Mother do you think they will drop the bomb?

Mother do you think they will drop the bomb?

REDAÇÃO

05 de agosto de 2022 | 21h32

Wolf Ejzenberg, Mestre em Direito Internacional pela USP, autor de Desarmamento Nuclear (Arraes, 2017), sócio de Ernesto Tzirulnik – Advocacia

A música ‘mother’, lançada pela banda Pink Floyd em 1970, ilustrava como o medo das bombas atômicas povoava o imaginário popular daquele período. Estava-se no auge da Guerra Fria, com deflagração aberta no Vietnã, poucos anos depois de turbulência política relevante na Europa, como se deu na Primavera de Praga e nos movimentos estudantis e sua repressão.

Naquele contexto, era natural que houvesse manifestações variadas, mesmo na cultura pop, refletindo o medo da destruição atômica global. A partir da distensão política ao longo da década de 1980, passando pela queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética, acreditava-se que esse temor seria logo ultrapassado.

Mas, trinta anos depois, em pleno 2022, a humanidade se vê exposta àquele mesmo receio, talvez numa realidade ainda mais angustiante. Se, durante a bipolaridade da Guerra Fria, o alinhamento estratégico era mais claro à hegemonia de EUA e URSS, atualmente se identifica uma multipolarização, com blocos regionais possuindo agendas e alinhamentos próprios, muitas vezes de difícil contenção pelas potências centrais.

Como tempero adicional da receita do reavivamento da ameaça nuclear, não se pode ignorar que houve uma desconstrução de pilares que fomentavam um possível caminho rumo ao desarmamento, como uma série de tratados bilaterais entre Rússia e EUA que foram denunciados, ou simplesmente perderam validade pela perda de vigência, sem renovação.

Nesse cenário, a recente invasão da Ucrânia pela Rússia retomou enredos antigos como testes de armamentos como demonstração de poder, ou, ainda mais preocupante, ameaças explícitas de uso de armamentos atômicos, em tom exacerbado contra os países ocidentais, para que se abstivessem de intervir de modo mais agudo no conflito.

Não se pode descartar que o nível de alarmismo russo diante da inciativa ucraniana de aderir à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a principal justificativa para a guerra que se seguiu, esteja, ele próprio, embrenhado nesse recente acirramento da questão nuclear.

Poucos anos antes, no primeiro semestre de 2019, discursos de Trump e Putin minaram a existência do INF, tratado bilateral assinado por Reagan e Gorbachev em 1987 (https://2009-2017.state.gov/t/avc/trty/102360.htm ), que proibia instalação de misseis balísticos de alcance intermediário em território europeu (alcance variável entre 500km e 5.500 km). Esse tratado veio a ser extinto em agosto de 2019, como consequência da vontade política daqueles líderes.

A perda da limitação imposta por esse tratado tornou intolerável, para os cálculos estratégicos russos, ter a Ucrânia aliada da OTAN, pela ameaça velada de que haveria mísseis nucleares instalados em localidade que impediria tempo de retaliação nuclear adequado. Ao se colocar em xeque o tempo de resposta russo em caso de ataque nuclear, um dos pilares da política de dissuasão nuclear estava na berlinda. Segundo essa política, não há interesse em se utilizar armas nucleares porque o alvo de um ataque inicial retaliaria nas mesmas bases, causando também a destruição do agressor original. A perda dessa garantia de destruição recíproca, paradoxalmente, criava cenário mais instável para as análises russas, o que deve ter colaborado para determinar a invasão na Ucrânia.

Desde então, uma série de notícias vem alarmando a comunidade global a partir de discursos de Putin com ameaças explícitas de uso de armas nucleares, do conflito afetar redondezas de centrais nucleares, ou ainda ao se admitir, em jogos e simulações de cenários no conflito, a hipótese de uso de armas nucleares táticas, assim consideradas aquelas que teriam menor potencial destrutivo e, por essa razão, acredita-se, teriam chances mais reduzidas de suscitar um conflito nuclear em larga escala global.

Todos esses exemplos são gravíssimos e justificam o crescimento do temor de um conflito nuclear.

Muito pior do que as ameaças de uso de armas nucleares em níveis não verificados há décadas, a mera suposição de se utilizar armas táticas é altamente preocupante. Por possuírem menor potencial destrutivo, seu uso efetivo em combate acaba sendo considerado mais plausível. Ocorre que, em todas as simulações de guerra, seu uso sempre acarreta escalada generalizada que culmina em conflito catastrófico para a humanidade (BUNDY, McGeorge; CROWE JR., William J.; DRELL, Sidney D. Reducing Nuclear Danger: The Road Away from the Brink, 1993).

Não é por outra razão que, nas aberturas da conferência do desarmamento realizada pela ONU em 2022, foi divulgada a mensagem de que o mundo está à beira de um conflito nuclear, à mercê de mero erro de cálculo.

Não se trata de alarmismo infundado considerando o nível do acirramento político criado a partir da invasão da Ucrânia e da recente piora na questão China x Taiwan. O tal erro de cálculo, aliás, não é uma abstração inventada para mobilizar a opinião pública global, bastando recordar que, em 2018, o Havaí passou mais de meia-hora sob a certeza de estar na iminência de um ataque nuclear. Mesmo com o aparato avançado norte-americano, houve erro de leitura que poderia ter propiciado ataque em retaliação ao suposto agressor, com consequências inimagináveis.

Na semana em que se realizam justas homenagens às vítimas dos ataques atômicos contra Hiroshima (06/08/1945) e Nagasaki (09/08/1945), é mais do que oportuno insistir na necessidade de a humanidade seguir buscando meios de impor um desarmamento nuclear em nível global, para que a inocente pergunta da criança à mãe sobre risco de ‘eles jogarem a bomba’, como na abertura da música do Pink Floyd, volte a representar somente um medo anacrônico.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.