particulares dessas famílias, mas só que não: evidentemente todo o desenvolvimento do país fica comprometido, já que a vida privada está absolutamente interseccionada com o modo de funcionar dos sistemas econômicos.

O manifesto da ONU Mulheres e do W20 propõe que as mulheres estejam no centro dos esforços de recuperação da crise já que representam um papel central na economia desses países.  Não só respondem por 37% do GDP global como também garantem o trabalho de todos ao se ocuparem do trabalho de cuidado não remunerado necessários para a sobrevivência da força de trabalho seja de homens ou de outras mulheres. Não é o caso de discutir aqui o papel das empregadas domésticas na sustentação do trabalho das mulheres das camadas médias, no contexto brasileiro.

O manifesto considera que as propostas de ação de recuperação econômica dos países do G20 sejam responsivas às questões de gênero, com crédito e outras políticas monetárias específicas, em especial no Sul Global.  O manifesto apela para que ministros de Economia e diretores de Bancos Centrais coordenem esforços globais nas prioridades de curto e longo prazo. As mulheres têm tido um papel fundamental na resiliência e enfrentamento do COVID-19 e são atores centrais na recuperação econômica. Tal centralidade deveria ser evidente, mas como não é, é necessário trazer os argumentos que podem, no curto, médio e longo prazo,  trazer alguma luz aos dirigentes.

 

(*) Participam da delegação brasileira Ana Fontes (líder), Camila Achutti,  Junia Nogueira de Sá, Maria José Tonelli e Regina Célia Barbosa.

 

(**) Veja o documento na íntegra em: https://www.unwomen.org/en/news/stories/2020/7/statement-joint-w20-women-during-covid-19-and-beyond

 

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