Mudanças climáticas e pobreza: o papel das finanças inclusivas

REDAÇÃO

29 de junho de 2016 | 07h28

Lauro Gonzalez, Professor de Finanças da FGVSP, onde também coordena o Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira.

Rafael Moser, Pesquisador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV

O Brasil vivencia um contexto de crise política e econômica que se arrasta há meses e promete contaminar o futuro próximo. Diante disso, eventuais preocupações com questões climáticas e ambientais podem parecer fora do lugar, quase um luxo para o atual momento. Entretanto, é crucial lembrar que, mundo afora, a parcela mais pobre da população é justamente a mais exposta aos efeitos adversos de eventos climáticos extremos e, mais amplamente, da mudança do clima. No Brasil, estudos recentes apontam evidências similares, tornando as preocupações ambientais parte integrante de qualquer estratégia séria de preservação dos avanços sociais recentes.

De maneira emblemática, diversos eventos climáticos extremos ocorreram em um período próximo à Conferência Internacional do Clima, realizada em Paris no final de 2015. Por exemplo, em 2014, o Reino Unido registrou as piores enchentes dos últimos 248 anos. A Califórnia entrou em 2015 no seu quarto ano de seca histórica. Segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, da UFSC-CEPED, no período 1991-2012, o Brasil registrou um aumento significativo na incidência de desastres naturais, com mais de 120 milhões de brasileiros afetados, sendo a maioria pobre.

De fato, quanto mais pobre uma pessoa ou comunidade, maior  sua suscetibilidade e vulnerabilidade aos efeitos negativos de mudanças e eventos climáticos extremos. As razões são diversas: i) forte dependência de recursos ecossistêmicos; ii) moradias precárias e em áreas de risco; iii) falta de mecanismos de proteção, tais como seguros, poupança  e empréstimos emergenciais. Ainda mais grave é o fato de que a ausência de ações que aumentem a resiliência e capacidade adaptativa dessa parcela da população acaba produzindo um círculo vicioso de pobreza.

Pesquisadores do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira  da FGV publicaram recentemente estudos sobre as sinergias entre as finanças inclusivas e ações na temática das mudanças climáticas no pais[1]. No semiárido nordestino, por exemplo, analisou-se a carteira de produtos e serviços do maior programa de microcrédito rural do Brasil, o Agroamigo, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), cujo público alvo são os agricultores familiares uma faixa de população rural altamente exposta a intempéries climáticas. A análise evidencia que aproximadamente 80% da carteira de produtos já possui algum tipo de sinergia com ações de mitigação e/ou adaptação às mudanças climáticas. Por exemplo, crédito para atividades produtivas visando diversificação de fontes de renda, uma ferramenta crucial em termos de mitigação da exposição a choques climáticos.

Por outro lado, cerca de 14% da carteira necessitaria ser revisitada de modo a levar em consideração variáveis climáticas de potencial risco para os clientes e para o próprio banco. Em 2013, clientes de vários estados nordestinos despejaram carcaças de gado, vítimas da seca, em frente a uma unidade do banco como protesto pela anistia de suas dívidas e por mais concessão de crédito. Em uma ação emergencial, o BNB alocou cerca de R$3.4 bilhões em crédito para clientes do semiárido, cifra três vezes maior que a carteira ativa do Agroamigo. Além dessa medida, 80% de bônus e prazo de 10 anos foram conferidos aos agricultores familiares. Se eventos como esses acontecerem com maior frequência, a performance financeira do maior programa de microcrédito rural do país poderá ser comprometida, fato ainda mais negativo se considerarmos a necessidade de contenção de gastos públicos.

A boa notícia é que, a despeito do cenário econômico brasileiro apontar para um quadro de austeridade no curto e médio prazo, o acordo de Paris permite alavancar as fontes de recursos internacionais para projetos para adaptação  e mitigação, principalmente em favor dos mais pobres.  Nesse cenário, as microfinanças, ou mais amplamente as finanças inclusivas, emergem como peça chave na canalização de recursos climáticos para a população mais exposta e vulnerável. Ancoradas na proximidade e no conhecimento das comunidades em que operam, as finanças inclusivas se colocam em posição estratégica para proteção da população mais vulnerável e preservação da qualidade de vida.

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